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Vitor Vogas

O complexo de Aladim do PSOL

Hoje, aos 45 anos de idade, Moreira disputa pela primeira vez o cargo de governador do Estado, apresentando à sociedade capixaba um programa de governo que parece ter sido escrito "num tapete a voar"

Publicado em 10 de Setembro de 2018 às 06:40

Públicado em 

10 set 2018 às 06:40
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

O advogado trabalhista André Moreira (PSOL) nasceu em 13 de novembro de 1972. Em 1990, chegou à maioridade. Um par de anos depois, a Disney lançou o longa de animação “Aladim”, que estreou no mundo inteiro, inclusive em Vitória, em novembro de 1992, com estrondoso sucesso. Cantada pelo casal romântico a bordo de um tapete voador, a música tema do filme, “Um mundo ideal”, ganhou o Oscar de melhor canção original no ano seguinte.
Hoje, aos 45 anos de idade, Moreira disputa pela primeira vez o cargo de governador do Estado, apresentando à sociedade capixaba um programa de governo que parece ter sido escrito “num tapete a voar” e que vende ao eleitorado um “mundo ideal”, romantizado como um filme da Disney. O plano é cheio de propostas maravilhosas, mas fantasiosas, porquanto absolutamente inexequíveis. Ali o (e)leitor encontra promessas como a realização de concursos públicos para todas as categorias. Todas. Tudo conduz à mesma pergunta: de onde vai sair o dinheiro para a concretização dessas ideias?
Este é só um dos muitos dilemas que emergem do programa de Moreira. Mas talvez o maior de todos não diga respeito à pessoa do candidato, nem ao plano de governo com que ele se apresenta, mas ao próprio PSOL – partido de extrema esquerda fundado no fim do primeiro governo Lula, de 2005 para 2006, a partir da dissidência de uma ala do PT descontente com o mensalão e com a política econômica ortodoxa liderada por Palocci à frente da Fazenda. No Congresso Nacional, a bancada é modesta. Em alguns Estados, o partido até já conquistou algum espaço. No Espírito Santo, não.
Na entrevista dada à Rádio CBN na última sexta-feira, Moreira argumentou que o partido “está em construção”. Mas, passada mais de uma década desde a sua fundação, o PSOL nunca fez nem sequer um deputado federal e nem sequer um deputado estadual no Espírito Santo – isso numa Assembleia Legislativa hoje representada por 19 siglas. Aliás não é preciso ir tão longe: a agremiação de Guilherme Boulos nunca conseguiu eleger um só vereador em Vitória.
O PSOL é um partido sério: goste-se ou não de sua ideologia, concorde-se ou não com ela, o partido possui de fato uma ideologia. Tem um programa claro para chamar de seu, o que se torna fator de distinção em meio a esse emaranhado de legendas de aluguel que superpovoam a política brasileira. Sem maquiagem, as ideias da sigla são aquelas e quem quiser que as defenda e as compartilhe.
A questão é que um partido tão ideológico precisa de bancada, de tribuna, de espaço para defender suas ideias nas casas parlamentares, onde pode fazê-las ressoar para toda a sociedade. Só que, por não querer “se sujar” e se misturar com outros partidos não alinhados com seu programa, o PSOL no Espírito Santo se recusou mais uma vez a formar uma coligação – desta vez aliou-se só ao nanico PCB, partido que parou no tempo, lá em 1989 ou antes. As coligações são boas? Não, e já defendemos isso aqui. Felizmente, serão extintas em 2020. Mas, até o presente pleito, ainda estão vigentes e determinam a regra do jogo, que vale para todo mundo.
Ninguém espera que o PSOL se alie com o PSL de Bolsonaro. Mas não passou da hora de o partido se despir dessa aura de pureza, de quem não põe os pés no barro, e atingir a maioridade política? Depois de tantas derrotas, não é hora de o partido amadurecer e trocar o romantismo por uma perspectiva mais realista na maneira de encarar as eleições?
Fizemos essa pergunta a Moreira – a mesma, aliás, que fizéramos dois anos antes, também em entrevista à CBN, quando ele concorreu a prefeito de Vitória.
Mais uma vez, o candidato respondeu que não, por uma questão de fidelidade aos princípios do partido. “Com quem vamos nos coligar?”
Pois é. Mas aí seguimos diante de um partido cheio de “princípios”, mas que não tem um só deputado no Espírito Santo para defender esses mesmos princípios onde realmente importa. Com mandato, não a cada dois anos.
O complexo do PSOL, enfim, é pior que o de Peter Pan. É o complexo de Aladim. Mas sem Gênio da lâmpada.
Outro dilema
Advogado, com boa oratória e poder de argumentação, André Moreira tem perfil muito mais parlamentar. Por que então é candidato a governador? Por que não lançar-se, por exemplo, a deputado federal? A resposta: estratégia eleitoral.
Fazer uma deputada
O PSOL parece enfim ter caído (um pouco) na real. Obviamente Moreira e companhia têm noção de que ele não tem a menor chance. A coluna apurou que a prioridade total da sigla no ES é eleger uma deputada estadual – possivelmente, a jovem Camila Valadão ou a veterana Brice Bragato. Como candidato a federal, Moreira não atingiria o quociente eleitoral. Como candidato a estadual, disputaria os mesmos votos com as companheiras. Disputando o governo estadual, ele defende as ideias da sigla e aumenta a visibilidade das outras candidaturas do PSOL.
Avesso semelhante
O reverso ideológico do PSOL surge como seu semelhante em alguns aspectos: o Novo, partido também muito pequeno, mas extremamente ideológico e empurrado por militância aguerrida, só que posicionado no campo da direita ultraliberal. Opostos que se encontram no tamanho e na seriedade programática.
 

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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