Publicado em 4 de novembro de 2024 às 10:07
Faltam mais de 24 horas para que as urnas comecem a fechar nas eleições americanas de 2024, mas já há uma expectativa de que o processo de contagem de votos que se seguirá seja lento e tumultuado. Ou seja, a apuração do resultado deve se arrastar por alguns dias. >
É o que afirmam à BBC News Brasil observadores eleitorais que se dedicaram nas últimas semanas a avaliar e reforçar a integridade e segurança do sistema e que passarão os próximos dias fiscalizando o trabalho dos oficiais eleitorais.>
Uma série de fatores explica o pouco otimismo destes profissionais em ver um processo eleitoral ordeiro e tranquilo: a falta de regras e padrões eleitorais nacionais, lentidão na apuração em Estados-chave, possível comportamento antidemocrático dos próprios candidatos, a chance de haver correntes de desinformação, e a possibilidade razoável de judicialização da disputa.>
Além, é claro, do histórico de descrédito eleitoral de 2020, quando quase metade do país se convenceu de que as eleições tinham sido fraudadas, graças às infundadas declarações do então presidente Donald Trump e de seus aliados, derrotados naquele pleito. >
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O processo desaguou numa inédita invasão de apoiadores de Trump ao Capitólio no momento em que o Congresso certificava a vitória do democrata Joe Biden, em 6 de janeiro de 2021. Até por isso, há um clima de tensão e ansiedade em relação aos dias que sucedem o pleito, marcado para 5 de novembro.>
Alguns dos problemas devem acontecer por características próprias à corrida eleitoral nos EUA. A eleição presidencial é indireta, via Colégio Eleitoral. Cada Estado tem um número de delegados eleitorais - semelhante ao número de congressistas que possuem. >
Há, no total, 538 delegados e vence o candidato que conquistar 270 deles. Na maior parte dos Estados, quem vencer no voto popular leva todos os delegados que o Estado possui - Maine e Nebraska são exceções à essa regra.>
Cada Estado conduz a votação e a apuração segundo suas próprias regras, em mais uma expressão do federalismo que define o país. >
“Mas o que era historicamente uma força tem se mostrado a grande debilidade do sistema, a falta de uma autoridade central, pra racionalizar o processo”, afirmou um dos observadores eleitorais em campo nos EUA que conversou com a BBC News Brasil sob anonimato por não ter autorização de sua organização para comentar fora dos relatórios técnicos.>
Ainda segundo esse profissional, que atua em eleições tanto na América do Norte quanto na América Latina, o que se vê nos EUA é uma discrepância muito grande entre procedimentos e padrões de conduta no processo eleitoral. >
“Enquanto a Califórnia segue um padrão ouro, com enorme garantia de participação dos eleitores, e facilidades para que o voto seja concretizado com tranquilidade e conforto, a Carolina do Norte é o oposto, forçando seus eleitores a enfrentarem enormes filas pra votar e lembrando o que se vê de menos avançado em países latinos”, exemplifica o profissional.>
São sete os Estados-pêndulos, aqueles que oscilam entre candidatos republicanos e democratas, nos quais a disputa se concentra em 2024. As pesquisas eleitorais sugerem um cenário extremamente acirrado entre a democrata Kamala Harris e o republicano Donald Trump pela Casa Branca. >
Há meses, com algumas oscilações numéricas para um lado ou o outro, as sondagens têm mostrado ambos em virtual empate técnico. E isso deve também complicar a apuração.>
“A contagem de votos pode levar de alguns dias a algumas semanas. Vai depender se teremos disputas muito apertadas em mais de um Estado. Quanto mais Estados com margens estreitas de vitória, mais deve demorar”, afirmou à BBC News Brasil David Carroll, diretor do Programa de Democracia do Carter Center, que trabalha diretamente nas eleições americanas.>
Em alguns Estados decisivos, há recontagem obrigatória a depender do tamanho da diferença de votos entre um candidato e outro. No Arizona e na Pensilvânia, por exemplo, se a distância é igual ou menor a 0,5% dos votos totais no Estado, há recontagem obrigatória. >
A Pensilvânia também permite pedidos de recontagem por seção eleitoral, desde que ao menos três eleitores apresentem a demanda com justificativa sobre suspeita de fraude. No Michigan, a lei determina nova contagem se a diferença for menor que dois mil votos. E no Wisconsin, a recontagem é automática se a margem de vitória for inferior a 0,25% dos votos.>
Já Nevada, Carolina do Norte, Wisconsin e Geórgia também permitem que candidatos peçam recontagem sob algumas condições, como bancar os custos do processo e apresentar justificativa crível de fraude ou erro de processamento.>
Na Geórgia, segundo Carroll, o Carter Center compõe com outras organizações uma comissão observadora que fará a auditoria da contagem de votos e não descarta uma recontagem total das cédulas do Estado, caso a disputa esteja muito apertada.>
Em 2020, 5 milhões de votos foram contados manualmente ali - um processo que se arrastou por alguns dias. O então presidente Donald Trump pressionou pública e privadamente as autoridades locais por recontagens que pudessem contestar a apertadíssima vitória de Biden no Estado. >
Tornou-se famoso um telefonema do republicano com o chefe do sistema eleitoral estadual em que ele pede que o servidor “encontre 11.780 votos” favoráveis a Trump, o que viraria o Estado para os republicanos. Por causa disso, ele enfrenta um processo criminal, ainda sem veredicto.>
Observadores eleitorais notam que é altamente improvável que os dois maiores Estados decisivos, Geórgia (16 delegados) e Pensilvânia (19 delegados), tenham resultados já apurados na noite da eleição, dia 5/11. O esperado é que eles finalizem o trabalho na sexta-feira subsequente, 8/11.>
“Mas é muito provável que um dos candidatos tente já clamar vitória na própria terça, diante de um quadro de vantagem parcial, e tente caracterizar uma possível virada, quando os números de Pensilvânia e Geórgia chegarem, como uma fraude eleitoral”, disse um dos observadores ouvidos pela reportagem.>
Em 2020, algo parecido aconteceu. Na noite da eleição, diretamente da Casa Branca, o então presidente Donald Trump afirmou que era o vencedor do pleito. Mas a contabilização total dos votos e divulgação do resultado final, que contrariava o que disse Trump, só sairia cinco dias mais tarde.>
“Segue sendo possível que Trump incentive seus apoiadores a semear o caos em torno dos processos de contagem e certificação de votos, tentando assim questionar os resultados e criar um pretexto para procedimentos extraordinários para resolver uma eleição disputada a seu favor” afirma Michael Wahid Hanna, chefe do programa sobre EUA da consultoria International Crisis Group.>
Carroll também vislumbra a possibilidade de que algo parecido se repita agora. Para ele, o maior problema é que isso impulsione uma rede de informações falsas que levem as pessoas ao descrédito em relação ao processo eleitoral.>
Outro risco é que a crença em um resultado falso inflame eleitores dispostos a cometer atos de violência. Uma pesquisa feita em abril passado pela PBS NewsHour/NPR/Marist indicou que um em cada cinco adultos nos EUA concordam com a ideia de que os americanos podem ter que recorrer à violência para colocar seu país de volta no rumo certo.>
“Em Wisconsin e no Arizona temos notícias de que foram criados quase bunkers para proteger as áreas de apuração eleitoral”, disse um dos observadores ouvido pela reportagem.>
O Arizona se tornou um dos pontos de maior tensão do país. Em Maricopa County, o condado que compreende a cidade de Phoenix e que se mostrou crucial em 2020, oficiais eleitorais passaram a receber ameaças constantes. Trump os acusou de fraudar o resultado, o que teria motivado ataques de seus apoiadores. >
Há atualmente ao menos cinco processos por ameaças contra os trabalhadores eleitorais do Arizona junto ao Departamento de Justiça. >
Em 2022, nas eleições legislativas de meio de mandato, como as a ameaças persistiam, o condado convocou seis vezes mais policiais do que em 2020 e protegeu o centro eleitoral com barricadas, cavalaria e até mesmo um helicóptero. >
Todas essas precauções devem ser não só repetidas como superadas em 2024. No início do mês passado, um homem foi preso por disparar tiros contra o Comitê Democrata em Phoenix - ninguém se feriu.>
Recentemente, o secretário de Estado do Arizona, a mais alta autoridade eleitoral local, admitiu que nos últimos quatro anos ele “quase sempre se apresentou em público usando um colete à prova de balas”.>
E em outubro, caixas de correios com votos foram incendiadas e danificadas não só no Arizona, como em Massachussets, Washington e Oregon. Algumas centenas de votos foram perdidas e o caso segue sob investigação.>
Não é apenas provável que juízes sejam chamados a arbitrar nas eleições de 2024 como, na verdade, este é um processo que já vai avançado. >
Nos 50 Estados, há quase duas centenas de ações judiciais já movidas, seja para contestar regras, seja para esclarecer pontos da disputa.>
Na Geórgia, por exemplo, um dos Estados mais disputados em 2020, a Assembleia Legislativa chegou a aprovar uma lei que obrigava que “os funcionários contassem manualmente o número de votos depositados em cada local de votação no dia da eleição” para que, depois, esses mesmos números fossem confrontados com contagens em máquina - algo que prometia não apenas atrasar o processo como gerar desconfianças em série pela possibilidade de erros humanos na contagem manual de algo em torno de cinco milhões de votos. >
E mesma lei também permitia que os oficiais eleitorais se recusassem a certificar o resultado aferido no Estado. A regra acabou derrubada na Justiça um pouco antes do pleito atual.>
Em outra ação, a procuradoria da Pensilvânia contesta legalmente uma iniciativa do bilionário Elon Musk, dono da plataforma X (ex-Twitter), de doar US$ 1 milhão por dia para um eleitor de Estado-pêndulo sorteado entre os nomes de pessoas que assinarem um manifesto pró-armas e liberdade de expressão patrocinado pelo comitê ação política de Musk, criado para apoiar a candidatura Trump. >
Nos EUA é ilegal pagar para que uma pessoa vote (o voto não é obrigatório), e trocar remuneração pela escolha de um candidato. Musk nega que esteja fazendo isso ao premiar quem subscreveu seu abaixo-assinado. >
Convocado a se explicar na Corte na semana passada, Musk não compareceu à audiência. Agora, ele está sujeito a uma condição coercitiva e é incerto que decisão poderia surgir após as eleições deste processo.>
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