"Precisamos subir os morros de Vitória", diz novo secretário municipal
Vitor Vogas
"Precisamos subir os morros de Vitória", diz novo secretário municipal
Advogado Bruno Toledo assume a Secretaria de Cidadania e Direitos Humanos de Vitória conclamando os representantes do poder público a ir ao encontro das comunidades vulneráveis para levar serviços públicos e direitos básicos. Ele defende a construção de soluções para a violência urbana em parceria com os moradores
“Precisamos subir os morros de Vitória”, afirmou ontem o novo secretário municipal, ao tomar posse. Mas não foi o novo secretário de Segurança nem de Defesa Social. Quem fez a conclamação, em discurso, foi o novo secretário de Cidadania, Direitos Humanos e Trabalho de Vitória (Semcid), o advogado Bruno Toledo, militante histórico da área de Direitos Humanos. Aos 38 anos, Toledo substitui a também advogada Nara Borgo, uma parceira no movimento em defesa dos direitos humanos, onde ele se forjou.
O discurso foi feito em uma concorrida cerimônia de posse, no auditório da Casa do Cidadão, sede da Semcid, lotado de autoridades e representantes dos movimentos sociais. O prédio fica em Itararé, próximo ao Bairro da Penha e outras comunidades onde criminosos têm disputado a bala o controle do tráfico de drogas, fazendo vítimas inocentes que têm o mesmo perfil: jovens negros e pobres. Vítimas como os irmãos Ruan e Damião, assassinados no ano passado, no Morro da Piedade, símbolos desses extermínio da juventude negra.
Sensível a essa situação, o novo secretário exortou a sua equipe a ir ao encontro das comunidades. Ele explica que “subir o morro” é, literalmente, “subir o morro”. Simbolicamente, sua primeira reunião já está marcada: será no alto da Penha, com líderes comunitários e o Instituto Raízes. Mas não basta que os representantes do Estado subam o morro. O próprio Estado precisa subir junto. Na visão de Toledo, para combater a violência, só tem um jeito: o poder público precisa levar direitos básicos e serviços públicos aos moradores dessas comunidades, sobretudo os mais jovens.
Ou seja, é preciso prover, de fato, cidadania e direitos humanos à juventude desses bairros vulneráveis. Apenas falar de direitos humanos, como um conceito abstrato, além de gerar incompreensões, pode soar como discurso vazio para os que deles são privados. É preciso ensinar o que são os direitos humanos oferecendo direitos humanos, garantido-os aos jovens a quem hoje esses direitos são negados.
Confira abaixo alguns trechos importantes do discurso de posse de Toledo:
Extermínio
“O nosso discurso de defesa de vida em abundância torna-se palavras ao vento e soa desrespeitoso para quem é vítima das múltiplas violências que marcam o cotidiano de uma sociedade tão injusta como a nossa, em especial para as famílias e as vítimas dos mais de 60 mil brasileiros assassinados por ano, em sua esmagadora maioria rapazes jovens da periferia das grandes cidades e por armas de fogo – aquilo que já pode ser considerado um extermínio.”
Falar e mostrar
“Nós precisamos deixar de falar de direitos humanos sobre o caixão da juventude negra! É preciso falar de direitos humanos com a meninada indo para as escolas, com a bola rolando nos campos e nas quadras, com o tamborim tocando no samba, com o hip hop fazendo os jovens cantarem sua realidade! No momento em que grupos disputam a tiros o controle do crime, nós precisamos disputar com direitos as vidas que estão sendo perdidas, especialmente dos jovens que não querem só comida, querem comida, diversão e arte.”
Desafio lançado
“E é nesse sentido que quero aqui desde já desafiar a minha equipe de trabalho a junto comigo subir os morros de Vitória! É lá que nós temos que estar. É lá que neste momento mais precisam de nós! (...) Não promoveremos cidadania em nossos gabinetes, meus colegas.”
Voz das comunidades
“Precisamos nos colocar à disposição para construirmos juntos com as comunidades as saídas possíveis para esse drama da violência urbana. Tenho convicção de que a paz que precisamos construir é a paz que passa por justiça, por acesso a direitos, é a paz construída com a voz das comunidades, porque paz sem voz não é paz, é medo.”
Obsessões
“É preciso, pois, falar de direitos humanos sobretudo garantindo direitos humanos! Dialogar com as demandas das juventudes da nossa cidade, buscar alternativas à violência e consolidar a atenção às vítimas das violências serão obsessões para mim na secretaria.”
Guerra particular
O novo secretário também citou vários episódios recentes, com ampla repercussão, de violação de direitos humanos: "Da interminável guerra na Síria, seus milhares de mortos e os milhões de refugiados vagando pelo mundo à nossa guerra particular, ali bem ao lado, nos corpos de Ruan, Damião e tantos jovens negros estirados no Morro da Piedade".
Brumadinho
Ele não deixou passar em branco o desastre da barragem da Vale em Brumadinho (MG). Citou "as centenas de mortos e desaparecidos de Brumadinho, vítimas da idolatria ao lucro, do desprezo à vida humana por parte do Capital, da exploração sem medida das riquezas naturais e da omissão, irresponsabilidade e da complacência do Poder Público para com elas".
Sombra
Para Toledo, "uma sombra de ódio, indiferença, mediocridade e insensatez parece ter se abatido sobre a humanidade".
Estigmas
O advogado expressou a consciência de que assume a pasta em um momento muito difícil para se defender políticas públicas voltadas à garantia dos direitos humanos no Brasil, por conta de profundas incompreensões que têm cercado o tema. "Tenho diante de mim a tarefa de romper com enormes barreiras construídas por falsos estigmas e perversos preconceitos à causa dos direitos humanos."
Defesa da vida
"Tarefa de dialogar, com equilíbrio e serenidade, com o conjunto da nossa cidade. Construir pontes com os que pensam diferentemente e buscar consensos em torno da defesa da vida."
Armas
"E isso não se fará no grito e na força, alimentando o ódio, a agressividade, o autoritarismo ou distribuindo armas à população!"
Único caminho
"E é por isso que como em poucos momentos da nossa história precisamos reafirmar a nossa crença de que não há caminho possível para o futuro da humanidade que não passe pelos direitos humanos."
"Carta de amor"
"É preciso mais do que nunca falar, repetir, reafirmar, apreender, compreender o real conteúdo, o verdadeiro significado dos Direitos Humanos, que no dizer de Hannah Arendt é o de ser um paradigma ético-civilizatório construído pela humanidade para afirmar a centralidade e o valor da espécie humana na história! São eles a mais bela carta de amor que o homem já escreveu a si mesmo! É o reconhecimento da beleza e singularidade de cada vida humana! (...) Mas essa carta de amor não está finalizada e muito menos a salvo de ser reescrita ou mesmo destruída!"
Ser humano pela metade
"São eles [os direitos humanos], afinal, que nos fizeram compreender que um ser humano só é ser humano se as suas necessidades forem garantidas. Ser humano que passa fome, desnutrido e desidratado, que vive nas ruas dormindo ao relento e vivendo de migalhas, que não tem acesso à saúde, que não vai à escola, que não conseguiu compreender a realidade na qual está vivendo e sobre ela intervir conscientemente, ser humano que é vítima das mais brutais violências, é ser humano pela metade e não vive plenamente!"
Selvageria e negação da humanidade
"O processo de negação, ridicularização e diminuição dos direitos humanos, notadamente de determinados grupos sociais é, antes de mais nada, também o processo de apequenamento de nós mesmos e de rebaixamento da nossa própria condição humana. Quem o faz deveria saber que negar a nossa humanidade é afirmar a nossa selvageria, é consentir com a violência sem precedentes, é legitimar a barbárie cujos sinais já são vistos a olhos nus e da qual nenhum de nós sairá ileso, nem mesmo aqueles que se julgam super-humanos protegidos por alguma espécie de poder."
Civilização vs. barbárie
"Conquistas que podem tornar-se perdas. Avanços transformados em retrocessos. Civilização versus barbárie. Se às gerações passadas coube a missão de escrever a gramática dos direitos humanos, a tarefa do nosso tempo não é menor. Somos chamados a mantê-los e a torná-los uma realidade concreta na vida de milhares de pessoas para quem direitos humanos ainda precisam ser inventados!"
Disputa de corações e mentes
"Mas só conseguiremos dar conta do nosso desafio histórico se formos capazes de ganhar mentes e os corações para a causa da vida."
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.