Depois do almoço, basta um quadradinho de chocolate para muita gente sentir que a refeição está completa. Em dias mais estressantes, a vontade parece ainda maior. O hábito, bastante comum entre os brasileiros, vai além da preferência pelo sabor doce: envolve mecanismos do cérebro relacionados ao prazer, à recompensa e até à busca por conforto emocional.
Estudos reunidos pela National Geographic Brasil em 2025, com base em pesquisas publicadas na revista Science e em análises do National Institutes of Health (NIH), mostram que compostos presentes no cacau , como a teobromina, associados ao açúcar, estimulam áreas cerebrais ligadas ao sistema de recompensa. Esse processo favorece a liberação de neurotransmissores, como dopamina e serotonina, relacionados à sensação de prazer e bem-estar.
Segundo o médico Renato Gama, professor de pós-graduação em Neurologia da Afya Educação Médica do Rio de Janeiro, essa resposta do organismo ajuda a explicar por que o chocolate costuma ser associado à sensação de conforto, principalmente após refeições ou em momentos de maior tensão.
“Quando comemos chocolate, principalmente os que combinam açúcar e gordura, ocorre a ativação do sistema de recompensa cerebral. Há liberação de dopamina, que está relacionada à sensação de prazer, e isso faz com que o cérebro registre aquele alimento como algo desejável. Em situações de estresse, quando os níveis de cortisol estão elevados, essa busca por alimentos altamente palatáveis tende a aumentar justamente porque o organismo procura uma recompensa rápida”, diz.
O efeito estimulante do cacau
Além da sensação de prazer, muitas pessoas relatam sentir mais disposição após consumir chocolate. Esse efeito, segundo o neurologista, é real, mas costuma ser passageiro. Existe um aumento temporário da energia provocado principalmente pelo açúcar e pela presença da teobromina, um estimulante natural do cacau semelhante à cafeína, porém mais suave. Esse estímulo costuma durar pouco tempo e não deve ser confundido com um ganho real de desempenho físico ou cognitivo ao longo do dia.
Pesquisas continuam investigando como o cacau atua no cérebro. O estudo “Astringent flavanol fires the locus-noradrenergic system, regulating neurobehavior and autonomic nerves” , publicado na revista Current Research in Food Science, identificou, em experimentos com animais, que os flavanóis presentes no cacau podem estimular áreas cerebrais relacionadas ao estado de alerta e à atenção ainda durante a percepção do sabor, antes mesmo da absorção dos compostos pelo organismo. Embora os resultados ainda precisem ser confirmados em humanos, o trabalho amplia a compreensão sobre os efeitos do alimento além da ação do açúcar.
Nem todo chocolate oferece os mesmos benefícios
Apesar dos benefícios atribuídos ao cacau, a nutricionista Andressa Cabral, professora da Afya Unigranrio nos campi Duque de Caxias e Nova Iguaçu, explica que a escolha do tipo de chocolate faz diferença para a saúde. “Quanto maior a concentração de cacau, maior também a quantidade de compostos bioativos, como os flavonoides, que possuem ação antioxidante. Já os chocolates ao leite e, principalmente, os brancos, apresentam maior quantidade de açúcar e gordura e menor teor desses compostos benéficos”, alerta.
Segundo a nutricionista, isso não significa que seja necessário eliminar completamente os chocolates mais doces da rotina, mas o consumo deve ocorrer com equilíbrio. “O chocolate pode fazer parte de uma alimentação saudável , desde que consumido com moderação. O ideal é que ele complemente uma rotina alimentar equilibrada e não seja utilizado como estratégia para aliviar emoções ou compensar situações de estresse. Quando isso acontece com frequência, vale observar se essa relação com a comida não está substituindo outras formas de lidar com as emoções”, afirma.
Por Maria Clara Montanha