Com saúde não se brinca. A velha expressão, utilizada para estimular cuidados básicos com o nosso bem-estar, alcança uma dimensão trágica quando o descuido é com a saúde pública. A sensação de abandono foi o motor para o dia de fúria do médico Aurédio José do Couto, que, revoltado com a falta de condições de trabalho, ratificada por outros profissionais e pacientes, promoveu um quebra-quebra na Unidade de Saúde de Jardim América, em Cariacica, na terça-feira (14).
Mesmo quem não depende dos PAs e UPAs sabe que a rotina nesses locais é de sucateamento e precariedade. Basta acompanhar as constantes denúncias deste jornal. É possível compreender, portanto, a revolta daqueles que trabalham na linha de frente desse caos, encurralados entre a justa indignação da população e a debilidade do sistema. “Falta tudo. Maca, termômetro, aparelho de pressão, estetoscópio, pia e até água”, disse Aurédio, em entrevista publicada na quinta-feira (16). “Isso não é coisa de gente.”
Compreender que a razão da cólera é digna não significa condescender com depredação do patrimônio público. Não apenas é um crime, como também prejudica somente, e justamente, a população mais carente, a quem o médico pretendia defender. No entanto, o episódio apresenta-se como um sintoma cristalino do estado terminal da saúde pública, em que a superlotação, a falta de insumos e a infraestrutura deficitária são tristemente banais.
É doloroso assistir a esse murro diário na dignidade das pessoas, precisamente no momento em que se encontram mais fragilizadas. Mais inconcebível ainda é perceber que o descaso das autoridades é crônico, como um câncer metastático que se espraia gestão após gestão, conforme fiscalização do Sindicato dos Médicos do Espírito Santo (Simes). Pela dimensão do problema, o remédio não virá da noite para o dia. Mas já passou da hora de o Poder Executivo – nos âmbitos federal, estadual e municipal – ministrar um tratamento de choque. Essa agonia não pode continuar.