Se for mesmo candidato à reeleição, o governador Paulo Hartung (PMDB) pode optar por um um candidato a vice-governador que cheire a novidade e que exale frescor político. Isso para compensar a experiência dele próprio, velho conhecido do eleitor capixaba, conferindo à chapa certo equilíbrio e um quê de “renovação política”. Foi o que argumentamos ontem neste espaço. Mas essa reflexão não vale somente para Hartung. O mesmo raciocínio se aplica ao ex-governador Renato Casagrande (PSB), que, ao contrário do adversário, já anunciou pré-candidatura ao Executivo estadual. Referimo-nos tanto ao fato de Casagrande também ser um “velho conhecido do eleitor capixaba”, em busca de outro mandato, como à procura por uma “cara nova” para o posto de vice na chapa. Isso ganha ainda mais força em um momento no qual a moda é clamar pelo “novo”.
No caso de Casagrande, três nomes, a esta altura, aparecem com mais alta cotação: o do deputado estadual Sergio Majeski, o da ex-secretária de Desenvolvimento da Cidade de Vitória Lenise Loureiro e o do presidente da Câmara de Vitória, Vinícius Simões. Os três podem ser considerados com pouca rodagem política no que concerne ao exercício de mandatos eletivos.
Majeski cumpre seu primeiro mandato, na Assembleia Legislativa, aonde chegou em 2015.
Lenise, por sua vez, nunca exerceu cargo eletivo, apesar de acumular experiência como gestora em uma série de funções já desempenhadas por ela na administração pública desde os anos 1990 (prefeituras de Vitória e Serra e governo do Estado). Sua única experiência nas urnas foi como candidata a vice-prefeita de Vitória na chapa de César Colnago (PSDB), em 2004.
Já Vinícius Simões está no segundo mandato e, mais precisamente, no 6º ano consecutivo como vereador de Vitória, tendo ingressado na Câmara em 2013. Desde 2017, é o presidente da Casa. Antes de se eleger pela primeira vez, em 2012, era assessor parlamentar do também vereador Fabrício Gandini (PPS). O mesmo que Casagrande escolheu como seu vice na eleição ao governo em 2014, justamente com o mesmo propósito, de passar para o público a ideia de “reoxigenação”. Em 2014, Gandini tinha exatamente o currículo de Simões hoje: estava em seu 6º ano seguido como vereador da Capital.
Majeski se elegeu para a Assembleia, em 2014, pelo PSDB, partido fundamental da coalizão de Hartung (e que, por falar em vices, tem Colnago como vice-governador). Após partir para a oposição na Assembleia, o deputado se transferiu para o PSB, partido de Casagrande, no início de abril. Quanto a Lenise e a Simões, os dois são do PPS, legenda que tem o prefeito de Vitória, Luciano Rezende, como principal referência no Espírito Santo. Luciano, por sua vez, é possivelmente o principal aliado político de Casagrande no Estado.
A filiação de Majeski ao PSB pode ter reduzido a probabilidade de que ele venha a ser o escolhido. Afinal, uma dobradinha com Casagrande equivaleria a uma chapa puro-sangue do PSB, o que pode levar o partido a afugentar aliados valiosos para a coligação. O próprio Majeski, por sinal, independentemente de questões partidárias, não curte muito a ideia: “A chance é perto de zero”, disse à coluna, quando decidiu se filiar ao PSB.
Lenise, por seu turno, já afirmara, em janeiro, estar disposta a assumir essa missão se o PPS assim quiser. “Sim. Eu estou à disposição do meu partido.” Ontem, ela reiterou: “Sou candidata a deputada federal. Considero também possível essa composição para o governo”.
Quem se movimenta de modo mais aberto e mais declarado de olho nessa vaga de vice é sem dúvida Vinícius Simões. “Sim, claro!”, respondeu ele, ontem, quando lhe perguntamos se mantém essa disposição, manifestada no início deste ano. Em seu próprio favor, o vereador enumera alguns pontos, como o fato de fazer parte do magistério, “a maior categoria do Estado”. Também considera que está “em ascensão” e que representa “algo novo”. “Sou professor. E ter um professor como vice agrega muito. Sou vereador já testado. Estou em ascensão. A cada eleição aumentei consideravelmente minha votação. Apesar de estar no 2º mandato, represento algo novo. Uma nova política. Não sou como aqueles medalhões da política.”
A dúvida é se essa campanha aberta mais o ajuda ou mais o atrapalha.
Nem o maior milagreiro
O governador Paulo Hartung já tentou fazer isso uma vez. Sem sucesso. Na última quinta, arriscou de novo. Mas nem o santo mais forte, padroeiro dos políticos, seria capaz de promover o milagre da reconciliação entre Audifax Barcelos (Rede) e Sérgio Vidigal (PDT). Na assinatura de convênio para pavimentação e drenagem de ruas no bairro Parque das Gaivotas (Serra), PH discursava do púlpito, postado entre os dois arquirrivais. Pegou pelo braço um sorridente Audifax com a mão direita e um sisudo Vidigal com a mão esquerda e falou: “O Hospital Materno Infantil tem mão aqui dos dois”.
“Amém!”
Também chamou atenção o tom meio confessional, de pastor evangélico, adotado por Hartung, lembrando o da campanha de Audifax à reeleição em 2016. “Eu tenho que agradecer a Deus, e vocês sabem disso, todo dia. Audifax tem que agradecer todo dia. Passou um perrengue danado e saiu. Há um ano atrás, eu estava num centro cirúrgico, com câncer na bexiga. O que é que tem dessa doença em mim? Nada. Amém! Graças a Deus!” Serra é isso. E Hartung, inteligente, sabe adaptar mensagem ao público.
Livrai-nos da briga boba
Na continuação, PH manteve o tom de pregação para voltar a “estimular” Audifax e Vidigal a uma reaproximação. “Que Deus continue nos protegendo, dando energia boa, tirando a gente de brigalhada, de briga boba. O que nós precisamos é tirar a briga boba e colocar a briga boa. Qual é a briga boa? É pra melhorar a vida dos nossos semelhantes.”
“Eu voltarei!”
Hartung ainda voltou a fazer, publicamente, um afago e um aceno político a Audifax. “O prefeito fala: ‘Volta mais’. Você vai enjoar de me ver na Serra”, disse o governador. Ele também destacou os R$ 7 milhões que o governo gastará, a pedido do prefeito, na aquisição de equipamentos para o já citado hospital.
Abrace o Paulo
No final, Hartung deixou um “fiquem com Deus!”. E recebeu um abração de Audifax, hoje mais abraçado a Rose.
Segura!
Conclusão: Hartung acena para Audifax com uma mão, enquanto afaga Vidigal com a outra. O que ele quer é, literalmente, segurar os dois em seu palanque.
Para constar
O deputado estadual Amaro Neto (PRB) também estava no palanque.
Ritmo alucinante
Em ritmo alucinante de compromissos políticos, o governador Paulo Hartung assina hoje, no Palácio Anchieta, concessão de imóvel para a instalação da Rede Cuidar em Guaçuí, almoça com o presidenciável Flávio Rocha (PRB) na Residência Oficial da Praia da Costa e passa o comando-geral da PMES no Quartel de Maruípe.