O governador Paulo Hartung (PMDB) é um dos muitos críticos do deputado federal Jair Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República pelo Partido Social Liberal (PSL). Não é de surpreender: politicamente, os dois são quase como água e óleo. Mas aliados de Bolsonaro estão abrigados no governo Paulo Hartung. O nº 1 na cadeia de comando do partido de Bolsonaro no Espírito Santo, Carlos Manato, tem aliado lotado em cargo estratégico na cozinha política do governo. Já o nº 2, Amarildo Lovato, acaba de ser promovido. Como explicar?
A origem política de Hartung se confunde com a luta contra a ditadura militar que governou o Brasil de 1964 a 1985; a de Bolsonaro, com a própria ditadura. A história de Hartung é marcada pela luta em favor do resgate das liberdades democráticas; a do capitão da reserva do Exército, pela defesa intransigente de tudo o que os militares fizeram no poder, inclusive crimes de tortura e assassinatos políticos.
Hartung se diz um democrata e se define como político de centro-esquerda; Bolsonaro é o antidemocrata convicto. Em tudo o que diz e defende, representa a encarnação do espírito autoritário de extrema direita, simbolizado por frases de efeito como “minorias devem se calar”.
Hartung classifica como “medieval” a ideia de que “bandido bom é bandido morto”. Bolsonaro não só a endossa como prega a solução da violência com violência: acha que bala é o que resolve (não o que agrava) os problemas de segurança pública no país.
Em suma, na macropolítica nacional, que passa pela escolha do próximo presidente, Hartung não poderia ter menos em comum com Bolsonaro e com os defensores da candidatura dele. Por essa linha de raciocínio, também na política estadual, não faria o menor sentido que o governador mantivesse algum tipo de relação política, menos ainda uma aliança, com o partido e com os aliados de Bolsonaro no Espírito Santo.
Mas não é bem assim. Muito pelo contrário, aliás. Nomeações publicadas no Diário Oficial do Estado na última sexta-feira provam que, diferentemente do que ditaria a lógica, aliados de Bolsonaro têm espaço no governo Paulo Hartung, o que se traduz na ocupação de cargos importantes de 2º escalão.
Para concorrer à Presidência, Bolsonaro se filiou ao nanico PSL. No Espírito Santo, o militar tem como principal aliado o deputado federal Carlos Manato, que por sua vez acaba de ser alçado à presidência estadual do PSL, justamente a fim de construir o palanque bolsonarista em solo capixaba. Além disso, Manato é um dos grandes defensores da greve da PMES em 2017 e da anistia irrestrita aos policiais aquartelados em fevereiro daquele ano, posição que o coloca em rota de colisão com Hartung.
Pois bem, apesar das diferenças ideológicas, o varejo da política local e a meta de construir um palanque próprio o mais amplo possível para a vindoura eleição ao governo estadual aparentemente têm falado mais alto. Hartung acaba de nomear um antigo aliado e ex-assessor de Manato como subsecretário administrativo da Casa Civil – onde são tecidas as articulações políticas do governo. Seu nome é Rosemário Vilarim, conhecido como Miro Vilarim. Ele já estava na equipe de Hartung, como assessor especial da Secretaria de Governo. Já o vice-presidente estadual do PSL, Amarildo Lovato, passa a dirigir o Instituto de Pesos e Medidas do Espírito Santo (Ipem-ES).
Como se prova mais uma vez, a política estadual não obedece à lógica nacional. Para dizer a verdade, não obedece a lógica alguma. Muito menos ideológica.
Amarildo Lovato
Vice-presidente do PSL-ES (era o presidente, mas cedeu o posto a Manato), Lovato já era diretor administrativo e financeiro do Ipem-ES. Agora assume a direção-geral, a convite de Hartung. “Fui promovido pelo governador”, afirma ele.
“Cargo técnico”
“Esse cargo não é do PSL. É um cargo técnico”, argumenta Lovato, que ainda diz apoiar a reeleição de Hartung. Ele já foi diretor administrativo e financeiro do Sebrae e diretor técnico da Aderes.
Parceiro de Manato
Manato confirma que o novo subchefe da Casa Civil, Miro Vilarim, é um velho parceiro político. “É meu amigo e foi meu parceiro nas eleições minhas e dele.” Miro bateu na trave na eleição a prefeito de Itaguaçu duas vezes, em 2012 e 2016. Ambos estavam juntos no SDD. Mas, quando Manato pulou para o PSL, em março, Rosemário preferiu ir para o PTB.
“Coisa pessoal”
Quanto a Lovato, Manato frisa que ele já estava nomeado no Ipem-ES há muito tempo e só trocou de função. “Isso é uma coisa pessoal dele com o governador. Espero que ele faça um bom trabalho. Mas não tem nada a ver com o PSL.”
“Somos Bolsonaro”
Segundo o deputado e dirigente do PSL, a “promoção” de Lovato não significa nenhum tipo de compromisso prévio do partido com a campanha de Hartung. “Nossa posição é muito clara: nós somos Bolsonaro. Não estamos discutindo eleição majoritária ao governo do Estado. Nós só vamos discutir lá na frente o que for melhor para o Bolsonaro.”
Constatação
Manato está brincando de riscar fósforos perto da poça de querosene.
CENA POLÍTICA
Um atento observador da cena política capixaba não deixou passar despercebida uma mudança no governo Paulo Hartung estilo “seis por meia dúzia”: sai Fonseca Júnior, entra Fonseca Júnior. José Carlos da Fonseca Júnior deixou a Casa Civil. Paulo Renato Fonseca Júnior assumiu a Secretaria estadual de Turismo.