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Rita Camata
"Até hoje não consigo passar na rua onde o crime aconteceu"
Em entrevista exclusiva, ela conta como tem sido a vida nesses nove meses sem o marido Gerson, assassinado em dezembro de 2018. Revela que ocupa o tempo cuidando dos netos, que evita ir a eventos sociais e que ainda tem a esperança de ser feliz novamente. Além de ter doado todo o dinheiro do imbróglio. "Não quero esse dinheiro maldito".

Guilherme Sillva

Editor do Se Cuida

Publicado em

06 out 2019 às 06:12
Rita Camata chega à sala de sua casa descalça. São 9h da manhã de uma sexta-feira chuvosa e ela acaba de colocar o neto mais novo para dormir. “A mãe saiu e eu fiquei cuidando dele”, conta. Usando calça jeans e um moletom preto, ela recebeu a Revista.ag para essa entrevista exclusiva. É a primeira vez que a ex-deputada federal dá uma longa entrevista desde o assassinato do marido, Gerson Camata, ocorrido em 26 de dezembro do ano passado. Ela se ajeita no sofá de sua sala, que é decorada com violetas brancas, navios pequenos de madeira, almofadas bordadas e seis porta-retratos. Neles registros de um tempo que já passou: Rita cantando, fotos da neta e da filha, além de uma em preto e branco do marido. Ainda bastante emotiva, mas se permitindo sorrir em alguns momentos, ela falou. Durante uma hora e meia conversamos a respeito de vida, da sua maior perda pessoal, de feminismo, futuro e, claro, poder.

Quem era Rita antes daquele 26 de dezembro de 2018?

Uma pessoa muito mais feliz. Ainda com projetos a compartilhar com os filhos e desejo de viajar. Hoje tenho o conforto dos amigos, da família, de ver os meus netos crescendo com saúde, mas não consigo ser plena. Peço a Deus força para superar a dor da ausência. Passaram nove meses e não tem um dia que eu não lembre dele. Só espero que a justiça seja feita o mais breve possível.

Acompanhamos durante esse tempo um pouco do que você passou. Quero saber detalhes desse período. Como levantava da cama, quem estava do seu lado? O que você tem feito?

Eu tenho recebido oração de muitos amigos e isso me fortalece. A minha família - irmãos, sobrinhos, filhos e netos - tem sido meu esteio principal. E para levantar da cama é um dia de cada vez. No início tinha muitas coisas para resolver e isso me fazia levantar. Tento suprir o tempo dando o meu amor para os meus filhos e netos. Até em eventos de homenagens que fazem para ele eu evito ir, porque emocionalmente é muito forte. Até hoje não consegui passar na rua onde aconteceu o crime. Mas sei que preciso superar.

Então você não tem saído de casa?

Não tenho saído. Vou ao supermercado, igreja e levo minha neta na escola. O circuito que faço na praia não estou frequentando. Recebo convites, mas falo para as amigas: “Não esquece de mim. É que não estou bem”. A verdade é que eu destoo um pouco, porque as pessoas estão numa alegria, feliz. Eu me esforço, tem dia que estou melhor, outros pior, mas não estou nessa ‘vibe’ de estar plena e feliz. Eu peço a elas que continuem insistindo e me entendam porque está difícil.

Você teve ajuda psicológica?

Cheguei a ir sim. Me propus um período para me fortalecer mais, porém não quero nada que seja para vida toda, tipo muleta. Quero que a vida seja mais leve.

Em algum momento, nesse tempo, você quis morrer?

Isso passou pela cabeça sim, mas tem coisas maiores. Tem gente que precisa de mim, como os filhos e netos. E Deus não quer que eu tire a minha vida. Mas, de vez em quando, tenho o sentimento de que a vida acabou ou perdeu o sentido.
"Passaram nove meses e não tem um dia que eu não lembre dele. Só espero que a justiça seja feita o mais breve possível. "
Rita Camata - Ex-deputada federal

É possível ser realmente feliz depois da perda do tamanho da que você enfrenta?

Eu tenho fé em Deus que ainda vou conseguir, mas hoje não tenho essa certeza. Foram quase 40 anos juntos, passamos por todos os percalços e dificuldades, mas tivemos a felicidade de compartilhar momentos muito bons. E espero que esses momentos prevaleçam com a ausência dele e que eu possa ter o direito de ser feliz.

Como ficou a questão do dinheiro, que ocasionou o assassinato?

Ele usou o dinheiro como argumento para matar. Houve o alvará, abri uma poupança e parte dele já foi doado para a prefeitura de Marilândia, para comprar material para todas as crianças da escola. A outra parte vou doar a outra entidade. Eu não quero esse dinheiro maldito.

Como estão os filhos?

Estão tocando a vida, os dois com a vida nova. A Enza, uma semana depois do assassinato do pai, ficou sabendo que estava grávida. Ela também tem uma confecção. O Bruno está morando sozinho em São Paulo, onde estuda economia. E eu dando o apoio que posso aos dois e preenchendo parte da minha vida com muito amor a eles.

Você continuou morando na mesma casa em Vitória. E sua filha, Enza, voltou a morar na cidade. Foi um pedido seu para que ela voltasse de São Paulo?

Logo que aconteceu o episódio pensei que ia ficar sozinha. Mas ela já tinha decidido voltar e, pelo que entendi, antecipou o retorno. Mas estou querendo sair dessa casa que é muito grande para mim.

Uma casa e tanto para uma menina que veio de Venda Nova do Imigrante. Como foi sua infância e adolescência?

A minha vida sempre foi de família humilde, simples, de pequenos lavradores. Meu pai tinha um pedacinho de terra, onde tirava o sustento dos 10 filhos. Ele dizia que a única coisa que poderia deixar de herança era a educação. Trabalhei muito na roça, cortando arroz, quebrando milho, plantando mandioca, e isso me ajudou a dar alicerce na vida e enfrentar as dificuldades. Passei para jornalismo na Ufes e vim morar em Vitória com a minha irmã mais velha numa república.

Qual foi o impacto de chegar à capital?

Eram muitos sonhos. Praia eu não conhecia, a universidade federal vivia a efervescência da luta pela democracia. E eu era a menina ingênua do interior. Mas não fiquei deslumbrada pela educação que eu tive, que foi muito severa e rigorosa. Minha irmã mais velha controlava tudo, então procurei logo trabalhar para ter meu dinheiro. Cheguei em Vitória com 17 anos, e com 18 conheci o Gerson.

Foi paixão a primeira vista?

Foi. Eu já o conhecia das campanhas políticas, ele já tinha passado lá em casa, no interior, durante uma campanha. Foi uma coisa muito forte e para a vida toda. Uma pessoa que me fez crescer e que eu amei muito. Em algumas situações, ele tinha posições políticas diferentes das minhas e, nesses momentos, evitávamos conversar para não discutir. Mas quando tinha dúvidas, perguntava e ele tinha a grandeza de conversar sobre aquele assunto e permitir que eu tomasse a minha decisão. No começo foi uma cobrança muito grande por conta do machismo, chegavam e diziam para ele: “Que líder você é, que nem a sua mulher te acompanha?”. Eu respeitava as convicções dele, mas queria sonhar. E ele me permitia. Um homem que amava profundamente o que fazia, até que começou a se desencantar com a política e querer se afastar. E me pediu para deixar a política também, ele falava que eu era um anjo no meio de um puteiro.
Rita Camata Crédito: Vitor Jubini

Entrar na política foi um interesse seu ou um pedido dele?

Ele não queria que eu entrasse na política. Dizia que era uma bobagem e muita gente me falava que eu devia ser apenas uma madame. Principalmente naquele época em que fazíamos o corpo a corpo, viagens de carro, e a Enza era pequena. Vinha em casa só para dar de mamar, era uma coisa louca. Ele achava que era uma bobagem, só que eu tinha o lado da minha realização enquanto pessoa.

Quando você chegou ao congresso, em 1987, recebeu o título de musa do parlamento brasileiro. Te incomodou?

No começo me incomodou um pouco. Mas logo mostrei que estava chegando e que não era para brincar. Depois achei que foi uma porta que se escancarou para mostrar que eu tinha conteúdo, propósito de trabalhar. E tive esse reconhecimento. Mas tive que provar que não era apenas uma mulher bonita na política.

Você foi relatora do Estatuto da Criança e do Adolescente. Se arrepende?

Aqui eu paguei caro, porque meus adversários usaram o Estatuto para distorcer e desqualificar a lei. Diziam que o projeto previa proteção para delinquente infanto-juvenil e que o pai não podia chamar atenção de filho, quando a lei é tão rigorosa que prevê até perda de paternidade se o pai não cumprir com as suas obrigações. E uma delas é dar educação e corrigir os filhos, espancar não é forma de educar filhos, e muita gente achava que era por aí.
"Trabalhei muito na roça, cortando arroz, quebrando milho, plantando mandioca, e isso me ajudou a dar alicerce na vida e enfrentar as dificuldades "
Rita Camata - Ex-deputada federal

Que tipo de exemplo você gostaria de dar para as mulheres no Congresso?

Não assimilar a cultura machista e a política tradicional, procurar resgatar valores. Muitas, para se manter, acabam se contaminando com aquele ambiente, que é perverso e cruel.

Você foi candidata a vice-presidente. Seria a primeira mulher a ocupar o Palácio do Jaburu. Era um sonho?

Para mim foi uma coisa que aconteceu, sempre fui na minha. Nunca imaginei que fosse chegar a isso e nunca tive como projeto de vida. Entendo como um reconhecimento de forma generosa pelo meu trabalho. Foi uma surpresa e mais uma superação de limitação, queimei muitas etapas na vida.

Como você avalia o atual governo?

Eu temo o retrocesso. Ele (o presidente Jair Bolsonaro) tentou fazer uma boa equipe, mas fala demais. Às vezes, falar menos é melhor. Em algumas coisas ele tenta acertar, mas privilegia a família e os aliados na política.

Depois de 5 mandatos, você se retirou de cena. Se desiludiu com a política do nosso país?

Eu perdi o sonho. A política é uma utopia, se você perde a utopia você morre politicamente. Eu não morri, às vezes fico agoniada de não ter um espaço para falar o que penso. Mas tenho desilusão e muito desencanto.

Você acaba de ser avó pela segunda vez. Como é a avó Rita? Comete transgressões? Estraga os netos?

Sou muito possessiva. Eu não estrago os netos, até tenho falado com os pais que como a Rafaela (neta mais velha) fica muito comigo, tem hora que sou meio dura com ela também. Se a encontrasse uma vez ou outra seria só bobagem. Mas tem hora que da vontade de só estragar mesmo. E a paixão com o pequenino é enorme. É um amor que não tem fim.

Como você vê a Rita daqui a cinco anos?

Estou vivendo hoje, o tempo passa muito rápido. Daqui a cinco anos já serei uma sessentona.

A idade te preocupa?

Nunca tive essa dificuldade de lidar com a idade. Quero viver bem, continuar fazendo as coisas que gosto, viajar e estudar línguas. Sou meio frustrada por não falar outros idiomas.

Tem alguma coisa que a gente não falou que você acha importante dizer?

Eu falei mais do que devia. Tá na hora de acabar, o meu neto está chorando.

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