Marcos Ramos*
O cenário para as eleições é o seguinte: Bolsonaro, um entusiasta da tortura, como candidato é uma excrecência no sistema republicano; Marina Silva, que não consegue se afirmar sequer como uma candidata vinculada à ecologia – sua omissão no caso de Mariana é o mais contundente testemunho dessa inabilidade política; Ciro Gomes, um representante do apelo tradicional desenvolvimentista, com postura entre altiva e presunçosa, agrada parte do eleitorado da direita, porque cheira a tecnocracia aliada à força, e de centro-esquerda, porque está alinhado com algumas políticas afirmativas. Boulos, o candidato que tem o melhor projeto, mas não tem força suficiente, sobretudo porque ainda não encontrou maneiras de desativar afetos políticos que tendem à conservação de modos de vida espoliadores. E Lula, que diante do cenário sem conciliação não tem o que oferecer. Mas apresenta uma especificidade que, sobretudo, interessa à análise de conjuntura.
O problema maior é que, independentemente de quem ganhar as eleições, as coisas não tendem a mudar. De um lado, o mecanismo de preservação de poder ainda será privilegiado pelo sistema de coalisão partidária. De outro, o vínculo do patronato político com os seguimentos do empresariado também continuará
Concordando ou não com a prisão do ex-presidente, a retirada de um candidato com 30% de intenções de voto (quase o dobro do segundo colocado) do jogo político é um espectro sobre a democracia alarmante. E isso nos leva a outra questão: pensar os rumos do país hoje exige séria reflexão sobre as ambivalências da Lava Jato. Se a operação tem caráter republicado porque é a favor do combate à corrupção, por outro lado ela compromete esse mesmo ideal quando se revela punitivista e alimenta afetos políticos que resultam na projeção de candidatos que sustentam a simplista bandeira de “law and order”, como Bolsonaro. Além disso, a Lava Jato, no papel, tem o objetivo de restaurar as instituições democráticas, mas, na prática, desequilibra o jogo político porque tira de campo uma das forças de disputa, o que é antidemocrático por excelência.
O problema maior é que, independentemente de quem ganhar as eleições, as coisas não tendem a mudar. Porque de um lado o mecanismo de preservação de poder ainda será privilegiado pelo sistema de coalizão partidária, aquilo que, na ausência de projetos, ideais e coerência, transformou-se em benesses, favores e conchavos. De outro lado, o vínculo do patronato político com os seguimentos do empresariado também continuará. Os políticos com o objetivo de se estabelecerem vitaliciamente e os empresários em busca de um atalho para o crescimento que dispense as agruras do jogo de concorrência num encaixe perfeito e nefasto. O sintoma é claro, a democracia representativa padece. Dois caminhos se apresentam como projetos de Brasil: um deles é extremamente conservador e motivado pelo medo, o outro exige coragem e aponta para uma democracia popular.
*O autor é professor e escritor