Há boas razões para acompanhar os acontecimentos na África do Sul. Trata-se de um parceiro diplomático de primeira linha, membro do Brics, aliado em estratégicas negociações na ONU e vizinho de Moçambique e Angola, países com que temos afinidades e interesses relevantes. Além disso, a recente renúncia do presidente Jacob Zuma e sua substituição por Cyril Ramaphosa cria em Pretória uma situação política com semelhanças à de Brasília.
A mais notória é a excitação dos profetas do caos, que derramam denúncias de que o projeto sul-africano pós-apartheid desmoronou. Com os escândalos administrativos, a corrupção disseminada e a debilitação institucional, o modelo capitalista com inclusão social e estabilidade democrática teria ido para o brejo. A África do Sul estaria na trilha decadente do Zimbábue, no entender dos críticos que, cumpre dizer, nunca acreditaram que o país daria certo.
Jacob Zuma sucedeu Thabo Mbeki, um bom governante que cometeu o erro de, exausto das batalhas partidárias, centralizar num núcleo de palacianos o processo decisório. Interessava-se mais pelas questões mundiais, como se fosse o líder da África, e não o administrador nacional.
Era um intelectual, Zuma o contrário. Adorava tapinhas nas costas, manobras espertas e um discurso impreciso nos objetivos e na sintaxe, embora adequado ao seu público. Em seus nove anos no poder, multiplicaram-se escândalos envolvendo extorsão, evasão fiscal, lavagem de dinheiro e, sobretudo, um multimilionário esquema de vendas de armamentos militares, arquitetado por um de seus conselheiros financeiros.
Ramaphosa foi líder sindical e porta-voz do grupo de Mandela na luta contra o apartheid. Por isso mesmo, era o preferido para a sucessão. Fiel aos seus princípios democráticos, Mandela deixou que o partido CAN arbitrasse a disputa, de que Mbeki emergiu vencedor. Ramaphosa dedicou-se, então, aos seus múltiplos e bem-sucedidos negócios. Hoje, sua fortuna pessoal é calculada em mais de um bilhão de dólares e a familiar vai além, pois é casado com a irmã de Patrice Motsepe, o homem mais rico da África do Sul.
Há muitas vozes na África do Sul desconfiando de tanta riqueza e prevendo catástrofes. Mas lá, como aqui, há também quem avalie que a democracia funciona melhor quando expele lideranças incompetentes que não respeitam a lei e utilizam o poder em benefício pessoal. Lá como aqui, os opositores decerto vão continuar fazendo barulho e armando arapucas. Não há garantia de que lá dê certo, motivo adicional para ficarmos de olho e aprender ou, pelo menos, cometer erros diferentes.
*O autor é embaixador