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Regina Casé volta ao teatro e revê carreira na TV: 'Como atriz, sou celebrada; como apresentadora, tenho haters'

Atriz volta ao teatro com a peça 'Viva! Vida!', que estreia em São Paulo', e alimenta o sonho de contracenar com a filha, Benedita Casé, que é surda.

Publicado em 10 de Julho de 2026 às 05:35

BBC News Brasil

Publicado em 

10 jul 2026 às 05:35
Imagem BBC Brasil
Regina Casé em cena do monólogo Crédito: Renato Mangolin/Divulgação
É uma biografia da Terra, a peça que Regina Casé preparou para o seu retorno aos palcos após um hiato de sete anos. Viva! Vida!, que estreou na quinta-feira (9/7) em São Paulo, vai da formação do planeta até os algoritmos que regem as redes sociais.
Guiada por um roteiro marcado pela improvisação e por uma performance que vai do choro ao riso, não necessariamente nesta ordem, a atriz não tem medo de abraçar o mundo — e todo mundo —, seja durante o espetáculo, ao descer do palco para conversar com a plateia, que pode até usar o celular, seja ao fim da apresentação, na hora de tirar fotos com os fãs.
"Eu deixo tudo. Só peço para não usar flash, porque as outras pessoas reclamam, mas nem isso me incomoda. O que a gente precisa é estar conectado, em comunhão. Tem vários tipos de peça, eu respeito, não acho errado quem proíbe [celular], mas não tenho a necessidade de ter o palco como um altar. Eu sou da rua, da encruzilhada, da bagunça, da muvuca, da multidão, sabe?", diz ela à BBC News Brasil, por videochamada, em uma brecha dos ensaios.
Quebrar a barreira entre o palco e a plateia, o sofá e a TV, é algo que Casé sempre fez. Desde o teatro anárquico que a formou como atriz nos anos 1970, no extinto grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, quando instigava o público até a interpretar o cenário de seus espetáculos. Até sua trajetória como apresentadora de programas como Brasil Legal, Muvuca, Central da Periferia e Esquenta!.
Mas nem sempre foi aplaudida por isso. Esquenta!, diz a atriz, foi alvo de críticas por dar protagonismo a pessoas, artistas e manifestações culturais marginalizadas. "Essas pessoas estavam fora da TV. Elas furaram a bolha da invisibilidade. É natural que tenha havido uma onda de preconceito. Tem períodos mais difíceis, outros melhoram um pouquinho, e a gente vai lidando com isso", afirma.
Imagem BBC Brasil
Em Crédito: Renato Mangolin/Divulgação
Aos 72 anos, ao rever sua carreira de mais de cinco décadas, Casé diz que nunca quis ser apresentadora, mas esta foi a maneira que encontrou de dar visibilidade ao que lhe parecia urgente. "Eu não ia conseguir produzir uma dramaturgia capaz de criar uma reflexão sobre isso a médio e longo prazo. Queria fazer logo, e aí a apresentadora veio com tudo", lembra.
"Mas, em termos de reconhecimento, ser atriz é muito mais fácil", ela acrescenta. "Eu sou muito menos questionada como atriz. Modéstia à parte, todo mundo fala que sou uma boa atriz, então eu ganho um monte de prêmios, o mundo me acaricia, todo mundo me trata bem. Como atriz, sou celebrada; como apresentadora, tenho haters."
Em Viva! Vida!, porém, é como se essas fronteiras se dissolvessem. No palco, Casé reúne não só essas duas facetas, mas muitas outras. "Eu não interpreto uma única personagem", explica. "Eu sou eu mesma, sou uma professora que pergunta se estão gostando da tia, sou uma astronauta, uma indígena meio pajé, sou uma iaô do Candomblé, sou uma cientista. Sou tudo isso e ainda me confundo com a plateia."

A biografia da Terra de Regina Casé

A ideia de Viva! Vida! nasceu de um documentário sobre desertificação que seu marido, Estevão Ciavatta, produzia.
Ao ouvir as conversas do cineasta com cientistas, Casé se fascinou por um punhado de curiosidades sobre a Terra — como o fato de o planeta ter sido quase um deserto durante 4 bilhões de seus 4,5 bilhões de anos; ou de o corpo humano abrigar cerca de 30 trilhões de células e mais do que isso de bactérias.
Mas ela garante que, por mais árido que o tema possa parecer, o espetáculo está longe de ser uma aula de biologia. A partir de "uma mistura de informações científicas com poesia, mitologia, cosmologias indígenas e africanas", somada a um figurino e a um cenário que, em determinados momentos, fazem dela própria elementos da natureza.
"Como eu falo tudo de forma muito coloquial e também tem muita fala de improviso, parece que aquilo tudo não tem um roteiro. Mas pelo contrário. É muito difícil criar uma dramaturgia assim", ela afirma, entregando os louros ao marido, que escreveu o roteiro, e à diretora Daniela Thomas, nome central do teatro e do cinema brasileiro, que tem entre trabalhos recentes a produção do filme Ainda Estou Aqui, que deu ao Brasil seu primeiro Oscar.
Imagem BBC Brasil
Regina Casé em cena do monólogo Crédito: Renato Mangolin/Divulgação
Viva! Vida! fica em cartaz até 2 de agosto, com sessões de quinta a sábado, às 20h, e aos domingos, às 17h, no Teatro Sérgio Cardoso, no centro de São Paulo. Depois, Casé seguirá em turnê por outras capitais, como Brasília e Belo Horizonte.
O espetáculo deve manter a atriz ocupada por algum tempo, mas ela já pensa nos próximos projetos. Conta que tem dois contratos assinados para a TV, dos quais não pode falar por causa de cláusulas de confidencialidade, e alimenta o sonho de contracenar com a filha, Benedita Casé.
Benedita estreou recentemente como atriz, aos 37 anos. Seus primeiros trabalhos foram o filme 90 Decibéis, com lançamento previsto para os próximos meses no Globoplay, e o monólogo Surda, inspirado em sua experiência com a deficiência auditiva. Após uma temporada no Rio de Janeiro, o espetáculo se prepara para chegar a São Paulo.
"Quem são as pessoas com deficiência que vemos nas novelas ou apresentando um programa? A gente não sabe, porque não tem nenhum contato com essa bolha — que na verdade não quer ser bolha, mas é colocada nessa posição", diz Casé. "Muita coisa foi conquistada, eu tenho alegria de ver o elenco negro da Globo na dramaturgia, por exemplo, mas tem outros espaços que precisam ser abertos."

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