Dez anos durou a Guerra de Troia, cujos últimos dias são narrados na “Ilíada”, poema épico de Homero. Dez anos durou o retorno marítimo de Odisseu (Ulisses) a Ítaca, sua terra natal, após o triunfo dos gregos sobre os troianos, como o mesmo Homero cantou em versos na “Odisseia”. Mais de dez anos permaneceu Homero Junger Mafra no primeiro escalão da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Espírito Santo (OAB-ES), sendo quase uma década (nove anos, para ser preciso) como protagonista desta epopeia recente.
De 2007 a 2009, Homero foi conselheiro e presidente da Comissão de Direitos e Prerrogativa da OAB-ES, durante a gestão de Antonio Augusto Genelhu Junior. Em 2009, com o apoio de Genelhu, chegou à presidência da entidade máxima de representação dos advogados no Espírito Santo, vencendo a primeira de suas três eleições seguidas. Em 2012, após a segunda vitória, declarou que não tentaria um terceiro mandato. Em 2015 voltou atrás, após o recuo do seu então candidato, Luciano Machado. Desta vez, Homero conseguiu lançar um candidato à sucessão. A missão coube ao atual secretário-geral da OAB-ES, Ricardo Brum, que polarizou a campanha com um dos dois candidatos de oposição, José Carlos Rizk Filho.
Mas o que prevaleceu nas urnas foi o desejo de renovação, presente até no nome da Chapa 2, a de Rizk, eleito ontem presidente com 53% dos votos. Genelhu chegou à presidência em 2006 com apoio do então presidente, Agesandro da Costa Pereira. Homero, três anos depois, com o apoio de Genelhu. Portanto, além da derrota de Homero, o dado mais importante dessa eleição é que, pela 1ª vez neste século, uma chapa de oposição chega ao comando da OAB-ES.
O simbolismo do fato histórico confere a Rizk uma responsabilidade extra, além da que qualquer presidente eleito já teria: a de tirar esse conceito de “renovação” do papel e dos adesivos de campanha e o transpor para a prática – ou melhor, para a prática advocatícia dos cerca de 30 mil profissionais que terão nele uma referência pelos próximos três anos.
Como ele pretende fazer isso? Na prática, o que realmente será diferente em sua gestão? “Essa renovação vai ser na prática, quando começarmos a implementar o que a situação diz que é impossível. A ideia é justamente esta: renovar para implementar. Quem está na situação acredita que não é possível pôr em pratica, exatamente por já estar ali há muito tempo”, afirma ele, dando como exemplo o projeto de anuidade zero para todos os advogados registrados na OAB-ES, um dos mais importantes da campanha.
A ideia é buscar parcerias para formar uma espécie de clube de empresas parceiras da OAB-ES (restaurantes, lojas etc.). Cada vez que o advogado consumir e gastar em uma empresa do clube, ele terá esse valor abatido de sua anuidade. “É um sistema que já existe com sucesso na OAB de Pernambuco”, cita Rizk.
O próximo presidente afirma que baseará o seu mandato em três vetores: gestão, eficiência e transparência, com ênfase no último. Ele conta que todos os contratos da OAB-ES serão apresentados no site oficial, assim como todas as receitas. Outro compromisso é criar uma gerência de compliance, com gente de fora da OAB-ES, para fiscalizar os atos da próxima diretoria. Além disso, segundo Rizk, nenhum diretor da OAB-ES poderá ter vínculo de qualquer natureza com empresas que prestem serviços à entidade. Rizk ainda quer profissionalizar a Comissão de Prerrogativas e melhorar o atendimento aos advogados nesse campo.
Fato é que, a partir de janeiro, começa a ser escrita uma nova história na OAB-ES, agora protagonizada por Rizk.
Mais rápido que Brum
Após o resultado matemático, Homero ligou para Rizk para parabenizá-lo. Fez isso antes mesmo de Brum (seu candidato) e de Elisângela Melo, a 3ª colocada. Em nota, Homero disse que as portas da Ordem estarão abertas ao sucessor. Resta saber se todas as chagas da campanha estarão fechadas.
Homero e Bertolucci
Morto nesta semana, o cineasta Bernardo Bertolucci era um marxista convicto. Homero é um homem de esquerda. Terá dançado ontem seu último tango político? Terá sido o último imperador da OAB-ES?
Trocadilho à parte...
Apesar do longo tempo em que permaneceu no poder, Homero não pode, com justeza, ser chamado de “imperador”. É um legalista, um democrata e um defensor do Estado de Direito.
Uma vaga é de Vicente
Só falta definir a pasta, mas é fato: como publicamos no Gazeta Online na última terça-feira, o deputado federal Marcus Vicente, presidente estadual do PP, fará parte do secretariado de Renato Casagrande (PSB). Na próxima segunda ou, no máximo, terça-feira, eles terão reunião para definir a secretaria. Vicente pode assumir a de Agricultura, a de Esportes ou a de Turismo, já comandada por ele no governo passado de Hartung, de abril de 2007 a abril de 2010.
Fora dos planos
Não tínhamos planejado esta errata, mas ela se faz necessária: Davi Diniz (PPS) será chefe da Casa Civil de Casagrande, não secretário de Planejamento (como publicamos ontem, em nota sobre seu sucessor na Fazenda em Vitória).