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Por que os comunistas perderam espaço na Índia após governar mais de 100 milhões de pessoas por décadas?

Luta de classes e mobilização coletiva têm dado lugar a políticas de identidade, nacionalismo, líderes populistas e distribuição de benefícios sociais.

Publicado em 31 de Maio de 2026 às 08:32

BBC News Brasil

Publicado em 

31 mai 2026 às 08:32
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Os comunistas foram reduzidos a um único assento na assembleia de 294 membros em Bengala Ocidental Crédito: AFP via Getty Images
Pela primeira vez desde 1957, a Índia não tem mais nenhum governo estadual liderado por comunistas.
A derrota da Frente Democrática de Esquerda (LDF), liderada pelo Partido Comunista da Índia (Marxista), em Kerala, após uma década no poder, marcou o fim de uma das experiências mais duradouras do mundo em comunismo democrático.
No auge, os partidos comunistas da Índia governaram estados que se estendiam de Bengala Ocidental a Kerala e Tripura. Eles impactaram a vida de mais de 100 milhões de pessoas por meio de sindicatos, organizações camponesas, alas estudantis e redes disciplinadas de quadros.
Em Bengala Ocidental, a Frente de Esquerda governou continuamente de 1977 a 2011 — uma das administrações comunistas eleitas mais antigas do mundo. Em Tripura, a esquerda governou por 35 anos ao todo, incluindo um período ininterrupto de 25 anos antes de sua derrota pelo Partido Bharatiya Janata (BJP), do primeiro-ministro Narendra Modi, em 2018.
Kerala seguiu uma trajetória diferente. Desde 1957 — quando o Estado votou em um dos primeiros governos comunistas eleitos do mundo sob o político comunista EMS Namboodiripad —, o poder se alternou entre a esquerda e o Partido do Congresso, tornando os comunistas uma força duradoura, mas nunca permanentemente dominante.
Em 1996, Jyoti Basu, membro fundador do Partido Comunista da Índia (Marxista), ou CPI (M) na sigla em inglês, e depois ministro-chefe de Bengala Ocidental, esteve muito perto de se tornar primeiro-ministro da Índia como chefe de um governo de coalizão. Mas seu partido rejeitou a oferta — uma decisão que Basu mais tarde descreveria como um “erro histórico”.
Os comunistas moldaram a política de coalizão em Nova Déli de forma tão profunda que, em 2008, retiraram o apoio do governo do ex-primeiro ministro Manmohan Singh ao acordo nuclear civil histórico com os EUA. Na época, os partidos de esquerda ocupavam 62 assentos na câmara baixa do parlamento, o suficiente para forçar Singh a um voto de confiança antes de ele finalmente garantir o acordo.
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Kerala elegeu um dos primeiros governos comunistas do mundo em 1957 Crédito: NurPhoto via Getty Images
Seu alcance se estendeu muito além do parlamento. Apesar da estagnação econômica em Bengala Ocidental e das preocupações com o declínio dos padrões educacionais sob o domínio da esquerda, os comunistas continuaram exercendo uma influência enorme sobre o pensamento econômico e a vida intelectual e cultural, muito além de suas bases eleitorais.
Muitos acreditam que a maior parte dessa influência já desapareceu.
A esquerda hoje sobrevive de forma desigual. Em Kerala, apesar de seu mais recente revés, a esquerda continua politicamente relevante. Em Tamil Nadu, ela sobrevive em grande parte por meio de alianças. Em Bihar, o Partido Comunista da Índia (Marxista-Leninista) emergiu como uma força popular ativa em alguns bolsões. Grupos estudantis apoiados pela esquerda continuam se saindo bem nas principais universidades.
Mas em Bengala Ocidental e Tripura — que já foram os grandes bastiões do poder de esquerda — os comunistas foram reduzidos a uma sombra do que eram antes. Nacionalmente, a participação do CPI (M) no voto popular caiu de mais de 6% em seu pico na década de 1980 para menos de 2% nas últimas eleições gerais.
O declínio reflete o desaparecimento de uma linguagem política mais antiga: a luta de classes e a mobilização coletiva têm constantemente dado lugar a políticas de identidade, nacionalismo, líderes populistas e distribuição de benefícios sociais.
Mohammed Salim, secretário do CPI (M) em Bengala Ocidental, vê uma corrente histórica mais ampla em ação. Desde os anos 1990, ele argumenta, a ascensão do nacionalismo hindu e a liberalização de mercado produziram uma "ofensiva religiosa, política e econômica" que pressionou a esquerda por todos os lados.
"A classe média foi apresentada a esse campo verde", diz ele. "Desenvolvimento, modernização, infraestrutura — você terá uma parte disso. Gerou-se uma aspiração."
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Jyoti Basu, membro fundador do CPI(M), recebeu a oferta de se tornar primeiro-ministro da Índia em 1996 Crédito: Sondeep Shankar/Getty Images
Os comunistas, segundo ele, tiveram dificuldades para enfrentar uma política cada vez mais organizada em torno de casta e religião, em vez de classe. "A política da divisão enfraqueceu a unidade de classe", diz Salim.
No entanto, especialistas argumentam que a esquerda não pode explicar seu declínio simplesmente por meio da ascensão do nacionalismo hindu, da política de castas e da política aspiracional.
Ao contrário da China ou do Vietnã, os partidos comunistas na Índia governavam apenas estados dentro de uma “economia política federal”, diz Sanjay Ruparelia, professor de política na Universidade Metropolitana de Toronto, no Canadá.
Isso os deixou sob crescente pressão para atrair investimentos privados e gerar crescimento. Em Bengala Ocidental, essa contradição explodiu de forma espetacular: o partido que havia surgido por meio de reformas agrárias foi subitamente acusado de desapropriar terras de camponeses em nome da indústria.
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Em Tripura, o governo da esquerda incluiu um período ininterrupto de 25 anos antes de sua derrota para o BJP em 2018 Crédito: Reuters
Kerala se destacou, ganhando atenção internacional, pelo planejamento descentralizado, altos indicadores sociais, alfabetização, redução da pobreza e um forte sistema de saúde pública.
Mas o modelo tinha tensões subjacentes. "Kerala continuou dependendo fortemente de remessas do exterior, que oscilaram, criando crescentes pressões fiscais e geração insuficiente de empregos, especialmente entre os jovens", diz Ruparelia.
O mais impressionante é que os próprios comunistas de Kerala adotaram o modelo econômico ao qual antes se opunham.
Um documento de política do CPI (M) de 2022 passou a endossar investimento privado, parcerias público-privadas, universidades privadas e serviços tecnológicos integrados globalmente.
Para cientistas políticos como Ruparelia, essa evolução destacou uma realidade mais ampla: os partidos comunistas da Índia eram frequentemente "melhor entendidos como sociais-democratas do que comunistas".
Em vez de buscar a revolução, eles funcionavam em grande parte como partidos parlamentares centrados no bem-estar, nos direitos trabalhistas e na redistribuição.
"A Índia era incomum por ter partidos da tradição comunista bem-sucedidos em eleições democráticas", afirma.
No entanto, argumenta MA Baby, secretário-geral da CPI (M), os governos estaduais sempre operaram dentro de restrições rígidas. “Eles têm poderes financeiros e administrativos limitados. O verdadeiro poder está em Nova Déli”, diz ele.
“Usamos governos estaduais para mostrar que, mesmo dentro da estrutura socioeconômica capitalista, políticas e alternativas pró-povo são possíveis, apesar dos poderes limitados.”
Mas a base social que sustenta esse modelo tem se corroído constantemente. O trabalho organizado sempre foi uma minoria na vasta economia informal da Índia. A política de bem-estar passou cada vez mais da mobilização de classes para transferências diretas de dinheiro e coalizões baseadas em identidade.
Os protestos dos agricultores que eclodiram em 2020 contra as leis agrícolas do primeiro-ministro Narendra Modi expuseram o quanto a política rural havia mudado.
A esquerda permanece como parte do movimento — “a voz da consciência”, como diz a analista Shikha Mukherjee —, mas não é mais a líder. Partidos regionais e sindicatos agrícolas independentes ocuparam esse espaço.
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Ansioso para abandonar sua imagem de um partido envelhecido, o CPI (M) em Bengala começou a promover uma geração mais jovem de líderes Crédito: Samir Jana/Hindustan Times via Getty Images
"A esquerda perdeu seu lugar como a principal voz dos direitos e das garantias. Ela tem dificuldades para se adaptar à economia moderna, e a confusão ideológica está no cerne do movimento", diz Mukherjee.
A Índia hoje é marcada pela crescente desigualdade, pelo desemprego crônico dos jovens e pelo aprofundamento da insegurança econômica — condições nas quais se esperava que a política marxista florescesse. Como observa Ruparelia, “as condições objetivas, como os esquerdistas costumam dizer, devem beneficiá-los”.
"A esquerda deveria estar nas ruas. Onde eles estão?", questiona Mukherjee.
O paradoxo não é exclusivo da Índia. Após a crise financeira de 2008, a Europa também viu o surgimento de novos partidos de esquerda. Mas muitos enfrentaram dificuldades diante de populistas nacionalistas que mobilizaram trabalhadores por meio da "política da imigração e do etnonacionalismo, em vez da solidariedade de classe", diz Ruparelia.
A esquerda indiana, argumenta Mukherjee, enfrentou um desafio semelhante com o BJP. Ainda assim, escrever obituários para movimentos políticos é prematuro.
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O comunismo indiano sobreviveu a divisões, repressão estatal e colapso eleitoral Crédito: NurPhoto via Getty Images
O comunismo indiano sobreviveu a divisões, repressão estatal e colapso eleitoral. Suas redes organizacionais, embora reduzidas, ainda existem em partes do país.
Se a esquerda consegue transformar essa presença residual em renovação política é outra questão. “O CPI (M) precisa se reinventar — trabalhar dentro do sistema econômico que a liberalização criou, não simplesmente se opor a ele”, diz Mukherjee.
Em Bengala Ocidental, Salim insiste que o partido está novamente “se reagrupando, reposicionando e rejuvenescendo”.
Com vontade de se livrar da imagem de envelhecido e resistente à mudança, tem promovido uma geração mais jovem de líderes à linha de frente. “Os comunistas devem se rejuvenescer constantemente. A única constante é a mudança em si”, diz Baby.
Mas a escala do declínio da esquerda continua alta. Na eleição de Bengala, o CPI (M) ganhou apenas um assento na assembleia de 294 membros e obteve pouco mais de 4% dos votos.
Kerala, no entanto, conta uma história diferente: mesmo na derrota, o LDF manteve cerca de um terço dos votos, sublinhando que os comunistas continuam sendo uma força política significativa ali. Em Tripura, um retorno ao poder ainda parece distante.
No entanto, os líderes partidários insistem que o declínio eleitoral da esquerda não captura totalmente sua relevância social e política. “Estamos esperançosos? Claro”, diz Baby. “Na verdade, perguntamos: sem nós, que futuro existe? Os assentos são importantes, mas nosso lugar no coração das pessoas é mais importante.”

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