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Ricardo Amorim
"O cenário político  foi o que limitou o crescimento econômico do  Brasil  em 2019"
O economista deu entrevista à coluna e falou  sobre as perspectivas para a economia nacional e internacional, além de apontar os principais erros e acertos do governo de Jair Bolsonaro

Beatriz Seixas

Colunista

Publicado em 13 de Novembro de 2019 às 04:00

Publicado em

13 nov 2019 às 04:00
O ano de 2019 está chegando ao fim com resultados bem diferentes dos projetados há cerca de 12 meses. O otimismo que reinava ao final de 2018 não se concretizou, mas também não podemos dizer que o ano foi perdido. Mesmo com um crescimento que pelo o que tudo indica será bem tímido, de 0,9%, o Brasil conseguiu aprovar a reforma da Previdência e colocar outras reformas na agenda do país. Mas se não bastassem os desafios internos, há ainda uma potencial crise batendo à porta do mundo.
Sobre esses e outros desafios a coluna conversou com o economista e apresentador da GloboNews Ricardo Amorim. Ele estará no Estado nesta quinta-feira (14), quando vai dar a palestra "Transformação digital: como tornar seu negócio mais sólido, acelerar seu crescimento e aumentar sua rentabilidade", durante  a 18ª Convenção Nacional das Empresas de Serviços Contábeis (Conescap), que acontece desta quarta (13) até sexta (15), no Centro de Eventos de Carapina, na Serra.

Algumas expectativas relacionadas ao crescimento da economia para este ano foram frustradas, pelo menos quando comparamos o atual cenário com as previsões feitas no final de 2018 e início de 2019. O senhor concorda que o desempenho da economia brasileira ficou aquém do esperado?

Sem dúvida nenhuma o crescimento decepcionou. No final de 2018 foram formadas expectativas bastante positivas, o que eu chamo de efeito “Ufa!”, após [superar] grande incerteza eleitoral, quando o risco de governos, do ponto de visto do mercado, poderia representar maior preocupação, como uma eventual vitória do governos do PT e do Ciro Gomes, o que não aconteceu. Então, isso gerou uma expectativa positiva. O governo atual quando começou, e particularmente o presidente Bolsonaro, brigou demais com o Congresso, e particularmente com o presidente da Câmara, o deputado Rodrigo Maia, e, por consequência disso, começou a haver uma preocupação crescente de que a agenda econômica - bastante ambiciosa que o governo tinha e tem, e necessária para colocar a economia em ordem - não seria aprovada. E, por consequência disso, várias decisões de investimentos foram para a gaveta. As pessoas acharam preferível esperar e ver o que efetivamente aconteceria na economia. Resultado foi que no primeiro trimestre deste ano, depois de oito trimestres consecutivos de crescimento, o PIB brasileiro parou de crescer. Só que já no 2º trimestre, quando a expectativa da reforma da Previdência já tinha começado a se formar e já havia sido aprovada a MP da Liberdade Econômica, o crescimento voltou. Ainda não temos os dados finais do 3º trimestre, mas deve ter acontecido mais um pequeno crescimento. A expectativa para o final do ano é, uma vez aprovada a reforma da Previdência e com a expectativa de aprovação das reformas tributária e administrativa para 2020, que a economia já começasse a acelerar no 4º trimestre e início do ano que vem. Agora, depois dessa decisão do Supremo de acabar com prisão após condenação em 2ª instância, a libertação de Lula e de outros políticos, é provável que o meio político fique mais conturbado e isso pode ser que atrapalhe também nos próximos meses. Em outras palavras, o cenário político foi o que limitou o crescimento econômico do Brasil durante este ano e a gente torce para que isso não aconteça de novo em 2020.

Para 2020, o que devemos esperar da economia brasileira?

A expectativa para a economia brasileira no ano que vem é de uma aceleração do crescimento por conta de avanço de medidas que tornam o Brasil mais atraente para empresas investirem e que aumentam a confiança dos consumidores. Por consequência, os consumidores compram mais, as empresas passam a vender mais e, vendendo mais, as empresas contratam mais pessoas, gerando um ciclo virtuoso. Agora, há riscos. O primeiro risco é de uma recessão global que, se acontecer, pode impedir o Brasil de ter essa aceleração. O segundo é o cenário político ainda incerto e pode ser que ele complique a adoção de medidas fundamentais. Se isso acontecer, é possível que a economia brasileira não tenha essa aceleração em 2020, o que continua sendo o cenário mais provável, mas longe de ser certo.

Nesses 10 primeiros meses de Jair Bolsonaro na Presidência, quais considera os principais acertos e os principais erros dele e da equipe de governo?

Sem dúvida nenhuma, o grande ponto positivo desse início do governo Bolsonaro foi a área econômica. A aprovação da reforma da Previdência foi um divisor de águas no Brasil. Sem ela, a economia brasileira viveria uma crise fiscal e uma nova crise econômica ainda mais grave do que a vivida entre 2014 e 2016, que fez o PIB brasileiro cair 9% - a maior queda acumulada em uma única recessão desde 1900 no Brasil. Só para dar uma ideia, a Argentina quando viveu uma crise fiscal, entre 2001 e 2004, teve uma contração da economia de 27%. Esse risco acabou de ser afastado. Agora, isso cria condições de um crescimento maior, mas há muito mais a se fazer. A área econômica já colocou na agenda essas medidas, particularmente as reformas tributária e administrativa. Os pontos negativos foram a quantidade e a frequência de confusões políticas e brigas que vieram do núcleo político do governo. Quase que diariamente nós temos uma novidade e, particularmente, o presidente focado em questões muito pequenas e pouco focado nas questões de maior impacto na vida do brasileiro.

O país conseguiu aprovar a reforma da Previdência depois de décadas discutindo mudanças nas regras das aposentadorias. O senhor considera que este era o principal gatilho para o país voltar a crescer? Por quê?

A reforma da Previdência foi uma das melhores, talvez a melhor, já aprovada em qualquer país dentro de um regime democrático. Em uma situação muito rara pois, segundo as pesquisas, mais da metade da população brasileira apoiava a reforma da Previdência. Em geral, a população é contrária à reforma da Previdência, pois a reforma significa, num contexto onde as pessoas vivem cada vez mais e a taxa de natalidade vem diminuindo, que as pessoas terão que trabalhar mais ou terão seus benefícios reduzidos e isso ninguém gosta. Não só do ponto de vista de sustentabilidade fiscal, a reforma é um divisor de águas, sem a qual a economia não conseguiria crescer num ritmo mais acelerado. Mas o mais importante, ela mostra que a sociedade brasileira parece ter amadurecido bastante a sua compreensão de quais são os desafios para que o Brasil possa crescer.

Passada a reforma da Previdência, quais são os principais passos/medidas que devem ser o foco do governo e do Congresso na opinião do senhor?

Sem dúvida nenhuma, os dois principais focos, do ponto de vista econômico, agora serão as reformas administrativa e tributária. Elas deverão ser o foco do governo daqui pra frente.

Acredita que o Brasil tem disposição e força (política) para tocar reformas complexas, como a tributária e a administrativa, mesmo considerando que 2020 tem eleições municipais?

Ano de eleição é sempre um ano mais difícil para avanço de reformas, aliás, esse é um dos grandes problemas brasileiros porque metade dos anos no Brasil são anos de eleições. Isso mostra que, no começo do ano o cenário ainda está muito mais favorável ao avanço de reformas importantes do que mais para o final do ano. Agora, é importante entender que, ao contrário da reforma da Previdência, que é uma reforma com impactos mais importantes e diretos do ponto de vista da população, grande parte das mudanças da reforma tributária é para que o ambiente tributário brasileiro fique mais simples, mais eficiente, para que as pessoas e as empresas percam menos tempo tendo que focar em impostos do que no que realmente importa. Isso não é impopular, muito pelo contrário. Sim, um ano de eleição é mais difícil para reformas, mas estas reformas e, particularmente a tributária, não tem essa característica. Não por acaso, o governo está começando a focar na reforma administrativa, ainda avançando no final desse ano e no começo do ano que vem, quando as condições são mais favoráveis e deixa a tributária para a sequência.

O Brasil vive uma situação inédita do ponto de vista da taxa de juros baixa. Acredita que a Selic continuará a cair em 2019 e 2020? De que forma os juros baixos vão ter impactos na economia? Avalia que as instituições financeiras serão capazes reduzir as taxas para o consumidor final, seja ele pessoa física ou jurídica?

O ambiente de juros muda completamente o cenário no Brasil, porque, para começo de conversa, o país tem uma necessidade brutal de infraestrutura, mas não tinha ou tem uma infraestrutura decente por várias razões. Mas a questão dos juros altos sempre foi fundamental, porque juros altos significam que a maioria dos projetos não tinha uma taxa interna de retorno alta o suficiente para justificar buscar o financiamento com um custo tão caro e correr o risco de todo o empreendimento. Quando os juros caem, uma série de investimentos em infraestrutura que não eram viáveis passam a ser, a mesma coisa acontece com o mercado imobiliário, com empresas que passam a comprar máquinas, pessoas comprando imóveis ou automóveis, é todo um processo positivo e significativo para a economia. O que está faltando? Uma queda muito mais significativa do ponto de vista do consumidor final. Por que isso não acontece? Por várias razões, um deles é a taxa básica de juros, e outro é a taxa de inadimplência, que deve cair nos próximos anos porque o emprego está voltando, então isso deve colaborar para a taxa de juros cair. Outra razão que contribui para a taxa de juros cair é a concorrência, que também aumenta com a presença maior das fintechs; há também os depósitos compulsórios, que é a parte que os bancos captam, mas que não podem emprestar, eles devem deixar depositado no Banco Central e, a medida que economia vai ficando mais estável, esses depósitos podem cair e colaboram para um custo menor de crédito. Em resumo, sim, eu acredito que a taxa de juros para pessoa física deve cair no Brasil ao longo de 2020.

O desemprego continua muito elevado no Brasil. Em que momento acredita que o país vai virar essa chave e voltar a contratar de forma mais sólida?

O Brasil já está contratando de maneira sólida, mas isso ainda não é suficiente e não vai ser por algum tempo para fazer com que o desemprego não seja elevado, porque a crise econômica brasileira elevou a taxa de desemprego a um nível muito alto e vai demorar muito para que volte a um nível baixo. O que tem acontecido é uma criação de empregos bastante significativa já. Esse ano a geração de empregos já chegou na casa de milhão, só que estamos falando num horizonte de 13 milhões de desempregados, isso só fez reduzir para 12 milhões, ainda é muita gente desempregada. E o problema é ainda mais grave porque só aparecem nas estatísticas de desemprego aqueles que não estão trabalhando, mas estão procurando emprego; não são considerados aqueles que desistiram, que procuram por tanto tempo e desistiram; e também não considera os subempregados, que vivem de bicos; considerando todos, são mais de 65 milhões de pessoas e isso é um absurdo.

A tecnologia vem agregando muito no dia a dia dos cidadãos e das empresas. Mas também tem sido responsável por transformações no mercado de trabalho e nos negócios. Avalia que profissionais e empresários estão preparados para acompanhar esse novo momento? Quais são os principais desafios a enfrentar?

Todos têm que entender como a tecnologia muda o que eles fazem, porque quem não entender corre o risco de não conseguir se posicionar no mercado de trabalho e isso é um desafio enorme em qualquer país do mundo, principalmente no Brasil, onde a maioria tem o nível de educação relativamente mais baixo. Todas as empresas precisam ajudar, investindo e preparando seus funcionários; mas é uma responsabilidade individual, tanto como trabalhador, quanto como cidadão, de ver como isso vai acontecer e nos prepararmos para lidar com essa transformação.

De que forma uma potencial crise internacional vai impactar o Brasil? O senhor considera que a crise externa vai eclodir quando?

O que é claro é que a próxima recessão global não está muito distante; o que não é claro é se o “não muito distante” significa poucos trimestres ou poucos anos. Pode ser que a recessão global aconteça em 2020, como pode ser que ela aconteça em 2021,2022, é difícil imaginar que ela vá passar muito disso. O que é relevante é o que poderia fazer com que ela aconteça de forma mais rápida, e o maior risco para 2020 é um eventual acirramento da guerra comercial entre EUA e China, que pode jogar as economias desses países numa recessão e arrastaria economias do mundo inteiro nessa recessão. Esse provavelmente é o maior risco que teremos que acompanhar o tempo inteiro e, se acontecer, a economia brasileira, que está num momento de aceleração, verá uma desaceleração e, eventualmente, dependendo da gravidade de uma recessão global, passar por uma recessão.

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