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Gabriel Tebaldi

O trabalho informal de mestres e doutores

Se, por um lado, o aumento das vagas atendeu a funções sociais, por outro o boom da "geração diploma" fez da graduação algo quase indiferente no mercado

Publicado em 18 de Maio de 2018 às 19:52

Públicado em 

18 mai 2018 às 19:52

Colunista

Reitoria da Ufes: este ano, universidade enrijeceu processo de avaliação de cotas, como A GAZETA noticiou Crédito: Edson Chagas | AG
“Você quer ser professor ou pesquisador?”, questionou-me uma professora na graduação. Respondi: “Professor. Desde o 1º período dou aula particular e em cursinhos”. Em meio à greve de 2012, arrisquei-me a fundar uma empresa e daí em diante vivi entre gestão, estudos e 60 aulas por semana.
Naquela época, as universidades recebiam investimentos como nunca. Na Era Lula/Dilma, o ensino superior cresceu 65%, e o Reuni injetou R$ 22 bilhões nas federais. Mestrados e doutorados tornaram-se mais acessíveis. Em 20 anos, o número de mestres no país aumentou 379% e o de doutores, 486%.
Vê-se que a simples inclusão no ensino é incapaz de transformar o país. A mão de obra, qualificada ou não, de nada serve se não atender às necessidades do mercado
Se, por um lado, o aumento das vagas atendeu a funções sociais, por outro o boom da “geração diploma” fez da graduação algo quase indiferente no mercado. Segundo o IBGE, 1 milhão de pessoas são diplomadas por ano no Brasil, porém, somos o segundo (num ranking de 38) onde as empresas têm maior dificuldade para contratar.
Nas federais, os pesquisadores são, via de regra, crias do meio acadêmico e pouco aprendem sobre empreendedorismo, economia criativa, eficiência empresarial e dinâmica de mercado. Assim, o caminho é quase único: quando a bolsa acaba, o jeito é passar num concurso. Contudo, com o agravamento da crise após 2014, a fonte secou e as portas federais se fecharam.
Ao tentar carreira na iniciativa privada, a maioria do grupo é vencida por profissionais que, mesmo com menos títulos, possuem maior experiência e desempenho. Temos, assim, mestres e doutores lutando pelo sustento fora de suas áreas. Fazem bicos em bares, doces caseiros, trabalhos informais e atividades que, embora totalmente dignas, seriam impensáveis há dez anos para um intelectual de alto diploma.
Vê-se que a simples inclusão no ensino é incapaz de transformar o país. A mão de obra, qualificada ou não, de nada serve se não atender às necessidades do mercado.
É preciso que as instituições de ensino superior tenham, como objetivo central, produzir conhecimentos e retornos ao povo que as sustenta. Enquanto a academia atuar só para si, armada com discursos ideológicos de rejeição à produtividade e às demandas econômicas, seguiremos alistando um exército de intelectuais alheios ao “mundo real”, dependentes das políticas de governo e o pior: cruelmente fadados ao desemprego.
*O autor é graduado em História e Filosofia e pós-graduado em Sociologia
 

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