A cena é cada vez mais comum em cidades brasileiras. Na falta de política econômica que considere a geração de emprego e renda como prioridade, cresce o número de pessoas que buscam gerar sua sobrevivência comercializando produtos em locais de maior fluxo de pessoas.
O caso que inspira esta reflexão é composto por três pessoas que comercializam água de coco. Uma no facão e duas coando, envazando a água e fazendo o caixa. As duas se revezam nas atribuições e buscam atender a clientela com presteza e simpatia.
Difícil deixar de registrar nesse trio que ali estava a essência do trabalhador brasileiro e de que tanto se orgulha o observador. Aquele que usa o facão com maestria responde que a observação feita é coisa rara de se ouvir: “um em um milhão” das pessoas atendidas se dignam a fazer um elogio.
Além de serem geralmente desconsiderados pelas políticas de crédito e financiamento; pelos programas de capacitação gerencial e por qualquer tipo de atendimento voltado para a inovação, estas pessoas também são invisíveis para parte considerável de sua clientela. A interação geralmente se resume a informações básicas sobre a quantidade demandada, o pagamento do produto e o recebimento do troco.
Além de uma questão ética, dar centralidade ao humano e priorizar a inclusão social representam necessidade para que a roda da economia gire de forma sustentável
Aceitar a perda de humanidade como parte da vida moderna é algo que precisa ser questionada e discutida. Colocar o ser humano como peça central em todas as políticas econômicas é essencial para que se teça uma outra qualidade de vida social.
Que se destaque a prioridade de inclusão social em programas que precisam ser operacionalizados para compensar a crescente concentração de riqueza e a injustificável apatia para com o semelhante.
Além de uma questão ética, dar centralidade ao humano e priorizar a inclusão social representam necessidade para que a roda da economia gire de forma sustentável. Enquanto a essência do crescimento estiver concentrada em ganhos financeiros que poucos beneficiam, difícil será a possibilidades de sustentabilidade social, ambiental e econômica.
Sustentabilidade que deve ser buscada através da identificação e operacionalização de alternativas por parte de governos estaduais e municipais. Apoiar quem atua em micro, pequenos e médios empreendimentos é uma dessas alternativas.
Apoio para além dos – já exiguos – programas de assistência técnica, crédito e financiamento. É preciso torná-los visíveis e valorizados aos olhos da população. Valorização no sentido de entender que o brasileiro é o que de melhor existe no Brasil, como ensina Câmara Cascudo.