Donos do poder esbanjam dinheiro sugado da renda da população como se fosse patrimônio particular, torrado aos borbotões. Esta é uma das formas mais danosas do patrimonialismo tupiniquim e, como não tem rótulo de corrupção, é tolerada anestesicamente pela sociedade.
A cinco meses das eleições, o momento é oportuno para um debate amplo e democrático sobre privilégios no setor público. Se assim o fizer, a campanha eleitoral ganhará em conteúdo.
Até quando a consciência da cidadania será insultada?. “Viagens de jatinho, hospedagem em flat de luxo em fins de semana, refeição de R$ 1.000… Gastos de senadores com cota parlamentar chegaram a R$ 26,6 milhões em 2017”, diz a principal matéria do site G1, no sábado último. É incrível essa farra num país em que 25 milhões de pessoas sobrevivem com renda mensal inferior a 25% do salário mínimo, cerca de R$ 220. Significa que 12,1% dos brasileiros vagueiam na miséria, conforme aponta a Síntese de Indicadores Sociais (SIS) do IBGE.
A cinco meses das eleições, o momento é oportuno para um debate amplo e democrático sobre privilégios no setor público
O escândalo das cotas parlamentares é só mais um, não o único. Pesquisa da Rádio CNB apurou que em 2017 as autoridades de Brasília passaram 4.390 horas (o que daria 182 dias ininterruptos) voando de graça (para eles, para o povo não) nos aviões da FAB. Ou seja, mais de 100 voltas ao redor do mundo. Foram 2.330 voos, sem contar idas e vindas presidenciais, mantidas em segredo. Gastou-se R$ 180 milhões com combustível e lubrificantes para aeronaves.
O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, foi quem mais viajou na mordomia: 210 vezes no ano; 17 voos por mês. “Autoridades alegam estar a serviço, mas agenda não indica compromisso oficial”, ressalta o site da CBN. São muitos os casos.
Em 2013, o senador Renan Calheiros, pegou um jatinho da FAB em Brasília e foi a Recife fazer um implante de cabelo. Ele também arrepiou os contribuintes ao usar o avião militar de Maceió a Trancoso, na Bahia, para ver o casamento da filha do senador Eduardo Braga.
Também em 2013, o presidente da Câmara Henrique Alves, a noiva e enteados, voaram nas asas da FAB de Natal ao Rio de Janeiro para assistir um jogo da Seleção Brasileira.
Essas lembranças reforçam um desafio: que governantes e representantes vamos eleger?
*O autor é jornalista