Para empresas que não se intimidam com o potencial e o gigantismo do mercado nacional, esse mercado não tem sido tímido quando se trata de resultados. Companhias capixabas têm provado ao longo dos últimos anos, e mesmo em meio ao cenário recessivo, que é possível crescer e se impor Brasil afora de forma competitiva.
Muitas vezes, o setor produtivo tem um discurso de que as coisas sempre são muito difíceis, andam mal, a burocracia não deixa ninguém trabalhar e as perspectivas são incertas, mas quando conhecemos exemplos de organizações que colocam o Espírito Santo como vitrine de bons negócios, vemos que a filosofia adotada por elas - de trocar os desafios por estratégias e metas sólidas - faz a diferença para o sucesso.
Para empresas com esse perfil, limitações existentes no Espírito Santo, como ocupar 0,54% do território nacional, responder por menos de 2% da população brasileira ou ter participação de apenas 1,8% no Produto Interno Bruto (PIB) do país, ao invés de significarem restrições de escala, levaram empresários a buscarem mais mercado consumidor fora das divisas capixabas e, hoje, em vários segmentos, o Estado já está entre os primeiros em volume de vendas. Um desses exemplos vem de Colatina, com a empresa Metalosa. Ela é a maior fabricante de carrinhos de mão do Brasil. O diretor-superintendente, Lucio Dalla Bernardina, conta que por ano são produzidas cerca de 700 mil unidades, voltadas principalmente para o setor da construção civil. Ele observa que 95% do consumo dessas mercadorias e dos demais itens fabricados pela empresa, como válvulas, cubas e materiais elétricos, vêm de fora do Espírito Santo. Considerando o mercado interno ainda meio cambaleante, a companhia, que prevê crescer 15% neste ano, tem também ido ao exterior para fazer negócios. Ela acabou de fechar um contrato de exportação para o Uruguai e está em negociações com o México.
Outra empresa líder no seu segmento é a capixaba Fortlev, há 30 anos no mercado. Ela, que produz caixas d’água e itens como tubos e conexões de PVC, tem sete fábricas pelo país e projeta a sua oitava para o início de 2019 em Manaus.
Em outro ramo, o de desenvolvimento de infraestrutura, a VTO Polos Empresariais, além de atuar no Espírito Santo, está presente em Santa Catarina, São Paulo, Mato Grosso, Minas Gerais e Pernambuco. O diretor-executivo, Alexandre Schubert, diz que para crescer a companhia faz um plano estratégico a cada cinco anos, onde identifica quais Estados e municípios são os novos eixos de desenvolvimento e para onde deve ir. “O Espírito Santo tem vantagem logística e segurança jurídica muito positivas, mas é um mercado pequeno. Por isso, é importante que as empresas saiam da posição de conforto”, destaca ao citar que, para os próximos 4 anos, a VTO planeja lançar mais de 1 milhão de m2 de áreas vendáveis, dobrar o tamanho atual e investir mais de R$ 200 milhões.
A tradicional expressão “tamanho não é documento” cabe muito bem para o Espírito Santo, mas só vale para quem não se conforma com pouco.
ENTREVISTA
"O que nos referenda são os nossos clientes”
Há 22 anos nos mercado, a empresa capixaba Time-Now Engenharia SA está presente em 23 Estados brasileiros e prevê encerrar 2018 com um faturamento de R$ 113 milhões. Com 607 funcionários, ela, que gerencia empreendimentos e obras industriais, acaba de conquistar lugar de destaque no seu segmento de atuação ao ficar na 15ª posição no ranking das principais companhias de engenharia do país. A coluna conversou com o fundador e CEO da empresa, Francisco Carvalho.
A empresa alcançou um importante resultado no último mês. Do que se trata?
Há uma publicação especializada que traz anualmente a lista das “500 Grandes da Construção”, e no ranking de engenharia consultiva, a Time-Now foi a 15ª maior do Brasil. Se considerarmos as empresas apenas com capital nacional, estamos entre as cinco maiores. Isso para nós é muito importante porque nos coloca em evidência no mercado e faz com que grandes contratantes entendam o nosso potencial para atuar em grandes projetos. Imagina, lá atrás tínhamos uma receita de R$ 1 milhão por ano e agora nossa previsão é fechar 2018 com R$ 113 milhões. Quando começamos a acompanhar mais de perto esse ranking, em 2010, ocupávamos o 51º lugar. Desde então fizemos um planejamento estratégico e nosso desafio é chegar em 2020 entre as 10 primeiras do país. Isso nos orgulha muito, assim como o fato de em 22 anos de existência, em 20, termos crescido. Somente em um ano, 2009, não avançamos e em outro, 2015, ficamos no zero a zero.
Considerando que de 2014 para cá a economia se fragilizou e os investimentos em grandes projetos praticamente inexistiram, como fizeram para crescer?
A diversificação de clientes ajuda a nos sustentar. Hoje atendemos variados segmentos como químico, petroquímico, etanol, automotivo, celulose e papel, mineração, siderurgia e outros. Além disso, sempre fomos muito conservadores em termos de caixa e, ao longo da nossa história, tivemos o cuidado de não nos alavancarmos demais. Outro ponto é que, mesmo fazendo adequações diante de um mercado recessivo, nunca deixamos de investir em inovação e tecnologia, o que nos diferenciou no mercado.
Também adotamos uma estratégia que é não depender apenas dos grandes projetos e das expansões industriais, que acontecem de vez em quando na vida das empresas, e em momentos de crise eles sempre ficam para mais tarde. Mas existem investimentos para a planta industrial se manter operando, esses, as empresas não podem deixar de fazer. Então, trabalhamos fortemente no gerenciamento do portfólio de projetos com esse perfil.
Por exemplo, em 1999, conseguimos o nosso primeiro contrato com a então Aracruz Celulose e, no ano que vem, vamos completar 20 anos de contrato ininterrupto. Esse tipo de trabalho dá à empresa uma receita estável, e aí quando vem um projeto de um novo empreendimento, temos um salto de receita.
Desde a fundação, a empresa vislumbrava atuar fora do Estado? E o fato de ser capixaba trouxe algum tipo de dificuldade de inserção nacional?
Começamos a buscar novos mercados no início de 2000 e, desde então, esse trabalho foi se intensificando. Hoje, 95% da nossa receita vem de fora do Estado. Mas mesmo o Espírito Santo sendo pequeno em relação à economia nacional, ele foi muito importante para nós na formação de conhecimento, afinal temos aqui indústrias fortes, como de celulose, mineração, siderurgia, óleo e gás, alimentos. Então, quando começamos a trabalhar para companhias dessas áreas aqui no Estado, várias portas de abriram no Brasil. Por exemplo, trabalhamos para a Fibria, e portas se abriram na Klabin, atuamos com a Arcelor e surgiram depois oportunidades com a Gerdau, e por aí vai. O que nos referenda no mercado é quem são os nossos clientes. Prestar serviços para Vale, Garoto, Arcelor e outras nos qualificou para ir para fora.