Desde 1º de outubro, os planos de saúde são obrigados a cobrir o DIU hormonal para mulheres com endometriose que têm contraindicação ou não se adaptam aos anticoncepcionais orais combinados. A cobertura foi aprovada pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) em 18 de setembro.
A mudança acompanha uma forma nova de olhar para a doença. Segundo a ginecologista e mastologista Thaíssa Tinoco, a endometriose vai além de uma cólica forte ou de um problema restrito ao sistema reprodutor: há evidência crescente de que a inflamação que ela provoca repercute para além da pelve.
A endometriose acontece quando o endométrio, tecido que reveste a parede interna do útero, está fora dele, na cavidade pélvica. "A cada mês, quando o ovário funciona, os hormônios são produzidos para estimular o endométrio do útero a crescer. Esse tecido parecido com o endométrio, em volta do útero, sofre esse estímulo hormonal e gera ali um processo inflamatório local".
A inflamação sistêmica, ressalta, não significa que todas as pacientes terão lesões espalhadas pelo corpo. Ainda assim, gera "uma repercussão no corpo inteiro de fadiga, alterações do sono, um sofrimento emocional".
Por isso os sintomas variam. Além da cólica, a ginecologista cita dor no umbigo e dor lombar que irradia para as pernas. Foi o que aconteceu com Maria, de 14 anos. A mãe, a fisioterapeuta Aneline Lourenço, conta que as dores começaram já no primeiro ano de menstruação, mas não no pé da barriga: a adolescente sentia dor na região do umbigo e também nas pernas.
Como a dor também surgia fora do período menstrual, a mãe não a relacionou ao ciclo e levou a filha a outros especialistas, como gastropediatra."Eu ia a médicos, ninguém suspeitou de endometriose. Com a dor no umbigo, ninguém suspeitou. E fazia exame, ultrassom, ninguém pediu uma ressonância", relembra Aneline.
Apesar de tão nova, Maria já enfrentou, no início deste ano, hemorragias graves causadas pela própria doença, além de anemia severa e fraqueza.
Para reduzir a inflamação e a velocidade com que as lesões crescem, o bloqueio hormonal é um dos principais recursos. O hormônio pode vir de várias formas: DIU, via oral ou anel vaginal. "A questão do DIU é uma ampliação, é mais uma opção", diz a ginecologista, que lembra que o tratamento é muito individualizado.
O hormônio liberado pelo DIU provoca uma atrofia do endométrio, dentro e fora do útero, e reduz o estímulo hormonal nas lesões. "Se diminui o estímulo hormonal, diminui a inflamação e ajuda na dor", explica a médica.
Entre as vantagens do DIU, ela cita não exigir rotina diária, o que ajuda adolescentes que esquecem a pílula, e durar no mínimo cinco anos. Também tem menos efeito na libido e não causa as alterações gastrointestinais que algumas mulheres sentem com o hormônio oral.
Apesar do nome parecido, o DIU de cobre, disponível no SUS como método contraceptivo, é diferente do hormonal: não libera hormônio e, por isso, não tem efeito sobre a endometriose.
De acordo com a médica, pode até piorar o quadro: "Piora significativa da dor e piora das lesões. Progressão das lesões de forma importante." A piora costuma ser nítida, e a maioria das mulheres acaba retirando o dispositivo. Para quem é atendida na rede pública, a ginecologista cita o bloqueio hormonal oral como uma opção.
Vale lembrar que o bloqueio hormonal não impede a doença de crescer, mas ela cresce mais devagar. Por isso, mesmo sem dor, é preciso manter o acompanhamento, em geral com exame de imagem uma vez por ano. E ele não age sozinho. Para ilustrar, a ginecologista recorre ao futebol: "O tratamento da endometriose é um jogo de futebol. Eu sou a goleira. Eu posso estar fazendo a partida da minha vida, pegando todas as bolas [...] Mas mesmo assim eu perdi a partida. [...] O jogo não depende só da minha atuação."
O tratamento, completa, depende de vários outros fatores que, juntos ao bloqueio, fazem a mulher ficar bem. A base é a mudança de hábitos: alimentação, atividade física regular e suplementação anti-inflamatória.
No caso de Maria, o caminho não passou pelo DIU. Para parar o sangramento, ela tomou um anticoncepcional oral, mas suspendeu a pílula com um mês e meio, após reações adversas intensas. Hoje usa um remédio que age na coagulação durante a menstruação, aliado a acompanhamento nutricional, vitaminas e atividade física. "Já tivemos melhoras tanto no quadro de dor quanto no sangramento", conta a mãe. O fluxo continua intenso, mas já está mais controlado.
A ginecologista contraindica a operação: "Ter o diagnóstico de endometriose não é igual à cirurgia. Vai depender muito de qual é o objetivo da mulher naquele momento."
De acordo com a médica, a cirurgia é indicada em casos de falha do tratamento clínico, cistos volumosos no ovário, comprometimento do funcionamento de órgãos como intestino e bexiga ou infertilidade, depois de descartadas outras causas.
O diagnóstico também mudou. Antigamente, o diagnóstico da endometriose era através de cirurgia. Precisava-se visualizar a doença para falar que tinha endometriose. Hoje, a cirurgia é evitada, e o diagnóstico é clínico, "pela história que a paciente conta".
Apesar dos avanços, a confirmação do diagnóstico ainda demora cerca de, em média, dez anos no mundo todo. Para ela, o principal ponto é a escuta.
A escuta sensível para aquilo que a mulher está dizendo. Não é exame e não é cirurgia. É clínico.
Thaíssa Tinoco Ginecologista e mastologista
Ela também aponta a normalização da dor, a ideia de que toda mulher sente dor e de que isso passa quando casar ou ter filho, ideia transmitida de geração em geração. "Existe uma cultura da normalização da dor. Isso é muito cultural."
A servidora pública Rita de Cássia Siqueira, de 44 anos, passou cerca de 25 anos com dores severas até ter a doença confirmada. Os exames de rotina nunca detectavam nada.
A dor desorganizava a rotina. "Toda uma semana do mês eu não tinha vida. Eu tinha que trabalhar, porque a gente não tem nenhuma licença para isso, quem tem endometriose", conta. Nessa semana, depois de almoçar ou jantar, não conseguia nem levantar da mesa: "Eu levantava curvada, de tanta dor que eu sentia no abdômen." Vivia à base de remédio e chegava a tomar uma caixa com 12 em uma única semana.
O diagnóstico só veio depois que ela trocou de médico e fez exames mais aprofundados. Rita recebeu duas opções: tomar remédio por cerca de três meses, para ver se as dores diminuíam, ou operar. Escolheu a cirurgia, em outubro do ano passado, e hoje diz não sentir mais as dores de antes. Também tentou por muito tempo engravidar, sem sucesso, e se diz "muito impotente" pelos anos sem diagnóstico. Seu conselho: "As mulheres comecem a questionar mais, para que sejam feitos os exames precisos para saber se ela tem ou não. [...] Se você continua sentindo dor, vai em outro."
A ginecologista reforça: "É dar voz ao que você sente. É importantíssimo, porque as mulheres se conectam com mulheres, com histórias."
A dor feminina não deve continuar sendo tratada como algo normal ou culturalmente aceito. Muitas mulheres perdem oportunidades, dias de rotina e de trabalho por causa de uma dor que ainda precisa ser mais estudada e compreendida. Por isso, é importante estar atento ao próprio corpo e aos sinais da endometriose, como a dor cíclica que se repete no período menstrual e atrapalha a rotina, e, como defende a médica, dar voz ao que se sente: se a dor for tratada como normal, vale buscar uma escuta atenta.
*Este conteúdo foi produzido por Kamila Rossi, residente do 29º Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta, sob orientação do editor Guilherme Sillva