Publicado em 17 de fevereiro de 2026 às 06:13
Nossa entrevista com Julie Inman Grant ainda nem começou. Na verdade, ela ainda nem entrou na sala.>
Mas a conversa já trata da enxurrada de ameaças de morte e violação recebidas semanalmente pelo seu escritório.>
O cargo de diretora da Comissão de Segurança Eletrônica da Austrália a coloca na primeira linha das batalhas na internet: notícias falsas, censuras, trollagem e segurança infantil.>
O mundo digital pode ser um "poço sombrio", como admite um dos seus colegas. Ele destaca que a grande maioria dos abusos lançados ao escritório são dirigidos pessoalmente a Inman Grant.>
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"Infelizmente, tenho vivido esta realidade nos últimos anos", lamenta ela minutos depois, no seu escritório com vista para o porto australiano de Sydney.>
Com 57 anos de idade, Inman Grant trabalhou por décadas em empresas privadas do setor de tecnologia. Agora, ela está do outro lado, chamando à responsabilidade algumas das empresas mais bem sucedidas do mundo, como diretora do organismo regulador independente de segurança na internet da Austrália.>
Poderíamos dizer que o cargo a transformou na burocrata mais famosa do país. Mas ela também se tornou um alvo fácil.>
Seus dados já foram expostos por grupos neonazistas. Ela também teve enfrentamentos públicos com Elon Musk e chegou a provocar a ira de alguns congressistas americanos.>
Tudo isso ocorreu quando ela foi encarregada de implementar a pioneira proibição das redes sociais para adolescentes no país. Ou, em outras palavras, de expulsar todos os australianos com menos de 16 anos das redes sociais.>
O trabalho de Inman Grant sempre foi de alta importância. Mas, agora, seu significado cresceu mais do que nunca, já que o mundo inteiro está observando o desenvolvimento do experimento australiano nas redes sociais.>
A legislação entrou em vigor no dia 10 de dezembro e regulamenta 10 plataformas. Entre elas, o Facebook e o Instagram, da Meta, além do Snapchat e do YouTube.>
Os pais australianos aprovam majoritariamente esta política. Para muitos deles, contar com o apoio do governo é de grande ajuda para enfrentar a pressão dos seus pré-adolescentes que desejam ter acesso às redes sociais.>
Mas também há muitas críticas. Especialistas em tecnologia e defensores do bem-estar infantil expressaram sua preocupação. Eles afirmam que as crianças precisam ser educadas, não excluídas das plataformas.>
Muitos questionam a aplicabilidade da proibição. Para eles, a legislação exclui injustamente grupos minoritários, como as crianças das zonas rurais e adolescentes com incapacidades ou que se identificam como LGBTQIA+. Todos eles têm mais possibilidade de encontrar suas comunidades na internet.>
Como era de se esperar, nenhuma das empresas se mostra muito favorável.>
De forma geral, elas afirmaram compartilhar a preocupação do governo sobre a segurança na internet e garantem que irão cumprir a lei, mas não acreditam que a "proibição" seja a solução.>
Inman Grant defende que vale a pena tentar qualquer medida que ajude a proteger as crianças online.>
"Se pudermos retardar a entrada das crianças nas redes sociais por três anos e complementar a medida com planos de ação digitais para desenvolver seu raciocínio crítico e resiliência, acredito que seja algo que valha a pena explorar", afirma ela.>
Inman Grant costuma comparar o mundo digital com o mar aberto, talvez em uma tática inteligente para atrair os australianos, orgulhosos da sua relação com o oceano e suas belas praias.>
"Da mesma forma que ocorre com a segurança na água, precisamos continuar ensinando nossos filhos a nadar até que sejam bons nadadores", defende ela.>
"Precisamos educá-los sobre os riscos, como as fraudes algorítmicas. Precisamos educá-los sobre os predadores na água. São os tubarões online, os pedófilos e outros criminosos.">
Mas ela também já usou a mesma analogia do mar para combater a proibição no passado.>
"Nós não cercamos o oceano, nem mantemos as crianças totalmente fora da água. Nós criamos entornos de natação protegidos, que oferecem proteção e ensinam lições importantes desde cedo", declarou ela em junho de 2024, quando o governo ainda avaliava a proibição.>
"De fato, precisei aceitar isso", admite ela, hoje.>
Depois de pressionar pela liberdade na sua implementação, ela se convenceu e seu papel tem sido fundamental para determinar quais empresas serão incluídas e como elas devem cumprir a legislação.>
Ela brinca dizendo que sua própria casa, que compartilha com três filhos (incluindo dois irmãos gêmeos de 13 anos), se transformou em um "laboratório".>
"Tenho uma filha que não se queixou muito da ideia, mas outra pensou que o mundo fosse desabar em cima dela se retirassem seu Instagram e seu Snapchat", ela conta.>
Mas Inman Grant não desanima.>
"Elas estão em processo de descobrir quem são, de construir sua identidade. Quando eu era adolescente, conseguia cometer erros sem que eles fossem gravados nem amplificados por toda parte.">
Inman Grant passou seus anos de formação no mundo tecnológico. Ela cresceu em Seattle, nos Estados Unidos, berço da Microsoft e da Amazon.>
Por isso, não surpreende que ela se dedique a esta linha de trabalho, depois de flertar brevemente com a ideia de trabalhar para a CIA, a agência de inteligência americana.>
Ela aceitou um emprego no Capitólio, assessorando um congressista americano sobre tecnologia e telecomunicações. Posteriormente, ela concluiu um mestrado em comunicação internacional e passou a trabalhar na Microsoft.>
O seu cargo na empresa a levou para a Austrália no início dos anos 2000, exatamente quando começava a florescer o mundo das redes sociais. Ali, ela conheceu seu marido e se naturalizou australiana.>
Como parte do seu trabalho na Microsoft, Inman Grant procurava vulnerabilidades e falhas de segurança. E, depois de 17 anos, ela entrou para a divisão australiana do Twitter (hoje, X) e, depois, trabalhou brevemente na Adobe.>
Enquanto essas empresas de tecnologia prosperavam, graças à proliferação de smartphones e aplicativos, ela sentia que havia um problema oculto.>
Ela sentia que a segurança não era prioridade. Era uma época sem órgãos reguladores governamentais.>
"Por isso, tentei mudar as coisas por dentro", ela conta. E, depois de mais de duas décadas, Inman Grant decidiu verificar se a mudança poderia ocorrer a partir do lado de fora.>
Quando surgiu o cargo de Comissário de Segurança Eletrônica, ela explica timidamente que havia um pequeno grupo de candidatos para escolher.>
O homem que ajudou a redigir o projeto de lei, Malcolm Turnbull, chegou ao cargo de primeiro-ministro (2015-2018). Ele queria, segundo ela, um comissário com experiência em segurança online, mas também no próprio setor de tecnologia. E a contratou.>
"O governo acreditava que o órgão regulador só poderia ser eficaz se você conhecesse as pessoas, conhecesse os mecanismos, soubesse como eles pensavam e se fosse possível antecipar seus movimentos", explica ela.>
"É preciso entender que tudo isso depende da receita, do crescimento e de quem detém o poder nas empresas.">
Desde então, políticos de todas as tendências defenderam o cargo, o que muitos consideram testemunho da gestão de Inman Grant.>
E, especialmente em um período em que o organismo de controle da segurança na internet passou a sofrer escrutínio cada vez maior, seu orçamento quadruplicou e sua competência e o número de funcionários se expandiram exponencialmente.>
"Francamente, é uma gestão extraordinária em um campo de rápidas mudanças e bastante implacável para um órgão regulador", destaca o predecessor de Inman Grant, Alastair MacGibbon, sobre o trabalho da atual comissária.>
"O escritório simplesmente se torna mais relevante a cada dia", defende ele.>
O ex-ministro das Comunicações da Austrália, Paul Fletcher, ajudou a nomear Inman Grant e colaborou estreitamente com ela por vários anos. Ele afirma que ela assumiu esta função complexa com vigor e valentia.>
"Em uma nação ocidental moderna, as pessoas têm a certeza de que, se você for assaltado, atacado ou se outro fato ruim ocorrer no mundo físico, você pode obter reparações", declarou ele à BBC.>
"O Estado de direito deve se aplicar tanto à vida digital quanto à vida real e o Comissariado de Segurança Eletrônica é uma clara amostra disso.">
A Austrália é considerada líder mundial em segurança na internet. Mas algumas empresas de tecnologia, com sede em outras partes do mundo, acusam o país, há muito tempo, de extrapolar os seus limites.>
"Estamos regulamentando as grandes empresas de tecnologia, em relação à segurança online, há 10 anos", expõe Inman Grant. "E, nos primeiros sete, fomos os únicos.">
Atualmente, Inman Grant enfrenta um pedido do Congresso dos Estados Unidos para testemunhar sobre as leis australianas de proibição das redes sociais.>
O presidente republicano do Comitê Judiciário da Câmara dos Representantes (a câmara baixa do Congresso americano), Jim Jordan, se referiu a ela como uma "conhecida fanática dos desmantelamentos globais", que "ameaça a liberdade de expressão dos cidadãos americanos".>
Jordan chegou a ameaçá-la com acusações de desacato, caso se negue a testemunhar.>
Inman Grant afirma que não é responsável por defender a política e, na verdade, só pode falar sobre a sua implementação.>
"Nada do que fazemos aqui afeta a capacidade das empresas americanas de mostrar o conteúdo que desejarem aos americanos", explica ela.>
Ela também se prepara para contestar pelo menos duas impugnações relativas à proibição, frente ao Supremo Tribunal australiano. Uma delas foi apresentada pelo fórum online Reddit e a outra, por dois adolescentes australianos.>
Paralelamente, ela processa judicialmente as empresas que infringiram as diversas leis de segurança na internet do país.>
Mas esta não é sua primeira experiência deste tipo.>
Em 2024, quando um bispo foi esfaqueado em Sydney durante uma missa, Inman Grant pediu ao X que eliminasse o vídeo. Mas o dono da plataforma, Elon Musk, se recusou a fazê-lo.>
Musk a chamou de "comissária da censura" frente aos seus milhões de seguidores e os abusos dirigidos a ela atingiram um nível totalmente inédito.>
Um relatório da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, revelou que Julie Inman Grant foi alvo de dezenas de milhares de publicações abusivas, incluindo ameaças de morte e estupro.>
Somente no dia 23 de abril de 2024, o relatório contabilizou 73.694 menções do nome de Inman Grant ou do Comissariado de Segurança Eletrônica no X. Até aquela data, a média diária era de apenas 145.>
Por fim, o vídeo foi bloqueado geograficamente na Austrália, mas continuou disponível em todo o mundo. O organismo australiano de controle da internet levou o X à Justiça, mas o caso acabou sendo rejeitado.>
Inman Grant conta à BBC que há uma moral nesta história.>
A polícia britânica afirma que Axel Rudakubana viu o mesmo vídeo pouco antes de esfaquear e matar três crianças em uma aula de dança inspirada em Taylor Swift, na cidade inglesa de Southport, naquele mesmo ano.>
Ela defende que este tipo de conteúdo "normaliza, dessensibiliza e, às vezes, radicaliza. Em algum momento, é preciso assumir uma posição.">
Enquanto Inman Grant e seu escritório lutam para conseguir a proibição das redes sociais entre os adolescentes na Austrália, ela se prepara para novas batalhas, agora em relação à inteligência artificial (IA).>
Para ela, o mundo "se incorporou tardiamente" à regulamentação das redes sociais e não pode se permitir fazer o mesmo com a IA.>
"Esta será a próxima ameaça e muito mais preocupante, para ser sincera.">
Talvez ela não fique no cargo por tempo suficiente para observar os frutos da sua luta. Ela já é comissária há quase uma década e seu segundo mandato de cinco anos termina em 2027.>
"Acredito que, provavelmente, será o momento de passar o controle para outra pessoa", segundo ela. "Como disse, este cargo exige muita determinação e resiliência. Foi um privilégio e uma honra para toda a vida.">
Antes que as empresas de tecnologia respirem aliviadas, Inman Grant indica que não se deixará dissuadir da missão da sua carreira: tornar o mundo da tecnologia mais seguro.>
"Talvez isso signifique ajudar outros governos a estabelecer regulamentações de segurança online e ajudar as empresas a integrar a segurança desde o seu projeto", explica ela.>
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