A importância da personalidade nas análises de processos decisórios torna-se flagrante quando comparamos as trajetórias de Nelson Mandela e Robert Mugabe. Os dois cresceram em situações semelhantes. Apenas seis anos mais velho, Mandela formou-se em Direito; Mugabe em Economia. Ambos militaram em movimentos filocomunistas, advogaram a violência contra os regimes brancos e foram presos: Mugabe por 11 anos; Mandela por 27. Soltos, ambos, em 1964, foram eleitos em eleições democráticas chefes de governo de seus respectivos países: Mugabe em 1980; Mandela em 1994. Ambos assumiram o poder com discurso conciliador. As semelhanças terminam aí.
Mugabe assume com ímpeto revolucionário. Muda o nome da Rodésia para Zimbabue e governa por 37 anos, na base do nós contra eles: esmaga seus opositores, expulsa os brancos e promove uma desastrada reforma econômica, que resulta numa hiperinflação alucinada (em 2008, foram impressas cédulas de 100 bilhões de dólares zimbabuanos), e crônica escassez de alimentos, num país que fora o maior produtor agrícola da África. Afinal, os militares que o sustentaram depõem-no do poder, em meio ao regozijo popular.
Mandela dedica seu único mandato, de cinco anos, a conciliar uma sociedade polarizada ao extremo. Ao invés de acertos de contas, preserva os fundamentos econômicos e promove a ascensão social sem prejuízo do respeito aos deveres democráticos. Ao deixar o poder em 1999, a economia sul-africana estava em plena recuperação e as barreiras sociais em gradativa queda, embora em ritmo mais lento do que desejado por lideranças radicais.
Sua morte, em dezembro de 2013, foi pranteada em todo o mundo. Carinhosamente chamado de Madiba pelo povo sul-africano, tornou-se ícone da convivência pacífica, esteio da democracia racial, símbolo de honestidade e grandeza no poder. Nada fácil encontrar por aí um outro sequer parecido.
*O autor é embaixador e diretor-presidente da Companhia de Desenvolvimento de Vitória (CDV)