Durante o período neonatal, ou seja, nos primeiros 28 dias de vida, é fundamental realizar exames para descobrir se o bebê está saudável e investigar possíveis doenças. Além do teste do pezinho, feito em 96,5% das crianças, conforme dados da pesquisa “Neonatal screening tests in Brazil: prevalence rates and regional and socioeconomic inequalities” , publicada no Jornal de Pediatria, outras análises menos conhecidas também devem ser feitas.
O teste do coraçãozinho, por exemplo, é igualmente importante e pode detectar cardiopatia congênita crítica, uma doença que atinge de 1 a 2 bebês a cada mil recém-nascidos e, em 30% dos casos, não recebe diagnóstico, segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Bianca Borges, profissional da área de obstetrícia no AmorSaúde, ressalta a importância dos exames e afirma que eles não causam muito desconforto ou dor no bebê. “Esses testes são considerados procedimentos seguros, não invasivos ou minimamente invasivos, ou seja, não machucam muito, e são de baixíssimo risco”, explica. De acordo com a médica, a realização deles pode ser a chave para manter o bebê saudável.
Testes e doenças detectadas
Bianca Borges explica que os testes da triagem neonatal podem detectar surdez, problemas de visão ou no coração e doenças tratáveis. A médica detalha cada um dos exames e explica como eles são realizados:
- Teste do pezinho: deve ser feito entre o 3º e o 5º dia de vida, por meio da coleta de gotas de sangue do calcanhar do bebê. O exame, na rede particular, detecta uma gama maior de doenças e pode encontrar sinais, por exemplo, de deficiência na tireoide, anemia e fenilcetonúria, uma doença rara que causa problemas cerebrais, mas é tratável se detectada precocemente;
- Teste do olhinho: nesse exame, o médico verifica o reflexo da luz na retina do bebê. É possível checar alterações nos olhos que possam bloquear a visão, como catarata congênita, glaucoma congênito e retinoblastoma, um tipo de tumor ocular;
- Teste da orelhinha: um pequeno fone é colocado na orelha do bebê para avaliar se a criança responde aos estímulos sonoros. Desta maneira, é possível detectar surdez congênita;
- Teste do coraçãozinho: deve ser feito entre 24 e 48 horas de vida. O exame mede a oxigenação do sangue na mão direita e em um dos pés do bebê. Com o resultado, é possível analisar se existem doenças cardíacas, como malformações no coração que exigem cirurgias precoces;
- Teste da linguinha: disponível apenas na rede particular, esse teste avalia o freio da língua do recém-nascido. O exame detecta anquiloglossia, popularmente conhecida como língua presa, que pode atrapalhar a amamentação e, futuramente, a fala.
Segundo Bianca Borges, caso os médicos detectem alterações, os exames podem ser refeitos. “No caso do teste da orelhinha, se o bebê não responder aos estímulos na maternidade, ele deve repetir o exame em até 30 dias. O teste do olhinho, por sua vez, precisa ser repetido pelo pediatra nas consultas de rotina , pelo menos duas vezes ao ano, até os 3 anos, já que algumas condições podem se manifestar mais tarde”, resume.
Riscos de não realizar os exames
Deixar de fazer os exames da triagem neonatal pode trazer grandes riscos para o recém-nascido e complicações ao longo da vida. “O maior perigo de pular ou atrasar esses exames é que a imensa maioria das doenças rastreadas é assintomática no início. Ou seja, o bebê parece perfeitamente saudável por semanas ou meses, enquanto a doença está agindo silenciosamente”, alerta Bianca Borges.
Segundo a médica, não tratar as doenças nos primeiros dias de vida pode gerar sequelas irreversíveis. “No caso do hipotireoidismo congênito e da fenilcetonúria, detectados pelo teste do pezinho, a falta de tratamento imediato leva a um atraso irreversível no desenvolvimento do bebê e pode gerar deficiências intelectuais”, enfatiza.
Ignorar ou atrasar os exames também pode gerar cegueira ou surdez permanentes e impedir o desenvolvimento correto de funções cerebrais. Além disso, a médica também destaca que a ausência dos exames causa risco de morte súbita. “Doenças no coração não diagnosticadas e crises decorrentes da hiperplasia adrenal congênita podem ser fatais nos primeiros meses de vida”, afirma.
Triagem inicial não define diagnóstico
Por fim, Bianca Borges defende que um resultado alterado na triagem inicial não é um diagnóstico definitivo, mas um sinal de alerta de que o bebê precisa de atenção. Em caso de alterações, os pais não devem se desesperar, mas procurar atendimento com um pediatra. “O bebê será encaminhado para exames específicos, como análises de sangue, ou para avaliação de geneticistas, cardiopediatras e oftalmologistas, para confirmar ou descartar a doença”, explica.
Conforme a médica, os tratamentos podem incluir fórmula infantil especial, reposição hormonal, uso de colírios ou cirurgia. “Quanto antes o tratamento começar, maiores serão as chances de a criança crescer sem sequelas e com excelente qualidade de vida”, reforça.
Por Fellipe Gualberto