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Vitor Vogas

Por que Paulo Hartung não compareceu à inauguração do novo aeroporto?

Até a manhã desta quinta-feira (29), a participação do governador no evento estava confirmadíssima, inclusive constava da agenda oficial de Hartung

Publicado em 29 de Março de 2018 às 13:34

Públicado em 

29 mar 2018 às 13:34
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Pouso do avião presidencial Crédito: Bernardo Coutinho

Em meio à sequência de discursos (um tanto cansativos) das autoridades políticas na mesa, o evento de inauguração do novo Aeroporto de Vitória foi marcado por duas grandes surpresas. A primeira é que o avião da FAB que trouxe Michel Temer não aterrissou na pista do novo aeroporto, onde era esperado, pousando na pista do antigo. A segunda, e maior de todas, está mais para uma possível "arremetida política". O governador Paulo Hartung (PMDB), logo ele, maior autoridade política capixaba, não compareceu ao evento de inauguração. Deu um bolo no presidente da República.

Até agora, ninguém, nem mesmo a assessoria do governo, sabe explicar o motivo da ausência do chefe do Executivo estadual. Não foi divulgada nem sequer uma "justificativa oficial", o que é raríssimo. Até a manhã desta quinta-feira (29), a participação do governador no evento estava confirmadíssima, inclusive constava da agenda oficial de Hartung, enviada diariamente à imprensa pela assessoria do Palácio Anchieta.

Por enquanto, então, só cabe especular. E, no campo das especulações, a biruta da coluna aponta para a direção de Brasília, onde, na manhã desta quinta-feira, poucas horas antes do embarque de Temer para Vitória, foi deflagrada a Operação Skala, que atingiu em cheio aliados de Michel Temer (e, indiretamente, o próprio presidente da República). Afinal, que outro fato político novo ocorreu de ontem para hoje a ponto de justificar essa reviravolta na programação de Hartung?

Na operação, a Polícia Federal prendeu temporariamente o ex-ministro da Agricultura, Wagner Rossi, e o presidente do grupo Rodrimar, Antonio Celso Grecco. Autorizadas pelo ministro do STF Luís Roberto Barroso, a pedido da Procuradoria-Geral da República, as ações fazem parte do inquérito, sob relatoria de Barroso, que investiga o "decreto dos portos" – assinado por Temer em 2017, o decreto prorrogou a concessão para empresas que operam no Porto de Santos, como a Rodrimar. A suspeita é que a medida teria sido tomada por Temer em contrapartida ao pagamento de propina em benefício do presidente e do seu grupo político. Grecco e Rossi são investigados, ao lado do próprio Michel Temer, no chamado "inquérito dos portos".

Por isso, uma possível resposta para a surpreendente ausência de Hartung à inauguração do aeroporto é a que interliga os dois fatos. Por essa linha de raciocínio, o governador teria evitado pousar (e posar) ao lado de Michel Temer logo na mesma manhã em que a Polícia Federal aperta o cerco contra o presidente, arranhando ainda mais sua já desgastada imagem. Como não é bobo (muito pelo contrário), pode ser que Hartung tenha evitado ter sua imagem associada à de Temer, em um dia bom para o Espírito Santo, mas crítico para o próprio presidente. Hartung quis evitar, enfim, o "contágio político" ou "transferência de desgaste". Até porque ele e Temer não são exatamente grandes aliados, mesmo dentro do PMDB.

Nota de Hartung

Às 15h30, a assessoria do Palácio Anchieta divulgou uma nota, assinada pelo próprio governador Paulo Hartung, a qual na verdade não dá nenhuma explicação objetiva para a sua ausência. Na nota, Hartung se limita a registrar sua opinião sobre a Operação Skala, o que reforça a interpretação de que os dois fatos estão interligados e de que Hartung quer mesmo se dissociar de Temer. 

"O país amanheceu mais uma vez sobressaltado com fatos políticos preocupantes. Apoio a investigação dessas denúncias com profundidade e, como democrata que sou, também defendo o amplo direito de defesa de todos os citados. Mas ressalto que os episódios políticos sucessivos e graves dessa natureza têm prejudicado o país e a economia, trazendo prejuízos sociais com impacto direto na vida das pessoas, particularmente os mais pobres", assinala Paulo Hartung.

Perplexidade geral

O clima de surpresa foi generalizado no local da cerimônia. A coluna apurou que até colaboradores do governador só ficaram sabendo que ele seria substituído no evento pelo vice-governador César Colnago (PSDB) a dez minutos do início da solenidade. "Estou tão surpreso quanto você", confessou, sob anonimato, um secretário de Estado muito próximo a Hartung. "Sinceramente, não sei. Não sabia que ele não viria", afirmou um segundo secretário. Um terceiro integrante do governo, filiado ao PMDB, chegou a fazer uma troça. Indagado se havia ficado surpreso, soltou um palavrão e emendou: "Como diriam alguns dos meus amigos gays, choquei!".

Duas versões

A senadora Rose de Freitas disse à imprensa que o vice-governador César Colnago contou para ela que Paulo Hartung teve uma "indisposição".

A deputada estadual Janete de Sá opinou que Hartung pode ter faltado por motivo de saúde ou por "grandeza", para deixar que outras pessoas brilhassem na solenidade.

O secretário-geral do PMDB no Espírito Santo, Chico Donato, acha que Hartung deve ter faltado por algum motivo "de força maior".

O deputado federal Marcus Vicente não acha que a ausência de Hartung possa estar relacionada nem à operação da PF nem à rivalidade local com Rose de Freitas. "Este equipamento que acabamos de receber é muito maior do que qualquer divergência política local, que se torna muito pequena perto dos benefícios que o novo aeroporto representa".

Sob anonimato, um experiente integrante da base de Hartung na Assembleia reforçou a opinião predominante de que Hartung quis evitar o desgaste de associar sua imagem à de Temer. "É queimação."

Uma raposa política acomodada na equipe de governo de Hartung foi categórico: "O Bom Dia Brasil de hoje não deve ter estimulado muito [a participação de Hartung]", afirmou, reservadamente, em alusão ao noticiário da manhã sobre a Operação Skala.

Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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