Leonardo Quarto*
É comum ao lermos uma letra de música nos pegarmos cantarolando. “Jurei mentiras e sigo sozinho. Assumo os pecados. Os ventos do Norte não movem moinhos. E o que me resta é só um gemido. Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos.” Mais do que cantarolar a música que estourou no país com Secos & Molhados, me peguei refletindo sobre algo pouco difundido entre nós, brasileiros: somos latinos.
E como latinos é impossível se manter inerte ao abraço de crianças desesperadas com a separação forçada dos pais promovida pela política de imigração dos Estados Unidos que chocou o Mundo nas últimas semanas. A vida em sociedade fez o ser humano prosperar, vencer adversidades naturais e biológicas, tornando-nos dominantes da vida na terra.
Mas o ódio, a ganância e as políticas extremadas colocam tudo a perder. O radicalismo é grave e joga por terra, em pouquíssimo tempo, anos de evolução e entendimentos que podem tornar a vida mais próspera e harmoniosa, criando conflitos cada vez maiores com danos irreparáveis. Afinal, como consolar uma criança que, à força, é tirada do seio da família?
O cenário é desolador, mas há esperança. Como entoou a também latina Nara Leão: “Faz escuro, mas eu canto porque amanhã vai chegar. Vem ver comigo companheiro, vai ser lindo, a cor do mundo mudar”. E um dos pintores desse novo mundo é Davidson, americano, filho de brasileiros que trabalhava em um dos abrigos do Estado do Arizona.
Ao ser obrigado a separar três irmãos também brasileiros dos pais, um de 16 e os outros de 10 e 8 anos, Davidson respondeu da seguinte maneira: “Como ser humano, não posso fazer isso”, disse ainda à BBC que cumprir a ordem de sua superior era ir contra os padrões globais de humanidade. Ele perdeu o emprego, mas ajudou a manter unidos os irmãos que choravam copiosamente, afinal, seu sangue também é latino.
Os golpes à humanidade, à democracia e à justiça social se intensificam nos últimos anos em todo o mundo com eleições marcadas por xenofobia e protecionismo. Mas como disse Milton Nascimento em “Caçador de Mim”: “Nada a perder, senão o correr da luta, nada a fazer senão esquecer o medo”.
*O autor é jornalista