No processo eleitoral, há uma relação praticamente de dependência entre a campanha e a promessa do candidato. Uma não existe sem a outra. Foram feitas para viverem unidas (o que não quer dizer felizes) para sempre! O problema é que esse matrimônio não diz respeito somente ao político e à história que ele defende e jura que vai fazer acontecer. O eleitor é a parte mais interessada deste casamento e está cansado de ser traído!
Por isso, acompanhar de perto esta reta final da eleição – quando as promessas se reforçam na tentativa de não deixar escapulir os eleitores declarados, conquistar os indecisos e até atrair quem optou pelos adversários – é essencial para qualificar o voto nas urnas. Ontem, o eleitor teve a oportunidade de acompanhar o último debate entre os candidatos ao governo do Espírito Santo, que foi promovido pela Rede Gazeta.
Como não poderia ser diferente, as promessas estiveram o tempo todo presentes no altar eleitoral. E aqui vou destacar algumas da área econômica que foram apresentadas durante o embate que contou com a participação dos seis postulantes ao Palácio Anchieta: André Moreira (PSOL), Aridelmo Teixeira (PTB), Carlos Manato (PSL), Jackeline Rocha (PT), Renato Casagrande (PSB) e Rose de Freitas (Podemos).
Um dos compromissos firmados pelo candidato que está à frente nas pesquisas eleitorais, Renato Casagrande, envolve um tema bem polêmico aqui no Estado: a política de renúncia fiscal a empresas. Após o socialista ser questionado por André Moreira se ele se comprometeria a dar mais transparência a esse processo, o ex-governador garantiu que sim.
O oponente, em sua indagação, criticou o fato de o artigo 145 da Constituição Estadual – que obrigava o governo capixaba e as prefeituras a publicarem no Diário Oficial informações sobre os beneficiários das isenções fiscais – ter sido revogado pela Assembleia Legislativa, em 2015. A PEC, patrocinada pelo Palácio Anchieta, foi protocolada na época pelo então líder do governo na Assembleia, Gildevan Fernandes (hoje no PTB).
Casagrande não perdeu tempo para dizer que estava disposto a mudar essa legislação e aproveitou para alfinetar seu grande desafeto político, o governador Paulo Hartung. “Com relação à transparência, nós assumimos o governo de 2011 a 2014 e entregamos o Estado mais transparente do Brasil, segundo a ONG Contas Abertas. Isso foi uma conquista, e tudo que estiver ao alcance do governo para que eu possa retomar e recuperar, eu farei. Neste caso aí, eu farei para a gente poder dar transparência a informações a todos os capixabas.”
Logo após o debate, Casagrande foi novamente questionado sobre o tema e confirmou para A GAZETA que quer de volta a regra que vigorou até 2015, ou seja, garantiu que os relatórios sobre as isenções vão voltar a ser divulgados a cada seis meses. “Comigo no governo, vamos fazer valer a legislação antiga.”
A palavra de Casagrande neste momento é sobre tornar pública uma informação que é de interesse da sociedade. Políticas de benefícios fiscais muitas vezes são importantes para atrair mais negócios e distribuir o desenvolvimento. Mas guardar a sete chaves esse tipo de conteúdo pode despertar sensações de que o cidadão está sendo enganado.
Assim, fica na listinha de cobranças esse compromisso, que depende muito mais de vontade política do que de outros fatores, como ter o tão escasso recurso. Outras promessas do candidato pelo PSB, entretanto, trazem incertezas se chegarão a ser concretizadas, justamente pelo motivo que citei anteriormente: dinheiro.
Em alguns momentos, Casagrande deixa dúvidas se será um governador gastão ou comprometido com o equilíbrio fiscal. Digo isso porque ao mesmo tempo em que em seu programa de governo ele adota um discurso de austeridade e, durante o debate, frisou que vai fazer “uma gestão muito responsável de recursos próprios”, o socialista promete um robusto plano de investimentos em infraestrutura, que inclui reativar o aquaviário, retomar o projeto do BRT e o da Quarta Ponte.
É justamente aí que está incoerência. Afinal todos esses projetos citados por ele exigem generosas cifras para serem realizados. E detalhe: nenhum deles está incluído no orçamento de 2019, elaborado pelo atual governo. Como melhorar a mobilidade, gerar empregos a partir das grandes obras com infraestrutura sem comprometer o caixa do governo é a fórmula que o candidato ainda não conseguiu esclarecer a fundo.
Aliás, o próprio Casagrande reconhece o desafio que ainda há pela frente por conta da crise ao destacar que o Espírito Santo depende do desempenho da economia brasileira. “Não vivemos em uma ilha como Estado. É preciso que a economia nacional volte a crescer.” A fala do socialista demonstra que ele não está alheio ao fragilizado quadro econômico. Mas serão suas ações, caso ele venha a ser eleito, que vão revelar qual das promessas ele decidiu priorizar.
NO RADAR
No debate de ontem, a discussão de temas ligados à economia se fizeram mais presentes do que em outras ocasiões. Das seis perguntas de cada bloco, duas foram ligadas a questões econômicas. Embora muitas vezes a área seja complexa e aborde temas não muito amigáveis, como endividamento, é essencial que esteja na pauta para orientar o planejamento orçamentário e fazer chegar recursos a setores sensíveis, como saúde e educação.
ESTÍMULO AO EMPREGO
O desemprego, que atinge quase 260 mil pessoas no Estado e cerca de 13 milhões no país, foi um tema bastante presente no debate. Três candidatos – Rose de Freitas, Jackeline Rocha e Renato Casagrande – abordaram o drama do mercado de trabalho. Investir na formação profissional e criar um bom ambiente de negócios, tanto para pequenas quanto grandes empresas, foram ações defendidas para estimular o emprego.