Antônio Carlos de Medeiros*
2013 desembocou em 2018. O novo Zeitgeist (espírito de época), vislumbrado nas manifestações de 2013, agora teve efeitos pertinentes no sistema político e partidário. A sociedade, em novo clima cultural que já marca a época, votou por mudanças e provocou um tsunami.
Ainda sob efeito de uma espécie de ressaca eleitoral, as elites políticas começaram a se dar conta ao longo da semana. Caiu a ficha. Houve mudança de 47% das cadeiras na Câmara federal. A bancada do Espírito Santo mudou em 50% na Câmara e em 2/3 no Senado. As urnas varreram o Senado, provocando a maior renovação desde a redemocratização, com 46 novos nomes (85% da Casa).
A razão central de voto não é só o antipetismo. Tem mais coisas aí. O país aponta para uma crescente opção por uma agenda liberal. Conservador nos costumes, liberal na economia. Lula se autointitulou “uma ideia”. Mas o fenômeno Bolsonaro também mostrou-se como “uma ideia”. Simbolicamente, foi/é uma disputa de personas com narrativas binárias e com enorme compreensão da importância do gestual e do simbólico na arena da luta política.
A Ágora grega reapareceu com força nas redes sociais. Esta onda virtual deve alimentar a ampliação de movimentos cívicos que possam oxigenar partidos e provocar a confluência da democracia direta com a democracia representativa
Passada a polarização e a radicalização real, virtual e simbólica do primeiro turno, a disputa do segundo turno já tende a levar os dois polos políticos a um leve reposicionamento para o centro do espectro, moderando as respectivas agendas e narrativas, com nuances da agenda liberal. Bolsonaro faz leve inflexão. Haddad também. Nos lembra a máxima de Anthony Downs, ao tratar dos paradoxos das votações: as opiniões tendem a se distribuir em curva com forma de sino, tornando os extremos pontos fora da curva. E convergindo para a preferência mediana com opiniões mais moderadas. Haverá, como resultante, uma agenda liberal, democrática e reformista?
Enquanto isto, o sistema partidário virou de ponta cabeça. Enorme fragmentação partidária na Câmara, no Senado e na Assembleia Legislativa do ES. Enfraquecimento dos partidos em prol de personagens. A cláusula de barreira já começou a diminuir o número de partidos. O fim das coligações em 2020 também terá efeitos positivos. Mesmo assim, é urgente a mudança do sistema eleitoral, para o distrital misto, e da legislação dos partidos, para tirar poder dos caciques dos partidos.
A Ágora grega reapareceu com força nas redes sociais. As razões de votos – família, amigos e TV – tiveram a forte companhia das redes. A nova política foi alimentada por aí. Esta onda virtual deve alimentar a ampliação de movimentos cívicos que possam oxigenar partidos e provocar a confluência da democracia direta com a democracia representativa.
A onda liberal vai resultar em mudanças e reformas? O que virá, como resultante, do embate entre “a ideia Lula” e “a ideia Bolsonaro”? A resposta virá das urnas e do próximo governo do Brasil. Enquanto isso, o mundo das ciências cognitivas pode nos ajudar a entender o tsunami...
*O autor é pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science