Publicado em 18 de abril de 2025 às 12:38
À medida que se intensifica a guerra comercial entre a China e os Estados Unidos, vêm chamando a atenção os níveis cada vez mais altos de tarifas impostas pelos dois países às importações mútuas.>
Mas a criação de tarifas de importação recíprocas sobre os produtos americanos não é a única forma de retaliação disponível para Pequim.>
A China também criou controles de exportação sobre uma série de minerais críticos, terras raras e ímãs, o que representa um golpe considerável para os Estados Unidos.>
A decisão expôs como os americanos dependem desses minerais.>
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Nesta semana, o presidente americano Donald Trump ordenou que o Departamento do Comércio dos Estados Unidos identificasse formas de ampliar a produção nacional de minerais críticos e reduzir a dependência das importações. É uma tentativa de Washington de recuperar essa indústria fundamental.>
Mas por que as terras raras são tão importantes? E como elas podem sacudir a guerra comercial entre a China e os Estados Unidos?>
As "terras raras" são um grupo de 17 elementos quimicamente similares que são fundamentais para a fabricação de muitos produtos de alta tecnologia.>
A maioria delas é abundante na natureza. Mas elas são chamadas de "raras" porque é muito difícil encontrá-las em forma pura – e sua extração é muito arriscada.>
Os nomes nomes de algumas dessas terras raras podem não ser familiares, como neodímio, ítrio e európio. Mas você certamente conhece muito bem os produtos fabricados com elas.>
O neodímio, por exemplo, é empregado para fabricar os poderosos ímãs usados em alto-falantes, discos rígidos de computador, motores de veículos elétricos e motores a jato, permitindo que eles sejam menores e mais eficientes.>
Ítrio e európio são utilizados para fabricar telas de televisores e monitores de computador, devido à sua forma de exibição de cores.>
"Tudo o que você pode ligar e desligar, provavelmente, depende das terras raras", explica o diretor da empresa Ginger International Trade and Investment, Thomas Kruemmer.>
As terras raras também são fundamentais para a tecnologia médica, como cirurgias a laser e exames de ressonância magnética, além das principais tecnologias de defesa.>
A China detém quase o monopólio da extração das terras raras e seu refino, que é o processo de sua separação de outros minerais.>
A Agência Internacional de Energia (AIE) estima que a China é responsável por cerca de 61% da produção de terras raras e 92% do seu processamento.>
Isso significa que o país atualmente domina a cadeia de fornecimento de terras raras e têm o poder de decidir quais empresas podem ser abastecidas e quais não podem.>
A extração e o processamento das terras raras são processos caros e poluentes.>
Todas as terras raras contêm elementos radioativos. Por isso, muitos outros países, como os membros da União Europeia, relutam em produzi-los.>
"Os resíduos radioativos da produção certamente exigem descarte seguro, apropriado e permanente", explica Kruemmer. E, "atualmente, todas as instalações de descarte da União Europeia são temporárias".>
Mas a dominância chinesa da cadeia de abastecimento de terras raras não veio da noite para o dia. Ela é o resultado de décadas de investimentos e políticas governamentais estratégicas.>
Em 1992, durante uma visita à Mongólia Interior, no norte da China, o então líder chinês Deng Xiaoping (1904-1997), responsável pelas reformas econômicas realizadas no país, fez a declaração que ficou famosa:>
"O Oriente Médio tem petróleo e a China tem terras raras.">
"Desde o final do século 20, a China prioriza o desenvolvimento das suas capacidades de mineração e processamento de terras raras – muitas vezes, a custos trabalhistas e com padrões ambientais inferiores a outras nações", afirma o pesquisador de materiais críticos Gavin Harper, da Universidade de Birmingham, no Reino Unido. >
"Isso permitiu que eles ultrapassassem os concorrentes globais e construíssem quase um monopólio de toda a cadeia de valores, da mineração e refino até a fabricação de produtos acabados, como ímãs.">
Em resposta às tarifas de importação impostas por Washington, a China começou, no início de abril, a criar restrições à exportação de sete minerais de terras raras. A maioria deles é conhecida como terras raras "pesadas", que são fundamentais para o setor de defesa.>
Trata-se de substâncias menos comuns e de processamento mais difícil que as terras raras "leves". Por isso, elas também são mais valiosas.>
Desde o dia 4 de abril, todas as empresas precisam obter licenças de exportação especiais para enviar terras raras e ímãs para fora do país.>
A decisão foi possível porque, como signatária do Tratado Internacional de Não Proliferação de Armas Nucleares, a China tem capacidade de controlar o comércio de "produtos de duplo uso".>
O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla inglês) afirma que esta medida deixa os Estados Unidos particularmente vulneráveis – e não existe capacidade de processar terras raras pesadas fora da China.>
Um relatório geológico dos Estados Unidos indica que, entre 2020 e 2023, 70% de todas as importações americanas de metais e compostos de terras raras vieram da China.>
Ou seja, as novas restrições podem atingir duramente os Estados Unidos.>
As terras raras pesadas são empregadas em muitos campos militares, como a produção de mísseis, radares e ímãs permanentes.>
Um relatório do CSIS (um centro de pesquisa e estudos nos EUA) indica que tecnologias de defesa, como os jatos F-35, os mísseis Tomahawk e os veículos aéreos não tripulados Predator, dependem desses minerais.>
O organismo também destaca que a medida surge no momento em que a China "amplia sua produção de munições e adquire equipamentos e sistemas de armas avançadas a uma velocidade cinco a seis vezes maior do que os Estados Unidos".>
Para Kruemmer, "o impacto sobre a indústria americana de defesa será substancial". >
E não apenas neste setor. As indústrias americanas – que Trump espera fazer reviver com a imposição das tarifas de importação – correm o risco de sofrer graves prejuízos.>
"Os fabricantes, particularmente dos setores de defesa e alta tecnologia, podem enfrentar escassez e atrasos de produção, devido à suspensão dos embarques e aos estoques limitados", segundo Harper.>
"Espera-se que os preços das terras raras críticas subam, aumentando os custos imediatos dos componentes empregados em uma ampla variedade de produtos, desde smartphones até equipamentos militares", explica ele.>
Harper destaca que essa situação poderá resultar em possíveis atrasos de produção para as empresas americanas afetadas.>
Se a falta de abastecimento da China persistir a longo prazo, os Estados Unidos poderão começar a diversificar suas cadeias de fornecimento e escalonar suas capacidades domésticas de processamento.>
Mas esse processo exigiria "investimentos substanciais e prolongados, avanços tecnológicos e custos gerais possivelmente superiores à dependência anterior da China".>
Ficou claro que essa possibilidade já está na mente de Donald Trump. Nesta semana, o presidente ordenou uma investigação sobre os riscos à segurança nacional causados pela dependência americana desses minerais críticos.>
"O presidente Trump reconhece que a dependência excessiva de minerais críticos estrangeiros e seus produtos derivados poderá prejudicar as capacidades de defesa, desenvolvimento de infraestrutura e inovação tecnológica dos Estados Unidos", segundo a ordem.>
"Os minerais críticos, incluindo elementos de terras raras, são essenciais para a segurança nacional e a resiliência econômica.">
Os Estados Unidos possuem uma mina de terras raras em operação. Mas o país não tem a capacidade necessária para separar terras raras pesadas e precisa enviar o minério para processamento na China.>
Já existiram empresas fabricantes de ímãs de terras raras nos Estados Unidos. O país era o maior produtor de terras raras do mundo até os anos 1980.>
Mas essas empresas deixaram de operar quando a China começou a dominar o mercado, em termos de custo e escala.>
Acredita-se que esse processo seja uma das razões da forte disposição de Donald Trump em assinar um acordo de minerais com a Ucrânia, o que reduziria sua dependência da China.>
Outro local na mira do presidente americano é a Groenlândia, que detém a oitava maior reserva de terras raras do planeta.>
Trump vem demonstrando repetidamente seu interesse em assumir o controle do território dinamarquês autônomo. E não descartou o uso de força militar ou econômica com esse propósito.>
Os Estados Unidos poderiam ter recorrido a esses lugares como fonte de parte das suas importações de terras raras. Mas o tom antagônico de Donald Trump frente a esses territórios pode ter deixado os Estados Unidos com muito poucas alternativas de fornecedores.>
"O desafio enfrentado pelos Estados Unidos é duplo", explica Gavin Harper. "De um lado, o país se afastou da China, que detém o monopólio de fornecimento das terras raras.">
"E, de outro lado, os Estados Unidos também antagonizam com muitos países que, antes, eram amigos e colaboradores, impondo tarifas de importação e outras ações hostis.">
"Só o tempo dirá se eles ainda irão priorizar a colaboração com os Estados Unidos, no turbulento ambiente político deste novo governo", conclui o pesquisador.>
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