Um criminoso tem a audácia de subir em um muro que separa um quartel da Marinha de uma favela, apontar uma pistola para quase 500 recrutas durante a atividade física e ordenar o encerramento dos trabalhos, porque o barulho estava incomodando. A cena surreal ocorreu no mês passado e é apenas um relance da decadência institucional do Rio de Janeiro.
Face brasileira mais exposta para o mundo, é lamentável que o Rio tenha chegado a esse ponto, consequência inequívoca da má administração, do descaso e da irresponsabilidade de governos com habilidade para dilapidar os cofres públicos, um rombo calculado em mais de R$ 20 bilhões no ano passado. Levou ao caos econômico, numa crise fiscal estadual sem precedentes, em que o funcionalismo encontrou-se completamente desamparado. Tempos dolorosos.
E, nesse encadeamento da degradação, a violência é a consequência mais brutal da falência do Estado. Na terça-feira, duas crianças foram mortas na guerra urbana que se acirra a cada dia. No embate entre forças policiais e bandidos, parte considerável da cidade parou, com o bloqueio das vias expressas mais importantes. A face de um Rio abandonado, sem autoridade. Situação de descontrole da segurança pública que, em menor escala, mas não menos perigosa, atinge outros Estados, como Ceará e Rio Grande do Norte.
A implantação das UPPs nas comunidades, na virada da década passada, acabou se tornando uma utopia insustentável. Funcionou por pouco tempo, sem levar em conta a complexidade e a capacidade de regeneração do tráfico. É preciso escolher novas estratégias, e o Estado precisa se impor com vigor. É urgente o abandono da letargia institucional que se instaurou.
No ano passado, um documento revelou que o Rio tem 843 áreas dominadas por bandidos armados, onde o Estado não entra. Há uma normalidade civilizatória há muito esquecida no maior cartão-postal do país, cuja beleza deixou de ser a protagonista. O que tem se visto é o terror institucionalizado, com um poder público sem forças para reagir à altura.