Naquele tempo, em Vitória nem se ouvia falar de assassinos roubando pessoas na rua. Assaltos a bancos eram temas de filmes, principalmente americanos. A nossa juventude sentava na escadinha entre o Colégio do Carmo e um antigo palacete chamado Lorenzoni, acho. Cantávamos e rezávamos, quase ao mesmo tempo. Bem em frente à casa da Ângela e da Bernadete, éramos os mesmos integrantes da Juventude Estudantil Católica cobrando de Deus justiça e paz em uma ditadura que interrompera nossa juventude.
Alguns de nós já foram encontrar pessoalmente com Jesus, como minha querida amiga, a insubstituível Dodora Costa. Por onde andarão Léa, Jurandir, Helena Resende, Toninho, Poly, Chico Celso, Carlos Magno, Luiz Raul, Murilo Serpa, Silvinha Liz, Flávio Lins e Rosa, Carlito Osório, Roberto Calhau, além da ala das praias e de Vila Velha, como Gulhermina, Jussara, Julinho Prates e poucos outros. Dia desses encontrei Lurdinha Lordello em um encontro de avós. A que ponto nós chegamos. Estava linda e doce como sempre.
Recordando esse nosso povo de Deus é impossível esquecer o cancioneiro da época, notadamente a Bossa Nova, e os cantos sacros para acompanhar a comungada diária na Catedral. Acabo de lembrar do padre Jose Luiz D’Avila, que largou a batina, uma pessoa maravilhosa, e o “pai” de nós todos, o arcebispo Dom João Batista e Albuquerque. Este vivia humildemente na Cidade Alta, e era figura de alto prestígio no Vaticano, conselheiro do Papa João 23. De vez em quando íamos visitá-lo.
Não deixo de associar as músicas com os sentimentos da época. Bem me lembro de um encontro do Colégio do Carmo, onde cantamos o tema da peça “Arena Conta Zumbi” que arengava contra a ditadura. “O Arena conta a história pra você ouvir gostoso, quem gostar nos dê a mão e quem não, tem outro pouso...”, e assim ia. Música de Edu Lobo, texto do Boal e grande elenco. Estreara no Rio e foi montada em Vitória por Milson Henriques com suas múltiplas habilidades no teatro do Hotel Majestic.
A Bossa Nova enchia os corações de lágrimas. Às vezes, a ditadura era meio distraída e deixava passar letras de Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano Veloso e demais engajados, que mesmo musicalmente denunciavam que o país havia sido gravemente ferido. Inclusive, e muito principalmente, um hino lançado pela União Nacional dos Estudantes que dizia assim: “O Brasil é uma terra de amores alcatifada de flores (...) porém subdesenvolvido.”
Lembro como se fosse hoje o Honorinho, codinome Poly, tocando e cantado bossas novas e velhas para o canto e encanto de nós todos. Éramos felizes... e sabíamos!
*O autor é médico psiquiatra, psicanalista e jornalista