Desnecessárias mais descrições sobre o vídeo publicado pelo presidente da República que, enquanto Leão, foi perseguido por um grupo de hienas institucionais. Não havia uma única hiena que ostentasse nome próprio. Todas nominadas com siglas (STF, PSL, OAB, CNBB e etc...). Absolutamente sintomático! Antes de seguir à análise, é importante que se diga que o presidente, rapidamente, apagou a postagem e reconheceu o erro. Seria o suficiente para passar uma “borracha” e arquivar o caso?
Seria, não fosse a reiteração de desatinos da mesma natureza. Um vídeo assim, postado em uma rede social, pode parecer fruto de equívoco momentâneo, do presidente ou do seu filho. Entretanto, não o é. As imagens falam sobre o Brasil. Sobre o nosso desprezo pelas instituições e o nosso culto às personalidades, aos cavaleiros, ao estalo do chicote, aos heróis e aos leões.
Estamos sempre dependentes de uma figura personificada que encarne o salvador, o redentor: Manuel Deodoro da Fonseca, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitscheck, Tancredo Neves, Collor, Lula ou Bolsonaro. Sempre as mesmas expectativas, sempre “um” personagem exuberante, popular e populista. Quem será o próximo?
Apenas para continuar no vídeo do presidente, talvez as hienas tenham muito o que ensinar aos leões. Elas são os predadores mais eficientes da África porque são organizadas e trabalham em grupo. São consideradas os carnívoros mais socialmente complexos do mundo, com vínculos sociais sofisticados. E nós? Há quem diga que somos assim porque, aqui, o Estado chegou antes da sociedade civil, e daí decorreria o nosso desapreço por regras e arranjos institucionais de regulação social.
A hipótese é a de que teríamos um defeito de “fabricação” que pode levar gerações para ser corrigido, sobretudo, enquanto continuarmos a procurar soluções “fora da política” e da institucionalidade. Bertolt Brecht advertiu que é “triste a nação que precisa de heróis”. Ruy Barbosa, citado no episódio pelo ministro Ayres Brito, já dizia “salvação sim, salvadores não”!
É preciso, senão recuperarmos - não sei se já a tivemos - buscarmos o sentimento e a configuração social de nação, grupo e povo. Desfazer esse triste fracionamento que se nos foi imposto, ou, no mínimo, sugerido por nossos “heróis”. Espantar esse muro simplista que nos fez coxinhas ou mortadelas. Principalmente porque em termos de fundamentalismo, cegueira e intolerância ao diverso, não consigo encontrar diferenças significativas entre os “seguidores” de Bolsonaro e os de Lula.
Mas, no fim, não é o Brasil o que importa?! Vamos, gente! Vamos atravessar os desertos pessoais e alcançar o oásis institucional. Porque Fernando Pessoa falava português e fez a séria advertência: “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo. Esquecer os caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos”! Serão essas as margens do Ipiranga?!