
Orlando Caliman*
Dilemas nos remetem a situações ou problemas cujas soluções se mostram de alguma forma antagônicas ou conflituosas. É como, em resumo, podemos caracterizar a situação do emprego no mundo frente à intensificação e aceleração dos avanços tecnológicos. Esse processo é suportado, sobretudo, por processos de automação – robótica – e pelo uso de inteligência artificial, que não estão mais limitados às atividades industriais, mas tendem cada vez mais a impactar atividades comerciais e de serviços em geral.
Uma nova economia e um novo mundo do trabalho estão em pleno curso de afirmação no mundo, com impactos profundos nas estruturas produtivas e nas sociedades.
Tanto do ponto de vista da economia global quanto das economias de países e blocos econômicos, o dilema do emprego se impõe na medida em que a necessidade de se criar novos postos de trabalho confronta-se com a inexorabilidade da evolução das transformações tecnológicas, supostamente indo na direção contrária.
Não é fora de razão que o tema “futuro do trabalho” encontra-se no topo das discussões e também das preocupações mundo afora. Com certeza, mais nos países europeus centrais, como França, Itália e Espanha. Infelizmente, nem tanto no nosso país.
Imaginemos como nosso país poderia enfrentar o dilema inicialmente exposto, ou seja, de criar novos postos de trabalho e, ao mesmo tempo, ter que combater os impactos de um inevitável “choque” de competitividade
Aliás, o tema emprego no Brasil deveria já estar no topo das preocupações e das propostas dos candidatos ao cargo máximo do país. Porém, até então, não nos parece que a massa de aproximadamente 13 milhões de desocupados tenha sido alvo de discussões ou pelo menos sinalizações que pudessem contribuir para a reversão do quadro que já é considerado crônico.
Isso constatado, imaginemos como nosso país poderia enfrentar o dilema inicialmente exposto, ou seja, de criar novos postos de trabalho e, ao mesmo tempo, ter que combater os impactos de um inevitável “choque” de competitividade.
O grande desafio que se coloca estará em como o país poderá dar conta do passivo, ou seja, dos 13 milhões de desocupados, e, ao mesmo tempo, poder dispor de um contingente de pessoas qualificadas para esse novo mundo do trabalho, que demandará novos conhecimentos e novas habilidades. Não é difícil percebermos que somente num cenário de crescimento econômico mais longevo e sustentado, portanto, sem percalços, essa passagem será possível.
Esse cenário desejável, no entanto, poderá ou não se confirmar, no todo ou em parte, a depender do que emergir das urnas nas eleições de outubro próximo. Estaremos, sem dúvida, diante de um dos maiores dilemas já enfrentados na história política do nosso país. Um dilema que confrontará antagonismos, extremismos, conflitos e confrontos de resultados imprevisíveis. Que pelo menos até lá cresça e prevaleça a razão.
*O autor é economista