*José Augusto Carvalho
Grafema é um sinal gráfico distintivo, que pode ser uma letra, como a que distingue pato de pago, ou a cedilha, que distingue paco de paço, ou um acento, como o que distingue pode (pres. do indicativo) de pôde (pretérito perfeito). Também grafema é o acento agudo que distingue a sílaba tônica (proparoxítona) de sua similar átona (paroxítona) nas palavras homógrafas, como fábrica/fabrica, por exemplo, fenômeno a que se dá o nome de tasema. Isso significa que qualquer letra é um grafema, mas nem todo grafema é letra.
O x é um grafema que pode representar vários sons: ora z, como em exame; ora ks, como em fixo; ora c, como em máximo, ora ch, como em lixo. Em todas as palavras começadas por hex-, o x representa os seguintes sons: z, ks ou gz. Ex.: hexágono, hexassílabo, hexaedro, hexacloreto, hexógeno, hexâmetro, hexagrama, hexacampeonato, etc. O Houaiss registra as pronúncias z, ks, gz nas palavras que têm hex-, como hexaedro e hexacampeão, embora o povo só diga estranhamente hekzaedro, hekzacampeão, em que o x soa como trífono, isto é, como três sons (há na pronúncia a inserção de um i entre k e z: hekizaedro, hekizacampeão para desfazer o encontro consonantal). Se o x é um dífono, isto é, se representa dois sons, então a pronúncia deveria ser ks, e não kz, que não existe para o x em português. Assim, se fôssemos aceitar o x como dífono, nas palavras começadas por hexa-, então a pronúncia seria heksacampeão, heksacampeonato, e não hekzacampeão, hekzacampeonato.
Existe na língua um fenômeno chamado “assimilação”, que consiste na mudança de um som por influência de outro. O s de “deste” ou de “vespa” soa s, como o c de “cebola”. Da mesma forma, em “mesmo” ou em “desde”, o s soa z (mezmo, dezde), porque a sonoridade das vogais e consoantes se transferiu para o s, que soa sonoro. O x em hexa- poderia soar ks, porque ambas as consoantes são surdas, ou gz, em que ambas as consoantes são sonoras, ou como z, sonoro entre vogais sonoras. O mesmo fenômeno de assimilação ocorre em “cosquinha” (oriunda de “coceguinha”, diminutivo de “cócega”, com síncope da vogal pré-tônica anterior). Como seria difícil pronunciar “cosguinha” (uma consoante surda antes de uma consoante sonora), houve um ensurdecimento da consoante da sílaba tônica e ambas soam surdas sk: coskinha. Assim, é mais difícil dizer “ekza” do que “eksa” na pronúncia da palavra “hexacampeão” (ou ambas as consoantes soam surdas, ou ambas soam sonoras). A sequência cz existe em português apenas na escrita, em algumas poucas palavras, como “eczema” e derivados, ou “czar” e derivados, mas nunca para o valor de x . Mas essa pronúncia, pretensamente reforçada pela escrita com z, não existe, porque, entre o k e o z se introduz uma vogal alta: i, fenômeno a que se dá o nome de suarabácti: ekizema, kizar. É por causa da assimilação que o povo pronuncia “subzídio” por “subsídio” ou “subzistência” por “subsistência”, fazendo soar sonoro o s depois de consoante sonora (o s depois de b soa s, surdo, segundo a prosódia oficial, exceto em “obséquio” e derivados).
No Dicionário de dificuldades da língua portuguesa (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996), no verbete hexa-, Domingos Paschoal Cegalla recomenda a pronúncia “egza”. Consequentemente, para ele, o torcedor da Seleção brasileira deveria dizer egzacampeonato” e não ekzacampeonato ( hexacampeonato).
Como será que os torcedores pronunciarão “hexacampeão”, se o Brasil for campeão nesta copa?
*O autor é doutor em Letras pela USP.
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