Não existe milagre para o país, por isso é tão importante fugir das soluções fáceis demais, que não exigem o comprometimento da sociedade. O populismo é irresponsável, não tem posição política, transita entre direita e esquerda com a mesma facilidade por ser uma estratégia conveniente de convencimento, principalmente quando há o agravamento de disparidades econômicas e sociais e o esgarçamento ético. É nessas ocasiões que, amparadas pelo anseio desmedido por mudanças, as propostas demagógicas encontram terreno fértil.
É preciso ser racional, e isso exige do eleitor o conhecimento dos problemas que o país enfrenta. Nunca foi tão importante se informar, buscando fontes confiáveis. A imprensa está aí para contribuir nesse processo de formação. A maturidade cívica é essencial para discernir promessas inviáveis, feitas principalmente para ser uma resposta imediatista em tempos de ânimos exaltados, de propostas de fato responsáveis e sólidas, mesmo que quase sempre impopulares.
Fernando Haddad e Jair Bolsonaro não se eximem desses pecados. O primeiro, ao afirmar que eliminará o teto de gastos públicos – medida que se tornou impopular mais por falácias do que por aquilo que realmente propõe –, acena perigosamente para a irresponsabilidade fiscal, como se a crise econômica e o desemprego decorrente dela nada tivessem ensinado ao projeto petista.
Também aponta para retrocessos na gestão do pré-sal, insistindo num nacionalismo que imobiliza a Petrobras. Joga para a plateia sem expor os reveses de se impor à estatal o controle das áreas de exploração. Afirma, ainda, que vai revogar a reforma trabalhista, um dos poucos avanços do governo Temer para atingir a retomada do emprego.
Já Bolsonaro aponta suas armas (literalmente) para o combate à violência. Trata a segurança pública com um revanchismo que não cabe nos parâmetros do Estado democrático de Direito, mas que encontra eco entre os eleitores, pelo desamparo em que se encontram. Há muita pressa, com razão, mas é preciso medir as consequências de se combater violência com violência.
Ao se vender como um outsider, diz que no seu governo não haverá espaço para indicações políticas em ministérios, privilegiando o caráter técnico. É de fato importante fechar o balcão de negócios que se viu nos governos Temer, Dilma e Lula, mas ao mesmo tempo é preciso ter a clareza de que no jogo político deve-se dar espaço para a atuação dos partidos aliados. Em algum momento, terá que ceder.
São exemplos gritantes do populismo entranhando no discurso dos dois candidatos que disputarão os votos no domingo. Independentemente de quem vença, a sociedade deve permanecer vigilante, cobrando caminhos viáveis para os desafios que já se impõem desde o início desta década: um tempo perdido impossível de ser recuperado, cujos danos precisam começar a ser combatidos imediatamente, com a responsabilidade que se espera de um Presidente da República.