Publicado em 20 de março de 2026 às 14:34
Quando eu comecei a explorar o mundo do prepping (preparação para emergências, em tradução livre), não sabia o que esperar. Parte de mim imaginava algo teatral, como kits para apocalipse zumbi ou bunkers nucleares.>
Mas, ao me aventurar pelo interior da região central do País de Gales, ficou claro que eu havia caído em estereótipos.>
Leigh Price, 51, de Builth Wells, disse que não estava se preparando para hordas de zumbis vagando pelos arredores, como muitos poderiam supor, mas para ameaças muito mais reais.>
"Todo mundo acha que um prepper [indivíduo que se prepara para grandes catástrofes] é algum tipo de maluco de chapéu de alumínio. Não me entenda mal, há alguns por aí. Mas muitos dos estereótipos sobre preppers vêm dos Estados Unidos; no Reino Unido, é totalmente diferente.">
>
Prepping é um movimento global de pessoas que se preparam para a eventualidade de que a sociedade venha a colapsar parcial ou totalmente.>
Isso geralmente envolve manter um estoque de alimentos e aprender habilidades necessárias para se virar por conta própria.>
Price, pai de três filhos, serviu no Exército, mas hoje administra uma loja especializada para preppers e oferece cursos de sobrevivência.>
Cercado por árvores na zona rural de Powys, no País de Gales, o local é um ambiente tranquilo para uma loja que tinha todo o equipamento que se pode imaginar para sobreviver ao fim da civilização, incluindo balestras (arma antiga semelhante a um arco, por vezes conhecida como besta) e paredes cobertas de facas.>
"Algumas pessoas estão se preparando para o fim do mundo, um ataque nuclear ou seja lá o que for, e eu sempre digo: 'olha, quando se trata de um ataque nuclear, não é impossível, mas é altamente improvável'", diz Price.>
"É melhor você se preparar para as coisas que têm mais probabilidade de acontecer.">
Price disse: "O mundo está ficando um pouco mais perigoso. A instabilidade social está no limite. Há algumas coisas acontecendo no mundo, nações contra nações.">
A lista de possíveis ameaças dele inclui ataques cibernéticos que "podem derrubar a rede elétrica nacional", interrompendo todos os aspectos da vida moderna.>
"Se isso derrubar as redes elétricas, voltamos à Idade da Pedra. Pelo menos por alguns dias", disse Price.>
"Você pode imaginar então que, quando as pessoas entram em pânico, tendem a fazer coisas desesperadas.>
"O pior cenário que pode acontecer é as pessoas começarem a saquear as casas dos outros, haverá brigas, incêndios... Então, como você se prepararia para isso?">
Eu havia presumido que poderia simplesmente pegar meu kit de primeiros socorros e minha barraca e correr para as colinas em um cenário assim, até Price me dizer que esse é o maior erro que as pessoas cometem.>
"Elas acham que poderiam sobreviver como Rambo na natureza, mas, depois de alguns dias de vento, chuva e frio, vão pensar duas vezes", disse.>
A chave é defender o seu local ou se deslocar para um mais seguro, como a casa de um amigo, afirmou Price.>
Ele disse ainda que muitas pessoas acreditam que os preppers têm bunkers cheios de armas e munição, mas, na realidade, são "pessoas comuns do dia a dia, de todas as origens e de todos os espectros políticos", que têm o suficiente do básico para sobreviver por semanas sem precisar de supermercados ou do governo.>
Para avaliar em que nível eu estava em termos de preparação, Price me submeteu a um teste. Depois de fazer várias perguntas sobre o meu estoque de alimentos, água e kits de primeiros socorros, ele disse que eu havia tirado 7/10.>
Aparentemente, estar acostumado a fazer compras grandes por ter crescido na zona rural da Cornualha e ter equipamentos de acampamento faz com que você esteja razoavelmente preparado.>
Mas, para aumentar a minha pontuação, precisaria comprar um kit de primeiros socorros melhor, um filtro de água e mais comida, muito mais comida.>
Price disse que sempre esteve preparado para emergências, mas considera isso apenas bom senso.>
Ele abriu parcialmente a loja após a pandemia de covid-19, para poder se preparar caso algo semelhante voltasse a acontecer, depois de ter de fechar seu negócio anterior.>
"Pensei: 'bem, vou fazer algo em outro lugar, mesmo que isso aconteça de novo', [assim] eu ainda poderia manter um negócio e sustentar a minha família.">
Administrar a loja permite que ele compre seu próprio equipamento de prepping a preços de atacado. Ele disse que não poderia "nem arriscar um palpite" sobre quanto já gastou se preparando, mas acha que pode ter sido "algumas milhares de libras".>
Ele acrescentou que não é obcecado por prepping e passa apenas cerca de uma hora por semana verificando se seu equipamento está em boas condições.>
As lojas de Price são úteis para todos os tipos de emergência, ele disse, e por viver em uma área rural, ele obtém água de um poço artesiano, o que significa que um eventual apagão não apenas apaga as luzes, mas também impede o acesso à água potável, a menos que seja possível purificá-la.>
O que, é claro, ele consegue fazer, já que possui uma bomba com filtro de água para acessar essa reserva subterrânea por meio do poço.>
"Eu não me preparo para uma coisa específica, por assim dizer. Sempre penso que, se você está devidamente preparado e tem tudo organizado em casa, não importa o que aconteça, você consegue lidar com isso.">
Isso significa uma abordagem diferente dependendo de onde você está.>
Por exemplo, em uma viagem a Londres, na Inglaterra, Price disse: "Eu sempre teria um kit de primeiros socorros, não importa para onde eu vá. Provavelmente teria algum tipo de lenço, se houver, por exemplo, um incêndio, você pode cobrir a boca com ele. Uma lanterna, caderno e caneta, um bom casaco impermeável.">
Price disse que uma das coisas que recomenda é encontrar uma comunidade: "Prosperamos como espécie humana vivendo juntos; ninguém vai sobreviver sozinho fugindo para a natureza. Em uma situação extrema, é melhor trabalharmos juntos.">
Há três anos, havia apenas um encontro de preppers no País de Gales, mas agora eles acontecem regularmente em todo o país, disse Price.>
Donna Lloyd, 60, também acredita na criação de uma comunidade.>
Ela administra uma página no Facebook sobre prepping e começou a reunir suprimentos depois que a sua eletricidade caiu durante o lockdown da pandemia.>
Ela e sua esposa, que vivem em Powys, no País de Gales, não conseguiram fazer uma xícara de chá, então um amigo foi até a casa delas com um fogareiro de acampamento para ferver água.>
"Foi como aquele momento de estalo, eu me senti meio vulnerável e um pouco boba", disse.>
"Pensei: 'bem, eu posso comprar um fogareiro de acampamento. Eu posso fazer isso'.">
Lloyd, que já trabalhou nas Forças Armadas, mas hoje atua na área de educação, armazena água, alimentos enlatados, comida liofilizada, chá, café, leite em pó e um kit de primeiros socorros.>
Assim como Price, Lloyd não está se preparando para algo específico, apenas tem consciência de que alguma coisa pode acontecer.>
Ela acredita que há um estereótipo sobre como é um prepper, mas, na prática, existe um espectro.>
Desde aqueles que têm seus próprios abrigos antinucleares até os que apenas carregam lanternas na bolsa, ela disse: "Eu fico em algum ponto no meio.">
O universo do prepping pode ser bastante reservado, afirmou, variando de "armazenar suprimentos de forma discreta a um isolamento completo de 'lobo solitário', muitas vezes para evitar estigma e rotulações", enquanto outros se concentram na construção de comunidade.>
Mas Lloyd disse que essa mentalidade não a impede de levar uma vida normal, e ela ainda tira férias.>
"Há maneiras de se preparar, de modo que, mesmo estando longe do que você normalmente carrega, ainda seja possível utilizar ou improvisar com o que tiver", disse Lloyd.>
"Algo que levo comigo o tempo todo é uma pequena ferramenta de sobrevivência no formato de cartão, com diferentes funções, como chave de fenda e abridor de garrafas.">
Ela disse que outra forma de se sentir mais confiante é aprender a fazer fogo.>
Lloyd continua: "Não se trata necessariamente de fazer fogo, mas da habilidade de identificar os elementos que ajudam você a acendê-lo.>
"Ajudar você, como pessoa, a ter confiança, a se sentir mais no controle, mais capaz de lidar com situações e mais consciente do seu ambiente.">
Ela afirmou que não faz isso por diversão, o prepping a ajuda a se sentir mais confiante e segura.>
Esse sentimento é compartilhado por Price: "Tendo esses suprimentos iniciais, você vai se sentir um pouco melhor do que alguém que não tem absolutamente nada. Um bom ditado no prepping é: 'é melhor ter e não precisar do que precisar e não ter.'">
>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta