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Antônio Carlos de Medeiros

Quizumba ideológica e a ressaca eleitoral

O debate que parece crucial é o da natureza do Estado e das suas relações com o mercado e a sociedade civil

Publicado em 30 de Novembro de 2018 às 21:55

Públicado em 

30 nov 2018 às 21:55

Colunista

Crédito: Divulgação
Antônio Carlos de Medeiros*
Temos resquícios da luta ideológica da campanha presidencial. Os extremos ainda se digladiam nas redes sociais e em parte do noticiário: direita versus esquerda. Isto é natural. A ressaca eleitoral demora a passar.
Mas, olhando para frente, esta rotulagem mais confunde do que esclarece o debate político e as escolhas dos rumos das políticas públicas que interessam à sociedade – por exemplo, as políticas de educação e relações exteriores, que já produzem mais calor do que luz. Temos que sair desse escarcéu skakespeariano.
Desde 1989, com a histórica queda do muro de Berlim, sabemos que se modificaram os conceitos de “direita” e “esquerda”. Esta não é mais uma linha divisória que consiga dar conta de explicar e esclarecer as clivagens atuais da Política.
O mundo passou da sociedade da revolução industrial dos séculos XVIII e XIX para a sociedade 4.0 da tecnologia da informação. As clivagens e conflitos sociais não se resumem mais à luta de classes. Às clivagens econômicas se somam cada vez mais os conflitos culturais dos costumes e das identidades.
Melhor considerar que haveria, agora, uma espécie de “continuum” da direita à esquerda. Um mesmo cidadão pode ser liberal em certos temas e conservador em outros temas. O mesmo vale para uma política pública: ela pode ter nuances de esquerda, de centro ou de direita, tudo junto e misturado. O ideário do filósofo e polemista Olavo de Carvalho não deverá reinar sozinho na política educacional brasileira, que é aberta e plural.
Tudo somado, o debate que parece crucial, neste momento, é o da natureza do Estado e das suas relações com o mercado e com a sociedade civil. Qual consenso é possível articular sobre qual reforma do Estado no Brasil do século XXI? O novo governo vai ter que combinar com o povo e construir um novo consenso. Na marra, não vai. O sistema de pesos e contrapesos da democracia funciona bem no Brasil.
A experiência histórica tem mostrado que a dicotomia Estado mínimo versus Estado grande é um falso problema. Pelo menos nas democracias ocidentais, o que as experiências de reformas acabaram mostrando é que um Estado forte (mas não grande), equipado com as ferramentas do governo digital, é o melhor e mais eficiente e democrático.
O conceito moderno de Estado nacional nasceu em 1651, em “Leviatã”, de Thomas Hobbes. A imagem do Leviatã bíblico, um monstro marinho do caos primitivo, serviu para defender a ideia central de que o dever primordial do Estado é a garantia da lei e da ordem, com um Estado forte. Pois bem. De lá para cá, apesar das experiências do liberalismo, da social democracia e dos governos Reagan e Thatcher, o Leviatã não definhou nunca. Tanto no ocidente, quanto no Brasil, o Estado se tornou inchado, opressivo, burocrático e incompatível com a transformação digital. O que fazer? (Volto ao tema).
*O autor é pós-doutor em ciência política pela The London School of Economics and Political Science

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