Há mais de um século, o jovem Castro Alves (1847-1871) escreveu o poema “O Livro e a América” que todos de minha geração sabiam de cor: “Oh! Bendito o que semeia/ Livros... livros à mão cheia.../ E manda o povo pensar!/ O livro caindo n'alma/ É germe – que faz a palma/ É chuva – que faz o mar.” Demorou quase cento e cinquenta anos, mas a atual administração da Prefeitura de Vila Velha ouviu a súplica de Castro Alves, que é também nossa, os esquecidos escritores capixabas.
Participamos da entrega simbólica dos livros adquiridos pela PMVV e os números falam por si: 15.800 livros adquiridos, num total de 110 títulos de 86 escritores capixabas para atender a 63 escolas e a 40.000 alunos. Uau! Eu que estou aqui sempre pra reclamar, termino este ano nada bom para a cultura brasileira, parabenizando e elogiando o Prefeito de Vila Velha, Max Filho, o secretário de Educação, Roberto Belling, as bibliotecárias Eliane Terra e Aline Reis, por promoverem a leitura e a valorização do escritor capixaba em nosso município.
Vila Velha é um poucos municípios capixabas em que todas as escolas possuem bibliotecas e bibliotecários atuando como mediadores de leitura e sem os quais os livros não chegam ao professor e aos alunos-leitores. Esperemos que o exemplo de Vila Velha seja seguido por outros municípios.
Nasci no Caparaó, uma das regiões de menor IDH do Estado; estudei numa escola rural sem livros, sem biblioteca, sem merenda, sem uniforme, sem material escolar gratuito e, no entanto, recebi uma boa educação, pois tive excelentes professoras: Dona Penha, que me alfabetizou, Dona Antônia, Dona Arlene, Dona Aparecida, jamais me esquecerei de todas elas, de sua dedicação aos alunos, do carinho que tinham por nós, pobres crianças sem Google, tevê, tablet, como as crianças de hoje, que têm tanto, mas, a quem, muitas vezes, lhes falta a atenção dos pais atribulados com a vida louca dos tempos internéticos.
Crianças não precisam só de coisas que lhes dão, para as manter ocupadas, enquanto os pais trabalham ou se divertem. Elas precisam, sobretudo, de carinho e de atenção. De gente que as ponha no colo e lhes conte histórias. De um abraço apertado, de um beijo babado e de tempo para ouvi-la, ao ser-lhe perguntado: “Como foi o seu dia hoje?”
Adultos precisam se desconectar do mundo virtual e se ligar ao mundo real, do contato físico, do olho no olho, das mãos nas mãos. Aproveitem as férias e levem os filhos para passear, sem o celular. Não há necessidade de tirar fotos para postar e mostrar aos amigos virtuais a imagem de família feliz. Vá à praia ou ao parque para brincar com eles, sem parar para posar. Registre na memória sua e na deles os momentos que viveram, sem compartilhar com ninguém. Só vocês.
E, ao chegar a casa, não ligue a Netflix, nem pegue cada um sua maquininha de ilusões, mas faça como os pais de antigamente: conte histórias, um bom pretexto para conversar sobre a vida e suas relações conflituosas. Fale com eles sobre a sua infância, de quando não havia rede social e as pessoas eram felizes de verdade, sem precisar postar a felicidade para alguém ver. Bastava viver. E era muito bom. Feliz Natal e um 2020 mais desconectado com as máquinas e mais ligado às pessoas.