Como se sabe, com 467 anos, Vitória é uma das cidades mais antigas do Brasil. Trata-se, portanto, de um lugar que carrega muitas tradições, sendo uma das mais famosas a moqueca, herança indígena perpetuada na panela de barro confeccionada em Goiabeiras, que se tornou o primeiro patrimônio imaterial nacional tombado pelo Iphan.
Mas existem aquelas tradições que são gerais, e que muitas vezes se somam às locais. Um exemplo é o bar, boteco, botequim, pé sujo, ou como se queira chamar, mas também os restaurantes; enfim, quem não gosta de sair para encontrar os amigos, papear, ver o movimento, bebericar uma cerveja, chope ou caipirinha e saborear um tira-gosto, ou até mesmo uma moquequinha?
E a gente também sabe muito bem, curtir um bar é provavelmente o mais democrático prazer dos brasileiros, pois tem em qualquer lugar, por menor que seja a cidade, vila ou povoado. E eu mesmo, confesso, adoro um boteco!
Daí não entender por que os bares duram tão pouco em Vitória...
Cidade tão antiga quanto Vitória, o Rio de Janeiro possui alguns bares centenários, como o Bar Luiz, que mesmo lutando para sobreviver continua em funcionamento há 131 anos; o Bar Brasil, aberto em 1907, ou seja, há 111 anos, e o Café Lamas, que existe desde 1874. É claro que o Rio é bem maior do que Vitória. Mas o que dizer de uma cidade média e relativamente nova com “apenas” 175 anos como Petrópolis, que possui o bar-restaurante Casa D’Angelo em funcionamento desde 1914, ou seja, há 104 anos?
Segundo registros, a casa mais antiga em funcionamento em Vitória, com pouco mais de 60 anos, é o restaurante São Pedro, na Praia do Suá.
Residindo em Vitória há quase três décadas, eu mesmo vi diversos bares e restaurantes abrirem e fecharem em pouquíssimo tempo, alguns nem sequer duraram um ano! Outros até foram muito bem no primeiro ano, mas, passada a novidade quando viviam com suas mesas cheias, lista de espera, logo entraram em decadência e fecharam as portas. E não me parece que o capixaba seja menos boêmio do que outros brasileiros.
Houve também alguns bares que foram bem famosos que fecharam quando estavam ainda no auge, por decisão do(s) seu(s) dono(s), quando se viram cansados da rotina e decidiram sair do negócio sem dívidas e com a sensação de dever cumprido.
Voltando à questão do rápido fechamento em Vitória daquilo que tecnicamente se chama “alimentação fora do lar”, cabe ainda incluir as cafeterias, sorveterias e afins... E mesmo com as bolas da vez que são os food trucks, já começou a haver acentuada queda no negócio.
É claro que o Brasil, e Vitória faz parte dele, vive a pior e mais longa crise econômica da história, o que vem afetando todos os setores produtivos. Mas isso não é suficiente para explicar o fracasso de muitos bares e restaurantes da capital capixaba, pois várias pesquisas e estudos já comprovaram que mesmo em situações de crise não há queda no consumo de alguns itens, como maquiagens e bebidas, cuja explicação está no escapismo, isto é, investindo na autoestima e na companhia dos amigos dando umas boas risadas. E nada melhor do que o bar para usufruirmos desses momentos.