Jacyara Paiva*
“Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda” (Paulo Freire)
O livro "Pedagogia do Oprimido" já foi traduzido em mais de 20 idiomas. Só na língua inglesa, foram mais de 500 mil exemplares, sua obra foi lida em mais de 80 países no mundo inteiro, portanto não há como negar que as obras de Paulo Freire adquiriram um caráter universal.
É um ícone da educação brasileira, um dos nomes mais respeitados para o embasamento teórico de pesquisas que se relacionam à alfabetização. Em todas as suas obras, Freire nos fala da importância de uma educação que parta das necessidades das classes populares e como prática de liberdade e emancipação das pessoas. Que se goste ou não, isso não muda o fato de que suas obras falam por si e se tornaram um legado de extrema importância para se pensar a educação no mundo.
Penso que essa forma de pensar de Freire de fato incomoda a um grupo que não deseja a libertação das classes populares, que não suporta ouvir falar em justiça social, porque vivemos em um país onde a caridade pode, ela sustenta o olhar de cima do opressor, mas a justiça social que iguala os homens, nunca.
Não consigo perceber onde, nem quando a nossa “Educação Formal” foi destruída. Educação não é sinônimo de escola, existem outros espaços educativos legítimos de formação e informação e a educação escolar, chamada de educação formal, segue com todos os seus componentes formais possíveis. Em 20 obras de Paulo Freire, nunca li sobre desprezo ao trabalho ou ao ato de estudar e ensinar, ao contrário, através de seu método de alfabetização, 300 pessoas foram alfabetizadas em 40 horas, tendo por metodologia a escolha de palavras geradoras.
Paulo Freire aponta a dialogicidade como a essência da educação libertadora, ou seja o diálogo entre professor e aluno é fundamental, e só existirá diálogo se houver respeito entre eles. Para Freire, o diálogo é o encontro dos homens mediatizados pelo mundo, e aqui ele fala do diálogo possível entre opressos e oprimido, diálogo este que termina na libertação de ambos.
Freire em nenhum momento nega a importância do “estudo” em toda sua obra. Percebemos, sim, a crítica à educação bancária, a educação crítica como prática da liberdade, a defesa da educação como ato dialógico, a necessidade do professor ser também um pesquisador e ter rigor científico em suas aulas, a problematização e interdisciplinaridade no ato educativo.
Freire também defendia uma ciência aberta às necessidades populares. Diante de tudo isso, eu me pergunto: em que momento Paulo Freire destruiu a Educação Brasileira? A Educação Brasileira é que até hoje não deu o devido valor ao seu maior expoente, portanto tal afirmação só pode sair de alguém que nunca leu de fato as obras de Freire.
O livro "Pedagogia do Oprimido", escrito no exílio por Freire, veio trazer à tona a questão da relação dialética entre oprimidos e opressores e apontando o quanto é necessário uma práxis que oriente uma ação que supere esta contradição. Na obra, Freire também nos fala da necessidade de superarmos a dicotomia educador versus educando, em um processo de educação problematizadora em que o professor aprende e ensina através de uma relação dialógica com os educandos.
Paulo Freire aponta a dialogicidade como a essência da educação libertadora, ou seja o diálogo entre professor e aluno é fundamental, e só existirá diálogo se houver respeito entre eles. Ele fundamenta esse diálogo na relação amorosa, nos dizendo que esse amor se constitui na intercomunicação de duas almas que se respeitam. Para Freire, o diálogo é o encontro dos homens mediatizados pelo mundo, e aqui ele fala do diálogo possível entre opressos e oprimido, diálogo este que termina na libertação de ambos.
A teoria freiriana, na verdade, nos provoca a análise desta educação libertadora e dialógica que termina por ampliar o senso crítico e acreditar que é possível transformar e desenvolver novos conhecimentos, mas na prática isso necessitaria de colaboração, de união, de diálogo permanente para que possamos transformar a realidade opressora em que vivemos.
Por fim, percebemos que em todo o contexto de seu livro, não há nenhum momento que Freire é contra a escola formal, contra o trabalho ou coisa que o valha. Em todo o contexto de seu livro ele busca mostrar como a educação brasileira reproduz desigualdade, marginalização e miséria. Ele coloca que o ensinar a não pensar é algo planejado pelos que estão no poder, para que possam ter em suas mãos a maior quantidade possível de oprimidos.
Dizer que a teoria freiriana destruiu a escola brasileira é uma afirmação leviana e digna de quem não leu a Pedagogia do Oprimido e as mais de 20 obras de Paulo Freire e se leu, não conseguiu entender. Ao analisarmos a obra de Freire, percebemos que até hoje, em nossas escolas, o conceito de educação problematizadora ainda não conseguiu ser implantada, pois os professores vivem o drama de pensar e cumprir o que lhes é imposto pelos órgãos educacionais. O sistema educacional de hoje continua a disseminar a opressão. Não por causa do professor, mas pelas condições de trabalho que lhes é imposta.
Paulo Freire incomoda, porque ele nos fala do estabelecimento de novas utopias em que os princípios de qualidade de vida, solidariedade, justiça e sustentabilidade possam predominar sobre o consumismo e o individualismo. Freire, mesmo depois de morto, nos desafia e nos questiona.
Há três anos quando estive em universidades na Espanha e Finlândia, pude ver de perto a admiração que a academia desses países europeus têm por Paulo Freire e sua obra, e fiquei pensando que apenas e tão somente no Brasil se atribui o desastre da educação brasileira ao pensamento de Paulo Freire, sendo que a educação brasileira não está e nunca esteve, infelizmente, baseada nos princípios freirianos. Qualquer professor que já leu um pouquinho de Freire e conhece nossa realidade escolar sabe disso, por isso causa-me espanto ver um professor de História escrevendo algo sem nenhum embasamento teórico.
Num mundo impregnado e regido pelo neoliberalismo, pela predominância do mercado, de fato a teoria de Freire incomoda, porque ele nos fala do estabelecimento de novas utopias em que os princípios de qualidade de vida, solidariedade, justiça e sustentabilidade possam predominar sobre o consumismo e o individualismo. Freire, mesmo depois de morto, nos desafia e nos questiona.
Quanto a citações de personagens de esquerda em sua obra, Paulo Freire é um pensador de esquerda e nunca escondeu isto, mas esse fato é o suficiente para que mensagens de ódio se destilem contra ele.
Paulo Freire recebeu uma variedade de prêmios em diversos países e organizações, dentre eles o Prêmio Andres Bello, da OEA, como Educador dos Continentes. É de fato um ícone da educação brasileira e um dos nomes mais respeitáveis na educação. As obras de Freire falam por si e se tornaram um legado importante para o desenvolvimento da visão educacional moderna. Fazem parte de um movimento histórico educativo e toda a América Latina o considera um dos nomes mais importantes e renovadores na área da educação nos últimos 50 anos.
* A autora é graduada em Pedagogia e Direito, professora doutora da Universidade Federal do Espírito Santo e presidente da Associação Brasileira de Pedagogia Social e Educação Social