Publicado em 22 de setembro de 2024 às 08:10
Quanto é caro demais para uma xícara de café?>
Preços como 5 libras (R$ 36) em Londres ou 7 dólares (R$ 38) em Nova York por uma xícara de café podem ser impensáveis para alguns — mas podem, em breve, se tornar realidade graças a uma "tempestade perfeita" de fatores econômicos e ambientais nas principais regiões produtoras de café do mundo.>
O custo dos grãos não torrados negociados nos mercados globais está agora em um "nível historicamente alto", diz a analista Judy Ganes.>
Especialistas culpam uma mistura de safras problemáticas, forças de mercado, estoques esgotados — e a fruta mais fedorenta do mundo.>
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Então, como chegamos aqui e quanto isso afetará seu café com leite matinal?>
Em 2021, uma geada anormal destruiu plantações de café no Brasil, o maior produtor mundial de grãos do tipo arábica — aqueles comumente usados por baristas.>
Essa escassez de grãos fez com que os compradores procurassem países como o Vietnã, o principal produtor de grãos robusta, que são normalmente usados em misturas instantâneas.>
Mas os agricultores de lá enfrentaram a pior seca da região em quase uma década.>
As mudanças climáticas têm afetado o desenvolvimento dos pés de café, de acordo com Will Frith, um consultor de café localizado na cidade de Ho Chi Minh, impactando, por sua vez, a produção de grãos.>
E então os agricultores vietnamitas migraram para uma fruta amarela e fedorenta — o durian.>
A fruta — que é proibida no transporte público na Tailândia, Japão, Cingapura e Hong Kong por causa de seu odor — está se mostrando popular na China.>
E os agricultores vietnamitas estão substituindo suas plantações de café por durian para lucrar com esse mercado emergente.>
A participação de mercado do durian do Vietnã no mercado chinês quase dobrou entre 2023 e 2024, e alguns estimam que a safra seja cinco vezes mais lucrativa do que o café.>
À medida que inundavam a China com durian, as exportações de café robusta caíram 50% em junho em comparação com o mesmo período do ano anterior e os estoques estão "quase esgotados", de acordo com a Organização Internacional do Café.>
Exportadores na Colômbia, Etiópia, Peru e Uganda se destacaram, mas não produziram o suficiente para aliviar o aperto do mercado.>
"Bem na época em que as coisas começaram a acelerar para a demanda por robusta é bem quando o mundo está lutando por mais oferta", explica Ganes.>
Isso significa que os grãos robusta e arábica agora estão sendo negociados em altas quase recordes nos mercados de commodities.>
Renato Garcia Ribeiro, responsável pela área de café no Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP, diz que o principal fator que causa a alta de preços mundial não é o plantio de durian, mas o clima.>
“O clima atrapalha bastante desde 2021, quando ocorreram geadas. No ano seguinte, ocorreu bastante chuva e no ano passado teve muito calor. Agora, a chuva já está atrasada e o desenvolvimento da próxima safra está prejudicado”, diz ele.>
Ele afirma que o clima desfavorável causa uma baixa nos estoques mundiais de café pelo terceiro ano consecutivo.>
“No Vietnã, além desse problema de redução de área, 2024 foi um ano quente e seco. Isso deve prejudicar muito a safra deste ano, que começa a ser colhida em outubro. Esse aumento do preço relacionado à crise de oferta pode inclusive causar um recuo no consumo de café”, diz.>
A mudança na economia global do café deve impactar seu preço de maneira significativa? A resposta curta: potencialmente.>
O atacadista Paul Armstrong acredita que os apreciadores de café podem em breve enfrentar a perspectiva "louca" de pagar mais de 5 libras por uma dose de café no Reino Unido.>
"É uma tempestade perfeita no momento.">
Armstrong, que dirige a Carrara Coffee Roasters com sede em East Midlands, importa grãos da América do Sul e da Ásia, que são torrados e enviados para cafés em todo o Reino Unido.>
Ele diz à BBC que recentemente aumentou seus preços, esperando que isso compensasse os preços mais altos que ele paga, mas ele diz que os custos "só se intensificaram" desde então.>
Ele acrescenta que, com alguns de seus estoques terminando nos próximos meses, ele terá que decidir se repassa mais uma vez os custos mais altos para seus clientes.>
Frith diz, no entanto, que alguns segmentos da indústria estarão mais expostos do que outros.>
"É realmente o café em quantidade comercial que sofrerá a maior variação. Café instantâneo, café de supermercado, no posto de gasolina, tudo isso está subindo.">
Os números da indústria alertam que um alto preço de mercado para o café pode não necessariamente se traduzir em preços de varejo mais altos.>
Felipe Barretto Croce, CEO da FAFCoffees no Brasil, concorda que os consumidores estão "sentindo o aperto" com o aumento dos preços.>
Mas ele argumenta que isso se deve "principalmente aos custos inflacionários em geral", como aluguel e mão de obra, em vez do custo dos grãos. A consultoria Allegra Strategies estima que os grãos contribuem com menos de 10% do preço de uma xícara de café.>
"O café ainda é muito barato, como um bem de luxo, se você o fizer em casa.">
Ele também diz que o aumento do custo dos grãos de qualidade inferior significa que o café de alta qualidade pode agora pode ser uma boa opção.>
"Se você for a uma cafeteria especializada em Londres e tomar um café, em vez de um café na Costa Coffee (loja popular), a diferença (no preço) entre aquela xícara e o café especial é muito menor do que costumava ser.">
Mas há esperança de alívio de preços no horizonte.>
A próxima safra de primavera no Brasil, que produz um terço do café do mundo, agora é "crucial", de acordo com Croce.>
"O que todos estão olhando é quando as chuvas retornarão", diz ele.>
"Se retornarem cedo, as plantas devem estar saudáveis o suficiente e a floração deve ser boa.">
Mas se as chuvas chegarem tarde, em outubro, ele acrescenta, as previsões de rendimento para a safra do próximo ano cairão e o estresse do mercado continuará.>
A longo prazo, as mudanças climáticas representam sérios desafios para a indústria global de café.>
Um estudo de 2022 concluiu que, mesmo se reduzirmos drasticamente as emissões de gases de efeito estufa, a área mais adequada para o cultivo de café pode cair 50% até 2050.>
Uma medida para proteger o futuro da indústria, que tem o apoio de Croce, é um "prêmio verde" — um pequeno imposto cobrado sobre o café dado aos fazendeiros para investir em práticas agrícolas regenerativas, que ajudam a proteger e sustentar a viabilidade das terras agrícolas.>
Então, embora frutas com cheiro ruim sejam parcialmente responsáveis pelos aumentos de preços hoje — uma mudança climática pode, em última análise, prejudicar a acessibilidade do café nos próximos anos.>
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