As perspectivas de retorno das operações da Samarco, em Anchieta, seguem cheias de incertezas, mesmo passados três anos do maior desastre ambiental da história do país que, em novembro de 2015, deixou 19 mortos e um rastro de impactos e prejuízos para milhares de famílias mineiras e capixabas após o rompimento da barragem de Mariana (MG).
Para especialistas e autoridades ouvidos pela coluna, o retorno das atividades da planta no Sul do Estado não acontecerá antes de 2020, isso olhando sob uma ótica otimista. O entrave para as atividades serem retomadas, segundo fontes, está muito mais ligado à falta de entendimento entre as controladoras Vale e BHP Billiton do que a questões ambientais, como a conclusão do chamado Licenciamento Operacional Corretivo (LOC) do Complexo de Germano, em Mariana e Ouro Preto.
O ritmo lento estaria apoiado no interesse da Vale de comprar a parte da BHP, e aí isso seria mais vantajoso, em termos financeiros, enquanto a unidade não estiver retomado a sua operação. A negociação, entretanto, nunca foi confirmada pelas empresas. As partes sempre frisam, em entrevistas ou comunicados, que o foco é priorizar o suporte à Samarco e às famílias e comunidades afetadas pelo rompimento da barragem.
Nos bastidores, outro argumento vem dos resultados positivos que a Vale tem conquistado no mercado. No terceiro trimestre, por exemplo, a companhia alcançou um recorde trimestral de produção de pelotas de 13,9 milhões de toneladas. O bom desempenho se deu em grande parte pela reativação das plantas de pelotização I e II de Tubarão, fazendo com que o sítio capixaba opere com suas oito usinas.
“Não é coincidência que, desde que a unidade de Ubu parou, o preço da pelota vem subindo. A demanda pelo produto tem sido grande, tanto é que a Vale religou neste ano duas usinas que estavam inoperantes há um tempo. Voltar com a operação da Samarco agora pode representar em mais oferta no mercado e impactar nos preços”, observou uma fonte ao lembrar que antes do desastre, a Samarco respondia por cerca de 20% da produção global de pelotas de minério de ferro.
Segundo dados da Metal Bulletin – agência de notícias e de formação de preços de commodities –, em novembro de 2015, a tonelada seca da pelota entregue em Qingdao (China), custava US$ 63,38. No mesmo mês de 2016 foi para US$ 104,92; em novembro 2017, custava US$ 123,58, e atualmente está em US$ 145,76, um aumento de 130% em três anos. “Ou seja, a oferta nos padrões atuais tem garantido grandes prêmios às mineradoras. O aumento da produção pode mudar esse quadro. Então, vejo que o tempo que está se levando para a Samarco ser reativada também tem seu lado positivo para a Vale”, ponderou uma fonte.
Movimentação
Enquanto as atividades da Samarco continuam paralisadas, a empresa vem atuando em uma outra frente: buscar oportunidades de utilização do porto de Ubu, onde até antes do acidente eram embarcadas as pelotas produzidas na planta de Anchieta.
Uma fonte informou que a companhia vem conversando e negociando com potenciais parceiros, como empresas da área de petróleo e gás. “A Equinor (antiga Statoil) está buscando um local para ter uma base aqui no Estado, e a norueguesa já andou conversando com representantes da Samarco. A multinacional pretende atender suas atividades na Bacia de Campos e, como Macaé já não tem tanto espaço, o Porto de Ubu tem se mostrado uma boa opção”, revelou um analista ao comentar que a americana ExxonMobil também tem feito esse tipo de pesquisa.
Uma outra fonte avalia que o atendimento a terceiros seria uma excelente alternativa não só para a Samarco, mas também para o Estado, que tem uma infraestrutura portuária defasada. “Existe uma grande retroárea desocupada naquela região, que é onde seria feita a siderúrgica Baosteel. Ela poderia ser aproveitada. Outro ponto é que mesmo quando a Samarco estava funcionando o porto não operava sua plena capacidade. A movimentação era inferior a 20%. Ou seja, tem 80% de potencial de embarque e desembarque de cargas.”
Procurada, a Samarco informou que não comenta negociações em andamento ou clientes em potencial, mas confirmou que o porto, que tem licença para embarcar granéis sólidos, líquidos (não inflamáveis) e carga geral, tem aproveitado algumas oportunidades junto a terceiros. Neste ano, por exemplo, tem movimentado escória, um produto do segmento siderúrgico, e recebido uma média de três navios por mês, número ainda bem abaixo dos 18 que atracavam no local antes da tragédia.