Paulo Bonates*
Olhava para nós, como Deus olha do céu, dispondo.
Dividia seu poder com quem necessitasse. Amigo de verdade e benfeitor de qualquer pessoa que precisasse dele. Não se preocupava com as benesses do cargo. Não fazia nada para ser uma das pessoas mais amadas que jamais conheci. Apenas era. Era ele mesmo, ele e sua infinita bondade, sua capacidade de ver no outro um semelhante.
Foi um dos precursores da psiquiatria humana no Espírito Santo. Formavam um grupo homogêneo com a, digamos, seguinte escalação: Cesar Mendonça, Gilvandro Pinto, José Carlos Pereira do Vale, Alaor Queiroz de Araújo, e, naturalmente, Alcides Pereira da Silva.
Cidinho não sabia e não queria dizer não diante de uma necessidade, um pedido de quem quer que fosse. Eu sabia que já andava se preparando para melhorar o time de Deus, mas quando Sérgio, seu filho deu-me a notícia de sua morte, reagi como quem se espanta diante de uma coisa impossível. Para mim, particularmente, foi um amigo, uma espécie de eternidade.
Imagino o que Cidinho anda a ser no céu, onde não há muito o que fazer. Deve estar olhando por nós, pela sua família. Rezo por ele, logo eu que não sei rezar. Talvez lhe cante uma canção de viola, e dele há muito que lembrar, lembro muito
Poderia contar aqui dezenas de situações durante o desenrolar de minha carreira nas quais ele foi insubstituível. Trabalhamos juntos em muitos lugares. Os clientes tinham uma verdadeira adoração por ele e seu sorriso de conforto com extrema paciência e calma. Dizem que a paciência é a mãe das virtudes. É, deve ser.
Eles introduziram a humanidade no hospital Adauto Botelho. Quando foi dirigir a então Fundação Hospitalar, unidade gestora da psiquiatria no Espírito Santo, fui também. Um dia pedi que promovêssemos um curso de especialização psiquiátrica que seria oficializado pela Associação Brasileira de Psiquiatria de grande importância para a categoria e para a prática dessa arte.
Foi assim que pude organizar o curso que trouxe a Vitória a fina flor da especialidade no Brasil, todos decanos da ABP, além dos doutos colegas capixabas. Euclides Brotto foi o diretor técnico. E assim se deu.
Depois disso, a maioria de nós enveredou pelos mestrados, doutorados etc. Mas aquele empurrão carinhoso do Alcides foi o hot point, a sustentação do gosto pela formação necessária.
Imagino o que Cidinho anda a ser no céu, onde não há muito o que fazer. Deve estar olhando por nós, pela sua família. Rezo por ele, logo eu que não sei rezar. Talvez lhe cante uma canção de viola, e dele há muito que lembrar, lembro muito.
E Deus, quando precisar tirar uma soneca, parece que estou vendo: “Alcides dá uma olhada no pessoal lá de baixo.”
*O autor é médico psiquiatra, psicanalista e jornalista