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Vitor Vogas

"Nova UDN" nada tem de nova. Nem de séria

A propagandeada "refundação" da UDN é puro charlatanismo

Publicado em 21 de Fevereiro de 2019 às 22:23

Públicado em 

21 fev 2019 às 22:23

Colunista

Charge Crédito: Amarildo
Especulou-se, nos últimos dias, sobre um flerte da família Bolsonaro com a “nova” União Democrática Nacional (UDN), como possível destino do clã se confirmado o desembarque do PSL.
Não se enganem. A propagandeada “refundação” da UDN é puro charlatanismo. Alguém aí lembra ou sabe dizer o que efetivamente defendia e representava o partido de Carlos Lacerda, lá nos tempos de Vargas e de JK? Pois é. Nem o seu presidente nacional, Marcus Alves – figurinha muito conhecida no meio político capixaba –, teria condições de responder. Mas aí é que está o ponto: para os “novos udenistas”, não faz a menor diferença.
A “refundação” da UDN passa muito ao largo de preocupações com a construção de um programa, de um projeto de país, de um partido de verdade. Em tom megalomaníaco, Alves afirma que seu objetivo é fundar “o maior partido de direita do país”. Só isso. Mas o que isso significa de verdade? De qual direita ele está falando? Não importa. O importante é que a “direita” está no poder e, mais que isso, está na moda. Se o vento estivesse soprando a favor de partidos de esquerda, o dirigente tentaria fundar o maior partido de esquerda do Brasil. Não duvidem.
Atuando estrita e intensamente nos bastidores da política capixaba, Alves se tornou famoso por seu senso de oportunidade e por sua capacidade de operar a favor dele a legislação eleitoral e o sistema de votação proporcional de deputados – caótico e dominado por alguns poucos “magos”. Com poucos recursos declarados mas muita habilidade na montagem das chapas, ele costumava eleger muitos deputados estaduais na direção do PRP, outra sigla nanica que defende o que mesmo? Tanto faz. Isso era o de menos. 
Para aumentar a visibilidade de um partido que não poderia chamar a atenção por suas ideias inexistentes, Alves sempre foi praticante do lema de que “não existe propaganda ruim” e da máxima “falem mal, mas falem de mim”. Investiu na “contratação”, digo, filiação de celebridades e subcelebridades, algumas delas controversas.
Lembra-se do Fábio Luiz, capixaba que foi prata no vôlei de praia na Olimpíada de Pequim? Passou por lá. E Andréia Schwartz, ex-garota de programa e pivô de um escândalo que derrubou o então governador de Nova Iorque, Eliot Spitzer? Também foi filiada e lançada candidata a deputada por Alves, em 2010. O mesmo ocorreu, em 2014, com Carlos Costa, chefão da Telexfree, uma das maiores pirâmides financeiras do mundo e alvo de várias condenações na Justiça.
Pelas mãos de Alves, enfim, o PRP funcionava como uma microempresa eleitoral, um cartório para registro de candidaturas; um partido de aluguel nesse grande bazar que se transformou nosso sistema partidário. Ora, o mesmo vale para o PSL de Bolsonaro. E assim também será essa “nova UDN”, que deve estar fazendo Lacerda se revirar no túmulo.
Alves na verdade só está usando o nome, muito popular no passado, como se estivesse pegando para si o domínio para criar um site na internet. Ao colunista Bernardo Mello Franco, de “O Globo”, ele mesmo admitiu não ter acreditado quando descobriu que o nome da sigla estava livre. Sorte grande, hein! É como se um empresário resolvesse abrir, hoje, uma rede de varejo chamada Mesbla, para fazer o negócio bombar.
Com essa postura, ameaçando pular mais uma vez para outro galho (uma das marcas de sua longa trajetória política) e abandonar a sigla pela qual se elegeu ante a primeira crise, Bolsonaro prova que somente usou o PSL como um trampolim para chegar ao Planalto, o qual agora pode ser descartado.
Tratar os partidos assim, como verdadeiras “casas de passagem”, como embalagens descartáveis, não fortalece em nada o sistema político brasileiro. Tampouco criar novos partidos de aluguel, em vez de propor ao Congresso mecanismos para coibir a sua multiplicação.
A ironia maior é que, nestes dois primeiros meses de governo, Bebianno, Luciano Bivar, o ministro do Turismo, os Bolsonaro e outras figuras do PSL se viram envoltos em casos que revelam a prática de alguns dos mais surrados truques do manual de como se dar bem ocupando cargo eletivo ou de direção partidária: funcionária fantasma, uso de laranjas para apropriação de salários de assessores ou para desvio de recursos públicos de financiamento de campanha.
Quanto a Marcus Alves, chefe do possível novo destino do clã Bolsonaro, perdeu o cargo comissionado que ocupava no governo passado de Paulo Hartung, por que motivo mesmo? Denúncia feita por um assessor de que ele se apropriaria de seu salário (alô, Queiroz!). O velho rachid. Com direito a ameaças ao servidor. A Polícia Civil, no entanto, encerrou a investigação sem encontrar elementos materiais que provassem o rachid.
De todo modo, não é exatamente um retrato da qualificação da política. A UDN, no fundo, nada terá de novo. Só a velha gana de pôr as mãos de novo no Fundo.

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