Publicado em 10 de abril de 2025 às 13:39
No top 10 de séries mais vistas da história da Netflix, Adolescência virou um fenômeno global ao retratar a história de um menino de 13 anos acusado de matar uma colega de escola.>
O enredo provocou debates nas redes sociais e mobilizou reportagens. Mas não surpreendeu a juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro.>
"A série não mexeu tanto comigo porque trata de algo que vejo e falo há anos", afirma.>
Desde o lançamento da produção, em 13 de março, o telefone de Cavalieri não para de tocar, com pedidos de entrevistas e palestras sobre o tema. >
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Para ela, a produção se tornou um sucesso de audiência e impactou o público por expor uma realidade que muitos desconhecem ou ignoram: os riscos a que adolescentes estão expostos na internet.>
"Muitas famílias acham que, se o filho está em casa, mexendo no celular ou no computador em seu quarto, ele está seguro. Mas isso não é necessariamente verdade.">
A magistrada destaca que a série aproxima o telespectador da história ao apresentar um protagonista comum.>
"Ele vem de uma família trabalhadora, com pais amorosos e cuidadosos, que não foram negligentes de forma significativa. Ele poderia ser colega dos nossos filhos na escola, frequentar o mesmo clube, morar no nosso condomínio. Isso choca, porque nos faz perceber que uma tragédia assim pode estar perto de nós.">
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Há dez anos à frente da Vara da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça do Rio, Cavalieri observa que o perfil dos adolescentes envolvidos em infrações mudou.>
"Antes, eram jovens em situação de alta vulnerabilidade socioeconômica, envolvidos em crimes como tráfico de drogas e roubos. Mas, desde 2019, temos um novo grupo: adolescentes de classe média e alta, alunos de escolas particulares, que praticam crimes digitais e planejam ataques em escolas.">
Mas um padrão se manteve: a maioria é cometida por meninos.>
"Cerca de 90% dos casos registrados na cidade envolvem garotos. Isso vale para qualquer classe social e tanto para crimes digitais quanto presenciais.">
No ambiente digital, ela afirma ter observado um aumento dos crimes de ódio ou cometidos em comunidades de ódio, e a grande maioria dos envolvidos são meninos.>
"Raramente vemos meninas nesses casos, com exceção daquelas que participam de comunidades de automutilação e suicídio, principalmente em plataformas como o Discord", diz.>
"Por outro lado, notamos um aumento da misoginia, homofobia e supremacia branca, incluindo ideologias neonazistas, e, nesses casos, os envolvidos são quase exclusivamente meninos. No Brasil, não houve ataques em escolas praticados por meninas, por exemplo; todos foram planejados ou executados por meninos.">
Ela nota um crescimento no ressentimento de meninos com relação a pautas de gênero — o que podem levá-los a ser atraídos para movimentos como os incels. >
Retratado na série, o termo é uma abreviação de "celibatários involuntários" (do inglês involuntary celibates) e é marcado pelo discurso de ódio contra as mulheres.>
Por isso, diz Cavalieri, o debate sobre masculinidades, de forma equilibrada, é urgente.>
"Hoje, um menino em desenvolvimento, que nem sabe quem é ainda, que está descobrindo sua sexualidade e o lugar do masculino na sociedade, muitas vezes é massacrado com falas de que 'nenhum homem presta', 'todo homem é abusador'. Essa generalização é muito ruim", afirma.>
"Alguns escutam isso de forma muito radical. E esse radicalismo pode acabar levando o pêndulo para o outro extremo. Precisamos encontrar um equilíbrio", adiciona.>
"Precisamos ensinar os meninos sobre relações respeitosas, de afeto. Eles sofrem com exclusão, falta de pertencimento e de afeto. Seria importante ensinar que há um caminho de descoberta da sexualidade com amor, com envolvimento emocional.">
A seguir, a juíza elenca quatro lições que pais e educadores podem tirar da série para se reconectar com a vida online de seus filhos.>
Quando assumiu a vara, Cavalieri percebeu que apenas o conhecimento jurídico não era suficiente para lidar com os casos que surgiam. >
"Queria muito fazer um trabalho efetivo, um trabalho que conseguisse efetivamente ressocializar, educar e recuperar os jovens que seguiram um caminho equivocado", diz. >
"Fui estudar adolescência, com uma abordagem multidisciplinar na neurociência, psicanálise, psicologia e psiquiatria. Queria entender por que esses adolescentes se envolviam em atos infracionais e como evitar a reincidência", conta.>
"Chegou uma hora que comecei a entender como funcionava a cabeça dos adolescentes, o que era o tal do córtex pré-frontal imaturo que tanta gente menciona e o que isso implica. O que essa imaturidade cerebral influencia o comportamento dos adolescentes." >
"Eles parecem adultos, mas ainda estão em desenvolvimento. São impulsivos e têm dificuldade em adiar recompensas. Por isso, precisam da orientação de adultos para tomar boas decisões. Precisamos de letramento em adolescência.">
A juíza afirma que os pais devem estudar e buscar conhecimento sobre essa fase. >
"É importante ter letramento na adolescência, para os pais entenderem o que é natural, o que passa na mente do adolescente e quais são suas necessidades.">
Cavalieri alerta que muitos pais perdem a conexão com os filhos na adolescência. >
"Precisamos ter mais compaixão pelos adolescentes", diz. >
"Com uma criança de dois ou três anos, vemos pais muito pacientes e dispostos a entrar em brincadeiras infantis. Então você brinca de fazer de conta, canta a musiquinha da Dona Aranha o dia inteiro. Só que quando chega na adolescência, não temos paciência com o universo adolescente", diz.>
"Vamos nos afastando porque não conseguimos olhar para eles com compaixão. Precisamos descer do pedestal de adulto e nos equiparar um pouquinho a eles, para poder ter conexão e conversa.">
Ela sugere que os pais se interessem pelo universo dos filhos. >
"Eu vou falar por mim. Por exemplo, eu fui apresentada uns anos atrás pela minha filha mais velha, quando ela tinha 13 anos, a um cantor que eu não conhecia, que é super famoso, o Harry Styles. Me lembro que a primeira música que ela me mostrou, pensei que fosse David Bowie. E entendi que havia ali um ponto de conexão com a minha filha", relata. >
"Talvez eu não saísse da minha casa para ir no show por conta própria, mas fui porque eu queria estar com ela, dividindo essa experiência. Falta isso: nos interessarmos pelo universo deles.">
A dica vale para o ambiente online, diz a magistrada. "Eu e minhas filhas compartilhamos entre nós coisas vídeos no Instagram que achamos que a outra vai gostar. Isso é uma forma da gente criar ali vínculo. ">
Para Cavalieri, é um erro interpretar monitoramento como invasão de privacidade.>
"Em nome a esse suposto respeito à privacidade, adolescentes estão morrendo ou cometendo crimes graves; pessoas estão se suicidando ou sendo vítimas de golpes gravíssimos. Isso porque os pais não supervisionaram o uso da internet", afirma. >
"A internet é um lugar perigoso. Assim como os pais não consideram invasão de privacidade perguntar aonde um adolescente vai ou virem um filho conversando com uma pessoa estranha, temos que o olhar para o ambiente virtual da mesma forma, lembrando que é tão ou mais perigoso do que a rua.">
Ela recomenda o uso de aplicativos de controle parental, como o Custody ou Change, que também usam GPS para localizar o aparelho dos adolescentes em tempo real.>
"Os pais devem ter todas as senhas e logins para emergências", diz. "E o GPS nunca deve ser desabilitado. Isso é fundamental para a segurança dos adolescentes e pode ser decisivo em caso de emergência.">
Além do monitoramento, Cavalieri afirma que é essencial estabelecer limites claros para o tempo de conexão à internet.>
"Depressão, obesidade e outros problemas de saúde estão ligados ao uso excessivo de telas. O ideal é que o celular fique fora do quarto e seja bloqueado na hora de dormir", diz.>
Ela lembra que especialistas, assim como diretrizes do governo, recomendam que crianças não tenham celulares e que adolescentes precisem de regras claras.>
"É preciso definir quais conteúdos são proibidos. Por exemplo, apostas online são restritas a maiores de 18 anos e extremamente viciantes", afirma.>
Segundo a juíza, um dos principais pontos de atenção é o tempo de uso das telas e o horário para desligar os aparelhos. >
"As telas e as redes sociais são altamente viciantes. Estudos mostram que plataformas como Instagram e Facebook ativam no cérebro as mesmas áreas de prazer e recompensa que a cocaína. É esse o nível de impacto que estamos discutindo", alerta.>
O guia preparado pelo governo federal para uso de telas define que crianças menores de dois não não devem usar telas, e, entre 3 e 5 anos, o tempo máximo deve ser de uma hora por dia.>
A Sociedade Brasileira de Pediatria também faz recomendações: crianças menores de três anos não devem usar telas. Entre 3 e 6 anos, o uso deve ser permitido apenas em situações excepcionais. >
"Por exemplo, se a criança estiver doente e precisar fazer nebulização, pode assistir a um desenho para se acalmar", explica.>
Entre 6 e 12 anos, segundo a SBP, o tempo total de exposição às telas deve ser de, no máximo, uma hora por dia. Para adolescentes acima de 12 anos, o ideal é limitar entre duas e três horas diárias. >
"Mas isso inclui todas as telas, não só redes sociais", ressalta Cavalieri. "O ideal seria, no máximo, meia hora por dia de TikTok.">
A juíza alerta que um dos maiores problemas da geração atual é a privação crônica do sono causada pelo uso excessivo de telas.>
"Crianças e adolescentes estão dormindo menos do que o necessário – entre nove e 11 horas por noite. Isso afeta o crescimento, a atenção e o aprendizado. Há crianças diagnosticadas com déficit de atenção sem terem TDAH, quando na verdade sofrem de privação de sono", diz.>
Por isso, Cavalieri recomenda que o celular não fique no quarto e seja bloqueado à noite. "Se a hora de dormir é nove ou dez da noite, o celular, o computador e qualquer outro aparelho precisam ser bloqueados até a manhã seguinte", afirma.>
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