A chapa liderada pelo vereador Clebinho (PP), inscrita na tarde desta quinta-feira (26) para concorrer à presidência da Câmara de Vitória, nasce de um movimento de rebelião de seis dos 13 vereadores da base do prefeito Luciano Rezende (PPS).
Nos últimos tempos, dois vereadores, ambos membros da base de Luciano, se apresentavam como pré-candidatos à presidência da Casa no biênio 2019-2020, na eleição que será realizada na primeira quinzena de agosto: Clebinho e o líder de Luciano na Câmara, Leonil (PPS).
Nos bastidores, a preferência do prefeito recaía naturalmente sobre Leonil, por ser ele também do PPS. E o partido trabalhava para emplacar o nome do líder de Luciano na presidência. Mas Clebinho foi mais rápido no gatilho, protocolando a "chapa rebelde" liderada por ele.
Clebinho afirma taxativamente que sua chapa não é de oposição à atual administração. Até porque, afirma, a maior parte dos vereadores que a compõem, incluindo ele mesmo, se consideram integrantes da base do prefeito na Câmara.
"Nosso partido, o PP, é da base do prefeito. Sempre estive com o prefeito como vereador e estarei como presidente. Nossa chapa não pode ser considerada de oposição porque nós somos da base, então não tem oposição. É uma chapa que vai dar governabilidade para o prefeito."
No entanto, o fato é que, para garantir a maioria (8 dos 15 vereadores assinaram sua chapa), Clebinho conta com o apoio dos dois maiores oposicionistas de Luciano na Casa atualmente: Mazinho dos Anjos (PSD) e Roberto Martins (PTB). O último inclusive foi inserido na chapa como candidato ao cargo de 3º vice-presidente.
Sobre esse "detalhe", Clebinho admite que foi necessário atrair os oposicionistas para garantir a superioridade numérica.
"Na conjuntura, é óbvio que a entrada deles foi decisiva. A gente precisava de oito vereadores para se viabilizar. Temos bom diálogo com eles."
PPS FORA
Em contrapartida, todos os quatro vereadores do PPS, o partido de Luciano, ficaram de fora da chapa. São eles: Vinícius Simões, Fabrício Gandini, Denninho Silva e Leonil.
O PPS ocupa a presidência da Mesa no atual biênio (2017-2018), com Simões. Também ocupa posições-chave na Casa, como a presidência da mais importante comissão, a de Justiça, comandada por Leonil.
Nos bastidores, são constantes as reclamações de outros integrantes da base quanto à supremacia da bancada do PPS e à concentração dos cargos estratégicos da Casa nas mãos do partido do prefeito.
O lançamento da chapa, portanto, é visto como estratégia dos outros partidos da base para ocupar espaços mais cobiçados na administração da Câmara, equilibrarem a correlação de forças no plenário e se fortalecerem na relação com a prefeitura.
Clebinho, por sua vez, nega que a chapa objetive enfraquecer ou neutralizar o PPS na Câmara:
"Não é que a gente deixe de fora os vereadores do PPS. Tivemos vários diálogos com eles. Mas não consegui me viabilizar com os vereadores que votariam com a chapa do PPS (encabeçada por Leonil)."
QUEM SÃO OS REBELDES
O fato é que, conscientes de seu poder de decidir a eleição para um lado ou para o outro, cinco vereadores se fecharam num bloco e decidiram de antemão que estariam na mesma chapa: Clebinho, Nathan Medeiros (PSB), Dalto Neves (PTB), Luiz Paulo Amorim (PV) e Sandro Parrini (PDT). Todos eles se consideram da base. Nos últimos dias, enquanto articulavam a formação de uma chapa própria, os cinco mantinham conversas paralelas com os emissários de Luciano.
Até a noite da véspera, os cinco vinham se reunindo com representantes do PPS. Como o líder do partido, Leonil, também é candidato à presidência, Fabrício Gandini vinha agindo como um líder informal do partido do prefeito. A coluna apurou que, no início desta semana, o PPS acreditava contar com 13 vereadores para formação de uma chapa de consenso, excluindo apenas os dois oposicionistas: Roberto Martins e Mazinho.
No início da tarde desta quinta-feira (26), o grupo dos cinco voltou a se reunir para bater o martelo: decidiram protocolar chapa própria, um dia antes do fim do prazo, pegando desprevenido o PPS. Além dos cinco, a chapa absorveu os dois oposicionistas e um sexto membro da base que também "traiu" o prefeito: Davi Esmael (PSB). Foi ele o fiel da balança.
REAÇÃO DO PPS
A coluna apurou que os aliados mais próximos de Luciano e o próprio prefeito foram pegos de surpresa com o registro da chapa adversária. Em um primeiro momento, ainda não sabiam como reagir à rebelião.
Por volta das 16 horas, Gandini foi ouvido pela coluna no plenário, enquanto começava a sessão ordinária. O vereador não precisou a estratégia de resposta à rebelião. Cogitou buscar composição com os oito "rebeldes", juntando a chapa deles com a do PPS, ou até aderir à chapa de Clebinho. "Ainda estamos dialogando com eles. A intenção é que, através do diálogo, a gente chegue a uma composição que a Casa toda possa acompanhar. Acredito que até amanhã (27) conseguiremos isso."
No caso de composição de chapa única, afirmou Gandini, seria preciso negociar uma mudança na escalação dos nomes, incorporando vereadores do PPS à próxima Mesa Diretora. "Naturalmente, vamos querer participar."
CONTRAOFENSIVA
Poucos instantes depois, enquanto a sessão prosseguia, começou uma movimentação e alguns aliados de Luciano se retiraram às pressas do plenário. Uma reunião de emergência foi convocada e realizada no gabinete de Gandini. Ali a decisão foi tomada: uma segunda chapa, a da situação, seria protocolada com a presença dos outros sete vereadores. Encabeçada por Leonil, a chapa também conta com os outros três do PPS, mais Neuzinha (PSDB), Wanderson Marinho (PSC) e Max da Mata (PSDB).
Apesar da inferioridade numérica, o grupo fiel ao prefeito não entregou os pontos. Com o registro da chapa, eles se mantêm vivos na disputa e apostam na margem mínima para reverter a situação: se conseguirem convencer pelo menos um membro da outra chapa a mudar de lado, já passam a possuir a maioria (8).
Tecnicamente, qualquer vereador inscrito em uma das chapas pode recuar e solicitar a retirada do nome. Até esta sexta-feira (27), as chapas já inscritas podem ser desfeitas e uma nova chapa pode ser inscrita, agregando mais membros. Ou seja, é possível que alguém mude de lado oficialmente.
Mas também é possível que haja traições no dia da votação. Mesmo que as duas chapas se mantenham como estão neste momento, nada impede que a chapa com menor número de apoiadores no ato de inscrição seja eleita. O que vale para definição do resultado é como cada vereador vai votar. E, mesmo inscrito em uma das chapas, um vereador pode ser convencido a votar na outra. Isso sem falar nas ausências e abstenções que podem ocorrer na sessão de votação.
A estratégia dos aliados que seguem leais a Luciano é priorizar o convencimento de vereadores que, embora na outra chapa, pertencem a partidos que fazem parte da atual administração: entre eles, o próprio Clebinho (PP) e Nathan Medeiros (PSB). Tanto o PP como o PSB são aliados do PPS na gestão de Luciano. O PSB inclusive tem o vice-prefeito, Sérgio Sá, que acumula a Secretaria de Obras e Habitação.
Clebinho, por sua vez, mantém-se confiante: "Acredito que a eleição da nossa chapa vai se confirmar".