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Beatriz Seixas

Um apelo pela democracia

Estado democrático de Direito não deveria ser minado pelas diferenças político-partidárias

Publicado em 05 de Outubro de 2018 às 23:00

Públicado em 

05 out 2018 às 23:00
Beatriz Seixas

Colunista

Beatriz Seixas Beatriz Seixas
Urna eletrônica Crédito: abio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil
Na sexta-feira, vim para redação de ônibus pensando em qual abordagem traria para a coluna de hoje. Ao longo da última semana estava certa que o tema não poderia ignorar as eleições, uma das mais importantes desde a redemocratização do Brasil. Mas queria achar um gancho econômico, como sempre busco fazer neste espaço.
No caminho de casa para A GAZETA, ao navegar pelo Twitter, uma publicação com o link de um texto da jornalista Míriam Leitão me chamou atenção. Desta vez, entretanto, não era uma análise econômica, nem mesmo um texto atual que fisgou minha leitura. Mas uma matéria do jornal O Globo, de agosto de 2014, que trazia o relato dela sobre a terrível e traumatizante experiência de tortura que sofreu aqui no Espírito Santo durante a ditadura militar.
Lembro de em 2014 ter lido alguns trechos dessa história horrível, mas na última sexta parece que ela me tocou ainda mais. Embora nada ali tratasse de economia, defini que estava diante do fio condutor desta coluna.
A cada parágrafo foi me dando um nó na garganta, em algumas partes cheguei a ficar arrepiada de pensar o que a jornalista, na época com 19 anos, enfrentou, e quando menos me dei conta já estava com os olhos marejados, perplexa com o tipo de situação a que ela e tantas outras pessoas foram expostas durante esse período de terror, que, por incrível que pareça, para alguns sequer existiu.
Existiu sim! Inclusive bem perto da gente. O suplício de Míriam Leitão começou no início de dezembro de 1972 nos porões do quartel do Exército em Vila Velha, onde ela grávida recebeu um tratamento com tapas, chutes, pancadas na cabeça, além de ter sido obrigada a ficar trancada numa sala escura com uma jiboia. Isso mesmo que você acabou de ler: uma cobra! A repressão não tinha limites. Soldados chegaram a mandar que ela ficasse nua, conforme relatou em seu depoimento ao jornalista gaúcho Luiz Cláudio Cunha:
“Nessa noite, na sala, de novo fui desnudada e os homens passaram o tempo todo me alisando, me apalpando, me bolinando, brincando comigo. Um deles me obrigou a deitar com ele no sofá. Não chegaram a consumar nada, mas estavam no limite do estupro, divertindo-se com tudo aquilo. Eu estava com um mês de gravidez, e disse isso a eles. Não adiantou.”
Mesmo diante de todo o inferno a que foi submetida, a jornalista termina o texto dizendo que não cultiva nenhum tipo de ódio, mas que ainda aguarda um pedido de desculpa das Forças Armadas como um gesto que a daria segurança no futuro democrático do país.
O pedido de desculpas até hoje não veio e lamentavelmente o momento político que estamos passando parece deixá-lo cada vez mais distante. Acho que por isso o depoimento de Míriam Leitão me causou ainda mais indignação e me deixou assustada com o que está em jogo no pós-eleição. Temo que conquistas de liberdade e de oportunidades sejam ameaçadas de acordo com os resultados que tivermos nas urnas.
Por isso, caro leitor, peço sua compreensão por ter deixado a economia um pouco de lado neste domingo para trazer essa reflexão da importância do país não perder seus laços com a democracia. Conquistá-la foi suado e não é hora de vacilar.
Entender que, independentemente da linha político-econômica que qualquer cidadão se identifique, defender o Estado democrático de Direito como uma bandeira comum é sinal de maturidade e de que juntos o país pode crescer.
Com a democracia sólida, aí sim temos muito mais segurança para discutir tantos assuntos que impactam a vida da população. Na área econômica não faltam desafios que precisam ser superados. Previdência, quadro fiscal, mercado de trabalho, burocracia, competitividade, tributação, infraestrutura, inflação, taxa de juros são alguns deles.
A expectativa é que o próximo presidente e os demais políticos eleitos atuem energicamente em prol dessas causas. Antes de mais nada, porém, o apelo é para que eles se comprometam com um país essencialmente democrático.
CADÊ O PROCON?
O aplicativo Consumidor.gov, apesar de existir há quatro anos, não conta com nenhuma empresa local cadastrada. Para fazer uma queixa, é necessário ir presencialmente a algum órgão de defesa do consumidor ou utilizar o atendimento eletrônico dos Procons, que nem sempre funcionam.
 
DIÁLOGO
Desde o lançamento em 2014, o Consumidor.gov tem ajudado clientes insatisfeitos com alguma prestação de serviço a dialogarem pela internet diretamente com a empresa. Apesar de a ferramenta ser administrada pelo Ministério da Justiça, caberia aos Procons contribuírem para incluir mais fornecedores no sistema. Quando isso vai acontecer? Não sabemos. Só não dá para esperar mais quatro anos para isso.
MENOS CUSTOS
Um novo modelo de operações financeiras no meio digital, o chamado open banking, vem ganhando força no Brasil. Na próxima quarta-feira, esse vai ser o tema de um encontro promovido pelo Sicoob-ES. O diretor-executivo Nailson Dalla Bernadina diz que o novo formato reduz custos operacionais.
MINAS É LOGO ALI, UAI!
Minas Gerais é o destino preferido dos passageiros aéreos capixabas. Os voos semanais autorizados pela Anac para Vitória e que estão vigentes totalizam 549. Desses, 107 são para Confins (MG), 98 Santos Dumont (RJ), 93 Guarulhos e 90 Congonhas (ambos em SP). Os outros seis destinos somam 161 voos.

Beatriz Seixas

Beatriz Seixas Beatriz Seixas

Jornalista de A Gazeta, há mais de 10 anos acompanha a cobertura de Economia. É colunista desde 2018 e traz neste espaço informações e análises sobre a cena econômica

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