
Henrique Geaquinto Herkenhoff*
Estava em família quando, como a maioria dos capixabas, fui surpreendido com a notícia do assassinato do ex-governador Gerson Camata e logo em seguida informado da pronta prisão de um ex-assessor, que teria confessado o crime, consequência de uma discussão que teria se iniciado por conta de uma ação judicial, após um encontro casual. Claro que ficamos todos chocados e surpresos. Afinal, Camata era uma pessoa afável, jamais se envolveu em qualquer conflito pessoal quando político ativo. Mesmo o tal assessor, a despeito de haver feito denúncias públicas contra o antigo chefe, era pessoa já em idade madura e sem histórico violento, ao menos que tenha sido noticiado no momento em que escrevo.
Somos inundados de notícias sobre criminosos portando fuzis, mas saiba o leitor que exatamente 98% das armas de fogo utilizadas em crimes são de fabricação nacional e de calibre permitido. Em resumo, são armas adquiridas por cidadãos comuns, que vão parar nas mãos de criminosos, isso quando não acabam sendo usadas em crimes impulsivos, por pessoas que jamais pensaram realmente em matar alguém. Armas, na melhor das hipóteses, livram você de um problema e arrumam outro, pois, no mínimo, alguém vai ter que provar haver agido em legítima defesa; na pior, fazem do proprietário um assassino confesso.
Armas de fogo, como os cargos públicos, não podem ser entregues a quem os busca muito avidamente; quem realmente pode ter nas mãos o destino de outros não vê vantagem nisso, quem o quer em exagero é porque não pode receber essa responsabilidade. Quando autorizamos um cidadão a adquirir um revólver, é questão de tempo para que ele vá para o arsenal de traficantes e assaltantes. E, vez por outra, ocorre um crime motivado por desequilíbrios emocionais momentâneos.
Ainda vamos aproveitar este espaço para discutir mais a fundo o desarmamento. Por enquanto, fica apenas este registro, que não pode ser adiado: houve uma vida proeminente ceifada, e uma outra, menos conhecida, desgraçada para sempre; até onde eu saiba, ambas eram pessoas de bem; se não houvesse uma arma disponível nesta quarta-feira, a esta altura estaríamos comentando um “barraco” na Praia do Canto, no máximo uma troca de sopapos.
Nesta selva moderna que muitos defendem, ninguém se livra de matar ou morrer. Não nos perguntemos de quem é aquele corpo embrulhado na esquina. Cada um de nós capixabas morreu um pouco neste Natal.
*O autor é professor do Mestrado em Segurança Pública da UVV