O Brasil que escolheu Jair Bolsonaro expressou um clamor contundente por mudanças nos modelos político, econômico e pelo resgate da moralidade no setor público. Mas Bolsonaro não tem o cheque em branco que pode estar imaginando. O ataque à imprensa, por exemplo, revela sopro de insensatez. É deplorável.
O novo governo começa a atrair notáveis – como Moro, entre outros –, mas o desenho administrativo contém polêmicas. Uma dela é o combo dos ministérios. Fazenda, Planejamento, e Indústria, Comércio Exterior e Serviços se transformariam único e superministério, o do Desenvolvimento.
Tivemos um experimento dessa química no regime militar. Pastas não foram extintas (até porque o número era a metade do atual) mas o mando de Delfim Netto, o czar, prevalecia em todas. E sem contestação. Era ditadura.
Collor foi adiante. Fundiu exatamente os mesmos ministérios (hoje na mira de Bolsonaro) e entregou a chefia do bloco unificado a Zélia Cardoso de Mello, que não soube afinar a orquestra. Paulo Guedes saberá? Talvez, os erros da experiência zelista sirvam de lições preventivas.
Zélia durou pouco no cargo – de 1990 a maio de 1991, quando foi substituída por Marcílo Marques Moreira – mas deixou como herança a abertura da economia, diminuindo sua forte blindagem à concorrência estrangeira. Já há chiadeira contra Guedes por causa da anunciada retirada de barreiras tarifárias e não tarifárias para uma longa lista de produtos oriundos do exterior.
O Brasil é um dos países mais protecionistas do mundo, e o setor privado teme a derrubada abrupta de muros – como ocorreu na era Collor – o que arrasaria a receita de muitas empresas, provocando quebradeira e desemprego. Em outras palavras, afirma que enquanto o custo Brasil (excesso de impostos, de burocracia, deficiências infraestruturais etc) não cair a níveis competitivos, o governo deve evitar certas ansiedades.
Trovoada política também ameaça abortar a incorporação do Ministério do Meio Ambiente pelo Ministério da Agricultura. A questão envolve viés ideológico, segundo o qual o ambientalismo seria sufocado pela agropecuária. A verdade é que não há mais mercado para atividade econômica fora de padrões sustentáveis.
Para modernizar, o governo terá de enfrentar lobbies. Em princípio, a bariátrica ministerial é saudável. Reverte a onerosa proliferação de pastas usadas como moeda para subornar políticos. Isso é o Brasil velho, que precisa mudar.