Publicado em 11 de fevereiro de 2026 às 16:09
Bangladesh está caminhando para o que muitos consideram a eleição mais importante em décadas.>
Na quinta-feira (12/2), 127 milhões de cidadãos devem votar na primeira eleição nacional desde o levante estudantil de julho de 2024, que derrubou o governo.>
A eleição será um teste sobre a possibilidade de recuperação em um país abalado por anos de turbulência política, instabilidade, repressão e prisões em massa.>
Mas onde estão os filhos da revolução de Bangladesh, considerada a primeira e mais bem-sucedida de uma série de protestos da geração Z (os nascidos entre 1995 e 2010; os anos são aproximados, porque não há um consenso claro desta classificação) em todo o mundo? E por que eles não estão se preparando para assumir o poder?>
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Há pouco mais de dois anos, a primeira-ministra mais longeva de Bangladesh, Sheikh Hasina, conquistou um quarto mandato sem precedentes.>
Aquela eleição foi amplamente denunciada como fraudulenta, além de ter sido boicotada pelo Partido Nacionalista de Bangladesh (PNB), então principal força de oposição à Liga Awami, de orientação liberal-centrista e liderada por Hasina.>
As manifestações lideradas por estudantes começaram ainda naquele ano com a exigência de extinguir o sistema de cotas para cargos no serviço público. Um terço das vagas era reservado a parentes de veteranos da Guerra de Independência de Bangladesh, contra o Paquistão, em 1971.>
O governo de Sheikh Hasina havia abolido o sistema em 2018, mas ele foi restabelecido em 2024. Diante da pressão, a Suprema Corte de Bangladesh anunciou a anulação da maior parte das cotas para empregos no governo, naquele momento.>
No verão seguinte, o uso da polícia pelo governo Hasina para reprimir violentamente os manifestantes transformou os protestos em um movimento nacional contra o governo, com epicentro na capital, Daca.>
O governo da Liga Awami – conhecido como Liga Popular de Bangladesh – desligou a internet, prendeu dissidentes com base na Lei de Segurança Digital e disparou munição real contra ativistas estudantis.>
Diante do aumento dos pedidos para que renunciasse, Hasina se manteve desafiadora e chamou os manifestantes de "terroristas". Também colocou centenas de pessoas na prisão e apresentou acusações criminais contra outras centenas.>
Um áudio vazado sugeriu que ela teria ordenado às forças de segurança que "usassem armas letais" contra os manifestantes. Hasina nega ter dado ordem para atirar contra civis desarmados.>
Algumas das cenas mais violentas ocorreram em 5 de agosto de 2024, dia em que Hasina fugiu de helicóptero para a Índia, antes que multidões invadissem sua residência em Daca.>
A polícia matou ao menos 52 pessoas naquele dia, em um bairro movimentado, tornando-o um dos piores casos de violência policial na história do país.>
No total, cerca de 1.400 pessoas morreram durante os protestos, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a ampla maioria por ação das forças de segurança.>
Hasina vive agora no exílio, na Índia, que se recusou a extraditá-la para que enfrente uma sentença de pena de morte pela repressão, dada à revelia dela no ano passado pelo tribunal de crimes de guerra de Bangladesh.>
Muitos outros líderes da Liga Awami também estão abrigados na Índia com ela. Alguns foram presos em Bangladesh.>
Muhammad Yunus, laureado com o Nobel da Paz, assumiu o comando dias após a queda de Hasina. >
Uma das primeiras decisões de seu governo interino foi proibir a Liga Awami — o partido mais antigo do país, que reunia cerca de 30% do voto popular — e seus parceiros de coalizão de exercer qualquer atividade política.>
A Comissão Eleitoral também cancelou o registro do partido, deixando o antes oposicionista PNB, liderado por Tarique Rahman e que passou por um reposicionamento para se apresentar como uma força liberal democrática, como o maior partido político na disputa eleitoral deste ano.>
A queda de Hasina pareceu anunciar uma nova era. Alguns líderes estudantis passaram a ocupar cargos-chave no governo interino, na tentativa de moldar o país pelo qual haviam ido às ruas lutar.>
Esperava-se que eles tivessem papel relevante na futura administração do país. No entanto, o Partido Nacional dos Cidadãos (PNC), voltado ao público jovem e formado por líderes estudantis que conduziram a revolução, já enfrenta profundas divisões internas.>
O primeiro grande sinal de dificuldade para o PNC surgiu em setembro, quando os candidatos apoiados pelo braço estudantil do Jamaat-e-Islami, partido islamista anteriormente impedido de atuar na política principal, venceram por ampla margem as eleições estudantis nas principais universidades de Bangladesh. A votação foi vista como um termômetro do humor nacional.>
Chamou atenção o fato de que, pela primeira vez desde a independência, um partido islamista assumiu o controle do diretório estudantil da prestigiosa Universidade de Daca.>
Diante desse cenário, o PNC tomou uma decisão e, em dezembro, anunciou uma aliança multipartidária com o Jamaat.>
O líder do partido Jamaat-e-Islami, Shafiqur Rahman, disse à BBC News que o partido se compromete a combater a corrupção e restaurar a independência do Judiciário — promessas que, embora difíceis de cumprir em um país com níveis historicamente elevados de corrupção, têm encontrado respaldo entre muitos eleitores.>
O PNC também prometeu erradicar a corrupção. Seu manifesto inclui ainda propostas voltadas aos jovens:>
Mas o Jamaat-e-Islami permite que o PNC lance apenas 30 candidatos, e apenas dois deles são mulheres.>
O próprio Jamaat apresenta mais de 200 candidatos, todos homens. Embora haja alguns outros partidos menores, a disputa central na eleição deste ano será entre o Jamaat e o Partido Nacionalista de Bangladesh (PNB).>
Após ver milhares de apoiadores e líderes presos sob o governo da Liga Awami, o PNB agora intensifica a pressão sobre o partido estudantil.>
Assim como a Liga Awami — cuja líder, Sheikh Hasina, é filha de Sheikh Mujibur Rahman, considerado o fundador do país — o PNB está ligado a uma dinastia política.>
Recém-retornado após 17 anos de exílio em Londres (Reino Unido), seu novo líder, Tarique Rahman, 60, é filho da falecida Khaleda Zia, primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra de Bangladesh, que chegou ao poder depois que seu marido, um ex-presidente, foi assassinado em um golpe militar.>
Embora as preocupações cotidianas como alta de preços, emprego, corrupção e segurança pública predominem, a questão central é saber se o novo governo conseguirá implementar reformas políticas e assegurar um processo democrático.>
Há anos o país registra episódios de violência política, incluindo repressões brutais, prisões em massa e desaparecimentos forçados. Cresce a demanda por responsabilização por abusos cometidos sob governos anteriores.>
A corrupção é outro tema central, especialmente no exercício de cargos públicos.>
Em novembro de 2025, o Banco Mundial afirmou que a pobreza em Bangladesh havia aumentado e que havia menos empregos, sobretudo para as mulheres.>
Com mais de 40% do eleitorado apto a votar na faixa de 18 a 37 anos, emprego e segurança física estão entre as principais prioridades.>
Para a maioria dos eleitores, a eleição gira em torno de saber se a próxima liderança será capaz de trazer estabilidade, equidade e a percepção de que o Estado funciona em favor da população.>
Bangladesh elege os 300 integrantes de seu Parlamento por meio do sistema "first-past-the-post" (um sistema de maioria simples determinado por meio de uma única votação): um distrito eleitoral, um parlamentar.>
O candidato que obtém o maior número de votos — ainda que receba menos de 50% do total — é eleito. A maioria simples no Parlamento é suficiente para formar o governo.>
Neste ano, pela primeira vez, bangladeshianos que vivem no exterior poderão votar com cédulas enviadas por correio.>
A Comissão Eleitoral emitiu mais de 800 mil cédulas, que precisam chegar ao respectivo presidente de mesa até a tarde de quinta-feira (12/2).>
Embora tenham sido levantadas preocupações sobre atrasos e possíveis fraudes, a Comissão Eleitoral adotou medidas preventivas, como reconhecimento facial e rastreamento por aplicativo móvel, para garantir transparência.>
Além de eleger um novo governo na quinta-feira (12/2), o eleitorado também votará em um referendo constitucional para decidir se a Declaração Nacional de Julho será implementada.>
A declaração define como Bangladesh será governado.>
O objetivo é reduzir a concentração de poder no Executivo, fortalecer os mecanismos de freios e contrapesos e impedir o tipo de predominância política que marcou o país nas últimas décadas.>
Uma vitória do "Sim" obrigará legalmente o novo governo a implementar um conjunto de 84 mudanças, entre elas a criação de um Parlamento com duas Casas, uma Alta e uma Baixa (no Congresso brasileiro, por exemplo, o Senado é tido como a Casa Alta, e a Câmara dos Deputados, a Casa Baixa).>
As três últimas eleições nacionais do país foram amplamente contestadas, marcadas por acusações de fraude eleitoral e episódios de violência. O PNB as boicotou em 2014 e 2024.>
Desta vez, a ausência da Liga Awami levanta questionamentos sobre inclusão e competitividade nas eleições.>
A eleição também tem as redes sociais como eixo central da campanha, com redes sociais como TikTok, Facebook e YouTube convertidos em um novo campo de disputa para conquistar o amplo eleitorado jovem.>
Uma avalanche de conteúdos gerados por inteligência artificial (IA) suscitou preocupações quanto à desinformação e à disseminação de narrativas fabricadas capazes de manipular os eleitores.>
Impulsionadas por rivalidades históricas e pela polarização política, as eleições em Bangladesh têm sido propensas à violência.>
O período que antecede as eleições de 2026 reforçou esse padrão, com relatos de confrontos, assédio a militantes de campanha e intimidação de eleitores em diversas regiões do país.>
Nos últimos dias, surgiram informações sobre a morte de vários ativistas políticos, o que levou organizações de direitos humanos a manifestar preocupação.>
As inquietações com a segurança são ampliadas pelos desdobramentos do levante de julho de 2024 — centenas de armas de fogo saqueadas continuam desaparecidas, o que eleva o risco de confrontos armados.>
Muito dependerá da Comissão Eleitoral implementar adequadamente as medidas de proteção previstas.>
A política no Sul da Ásia é profundamente entrelaçada com religião e identidade, e o resultado da eleição em Bangladesh pode alterar o cenário político regional, com impactos sobre migração e segurança de fronteiras.>
As relações bilaterais com Índia e Paquistão podem mudar, a depender de quem formar o governo.>
Os laços com a Índia se tornaram tensos desde que Hasina buscou refúgio no país. Já as relações com o Paquistão, há muito marcadas pelo legado da Guerra de Independência de Bangladesh, em 1971, têm dado sinais recentes de arrefecimento.>
Bangladesh também está no centro de uma disputa estratégica entre os Estados Unidos e a China. Para os chineses, o país é visto como porta de entrada para o Sul da Ásia e elo relevante na Iniciativa Cinturão e Rota (One Belt, One Road), conhecida como a nova rota da seda.>
Como segunda maior economia do Sul da Ásia, a estabilidade de Bangladesh pode influenciar de forma significativa o cenário diplomático regional.>
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