Não há problema algum no fato da Prefeitura de Vitória anunciar que pretende realizar obras na Praça do Cauê, visando interligar diretamente a Reta da Penha à praça do pedágio, de tal modo que os veículos que vão ou vêm de Vila Velha pela Terceira Ponte não precisem fazer todas aquelas conversões, afinal todos queremos um trânsito melhor.
Como se viu das manifestações de 2013 pra cá, a mobilidade urbana passou a ser um dos temas que mais afligem o cidadão brasileiro na atualidade. De qualquer modo, mobilidade é mais do que trânsito e, principalmente, é mais do que melhorar a fluidez dos veículos particulares, que serão os principais beneficiados de uma obra desse tipo.
Daí que priorizar o transporte motorizado individual é ir na contramão de um urbanismo sustentável, que preconiza o investimento no transporte público, ciclovias e calçadas para pedestres. E, no caso do transporte público, não temos visto nenhum anúncio de investimento e/ou projeto a ser implantado em Vitória ou até mesmo no âmbito da Região Metropolitana.
Sobre a Praça do Cauê especificamente, cabe primeiro olhar para o local com mais cuidado. O seu entorno é composto por uma escola pública, um único lote vazio e os demais terrenos são ocupados por construções residenciais e/ou comerciais.
E o que chama a atenção é a grande quantidade de imóveis vazios com anúncios de "aluga-se" ou "vende-se", ou seja, ali ocorre um processo de esvaziamento que tende a se agravar, pois a região perdeu a atratividade e civilidade cidadã que garantisse seu uso por pessoas, pois agora ela é ocupada hegemonicamente por veículos em circulação, de tal modo que a praça mesmo já não é usada pela população nem para ser contemplada, não sendo mais do que um "indesejável obstáculo" urbanístico.
Na verdade, trata-se de uma degradação urbana que já vem atingindo boa parte da vizinhança da praça, pois trechos das avenidas Cezar Hilal, Desembargador Santos Neves e da Rua Dukla de Aguiar também possuem imóveis vazios ou subutilizados, haja vista que são vias que se tornaram somente corredor de passagem de veículos.
Mas e aí, qual é a proposta da prefeitura para a reversão dessa situação? Ou será que isso não é algo com que ela deva se preocupar?
Curiosamente, um dos aspectos mais eficientes para uma cidade humanizada é possuir uma mistura de usos e atividades, ao contrário do zoneamento monofuncional preconizado décadas atrás. E, de certo modo, aquela região de Vitória possui tal característica, pois existem residências, comércios e serviços, além da proximidade com uma das maiores áreas de lazer da cidade que é orla das praças dos Namorados, do Desejo e a Curva da Jurema. Ou seja, ali teria tudo para ser aquilo que os urbanistas chamam de "cidade amigável".
Enquanto cidades como Boston e Barcelona vêm criando restrições à circulação de veículos, buscando incentivar modos mais sustentáveis de deslocamento como andar a pé e de bicicleta, até agora só temos visto por aqui a lógica da cidade excludente, motorizada e poluente.
É até compreensível melhorar a infraestrutura viária para veículos, até porque ela atende também aos ônibus, base da nossa mobilidade metropolitana, mas já está comprovado que à medida que essas melhorias ocorrem, mais veículos tendem a circular pela região, de tal modo que logo virão novos engarrafamentos.