Publicado em 28 de março de 2026 às 12:34
O Vale do Silício está em choque com o impactante veredicto proferido por um júri de Los Angeles na última quarta-feira (25/03).>
As gigantes da tecnologia Meta e YouTube foram consideradas culpadas por projetarem suas plataformas para serem viciantes, prejudicando a saúde mental de uma jovem de 20 anos.>
A autora da ação, que era o foco do caso, foi identificada apenas por seu primeiro nome, Kaley, e após nove dias de deliberação, os jurados concordaram com ela em todas as acusações.>
Alguns no mundo da tecnologia tentaram minimizar o impacto deste caso, enquanto outros temem que seja o início de um acerto de contas público que representa uma ameaça – potencialmente existencial – para as empresas de mídia social dos EUA.>
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Como disse uma fonte interna, que pediu para não ser identificada, à BBC: "Estamos vivendo um momento decisivo".>
O veredicto obrigou os funcionários das empresas a lidarem com o fato de que muitos não veem a gigante de tecnologia com a mesma simpatia que eles próprios cultivaram. >
Essa constatação tem sido difícil para empresas que, há uma década, eram consideradas essenciais para conectar e entreter pessoas, e até mesmo para ajudar a disseminar a democracia pelo mundo.>
A Meta e o Google, proprietário do YouTube, afirmaram que irão recorrer da decisão do júri, que incluiu US$ 3 milhões (R$ 15,7 milhões) em indenização e mais US$ 3 milhões em danos morais, com o objetivo de punir as empresas.>
Dentro da Meta, o veredicto é visto como uma decepção. Antes do julgamento, a empresa estava confiante na força de sua posição.>
Seu argumento envolvia descrever as dificuldades de Kaley com sua família e os desafios na escola, que, segundo eles, precederam o uso do Instagram da Meta, que começou aos nove anos de idade.>
Kaley alegou que as plataformas amplificaram seus problemas pessoais e a deixaram com dismorfia corporal, depressão e pensamentos suicidas. >
"Foi uma vitória completa em relação à responsabilidade tanto do Google quanto da Meta", disse a advogada do caso, Jayne Conroy, à BBC após o veredicto. "Isso fará diferença.">
"Aposto que há muitos cálculos sendo feitos nas salas de reuniões da Meta, Google, Snap e TikTok enquanto avaliam o que isso significa, sabendo que milhares de processos estão a caminho", acrescentou.>
O TikTok e a Snap Inc., empresa controladora do Snapchat, eram réus no caso, mas fizeram um acordo antes do início do julgamento.>
Mas eles ainda não estão livres de responsabilidade, pois serão réus em vários julgamentos importantes que estão por vir.>
Esses casos continuarão a testar uma nova teoria jurídica de que as empresas de mídia social causaram danos pessoais ao projetar seus produtos para serem viciantes na busca pelo lucro.>
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Por enquanto, a Meta não deu qualquer indicação de que mudará sua postura ou que estará mais propensa a fazer acordos em casos futuros.>
"Continuaremos a nos defender vigorosamente, pois cada caso é diferente, e permanecemos confiantes em nosso histórico de proteção de adolescentes online", disse a empresa na quarta-feira.>
Um porta-voz da Meta disse à BBC que reduzir algo tão complexo quanto a saúde mental dos adolescentes a uma única causa corre o risco de deixar sem solução as muitas questões mais amplas que os adolescentes enfrentam hoje.>
"Muitos adolescentes dependem de comunidades digitais para se conectar e encontrar um senso de pertencimento", disse a Meta.>
Um porta-voz do Google disse à BBC que sua plataforma de vídeos, o YouTube, foi mal interpretada no processo judicial.>
O YouTube é "uma plataforma de streaming construída de forma responsável, não um site de mídia social", disse a empresa.>
É evidente que essas empresas não aceitarão a decisão passivamente.>
O ex-executivo do Twitter, Bruce Daisley, disse que a maioria das grandes empresas de tecnologia deriva seu valor de um crescimento mais rápido do que o restante do mercado de ações. Ao longo de 20 anos, isso significa que "na prática, você tem um negócio voltado para tentar forçar as pessoas a passarem cada vez mais tempo [em seus aplicativos]".>
Qualquer tipo de regulamentação - ou, neste caso, processo judicial - que coloque isso em risco se torna um problema que precisa ser resolvido.>
"As empresas de tecnologia gastam mais com lobby e relações públicas do que qualquer outro setor no mundo", disse Daisley ao programa World Business Express da BBC.>
"Elas estão muito empenhadas em vencer a batalha da influência sutil para tentar persuadir os políticos a serem mais lenientes com elas.">
Ao apresentar seu pedido de indenização punitiva, o advogado de Kaley, Mark Lanier — um advogado texano de personalidade simples — mostrou ao júri um pote de M&Ms.>
Cada M&M representava US$ 1 bilhão do valor da empresa, disse ele, numa tentativa de ilustrar a magnitude da riqueza da companhia.>
Atualmente, a capitalização de mercado da Meta gira em torno de US$ 1,4 trilhão, ou 1.400 M&Ms.>
"Eu imaginava que provavelmente conseguiríamos um valor maior", disse Lanier a repórteres do lado de fora do tribunal após o anúncio da indenização de US$ 6 milhões.>
Mas o simples fato de o júri ter concordado com os argumentos de Lanier já é uma vitória considerável para os advogados de danos pessoais envolvidos no caso.>
Eles acreditam que o resultado é um bom presságio para os oito julgamentos-piloto que ocorrerão nos próximos meses.>
A Meta também está sofrendo as consequências de um veredicto separado de US$ 375 milhões (R$ 1,97 bilhão), proferido na terça-feira (24/03).>
Os promotores do Novo México convenceram um júri de que a empresa permitiu a exploração infantil em suas plataformas.>
Após o veredicto, o porta-voz da Meta, Andy Stone, publicou nas redes sociais que a penalidade do Novo México era "apenas uma fração do que o Estado buscava".>
Os promotores estaduais haviam pedido mais de US$ 2 bilhões.>
Além do valor da indenização em Los Angeles, os defensores da Meta observaram o fato de que a decisão do júri não foi unânime e que as deliberações se arrastaram por quase duas semanas.>
"Não vamos tirar grandes conclusões", disse um observador.>
"Faz sentido minimizar a exposição financeira geral para que os investidores não abandonem a empresa", disse Eric Goldman, professor e vice-reitor da Faculdade de Direito da Universidade de Santa Clara, no Vale do Silício, à BBC.>
"Não acho que nenhum dos serviços de mídia social possa arcar com US$ 6 milhões por usuário prejudicado", acrescentou, afirmando que vê os casos de vício em mídias sociais como uma ameaça potencialmente existencial.>
Mas, segundo Goldman, não há garantia de que os veredictos do júri da semana passada serão mantidos em apelação.>
À medida que as empresas enfrentam uma enxurrada de ações judiciais por responsabilidade civil, as provas e os depoimentos apresentados no caso de Kaley podem ser relembrados em julgamentos futuros.>
Todas as partes terão a oportunidade de aprimorar seus argumentos jurídicos à medida que os casos movidos por indivíduos, distritos escolares e estados tramitam nos tribunais.>
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